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Um defeito de cor por Antonio Risério
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Cultura
Ter, 25 de Janeiro de 2011 17:33
antonio_risrio.jpgEu estava escrevendo um romance. Estava. Um amigo me disse que, pelo andar da carruagem, eu não estava escrevendo, mas psicografando. É possível. O romance, de fato, tinha me tomado. Mas veio a campanha de Lula à presidência, na qual me engajei, suspendendo a feitura de qualquer outro texto. Do romance, principalmente. Numa madrugada, em Brasília, não houve jeito. A estrutura do romance veio inteira: começo, meio e fim. Não consegui dormir. Fui para o computador escrever. Coloquei lá - e, depois, imprimi - o que seria o meu romance. Vim para a Bahia. E recomecei a escrevê-lo. Mas um outro amigo ficou desconfiado, quando disse a ele que ia inventar a vida de Luíza Mahin. Me disse que tinha acabado de sair um romance tratando do assunto. Encomendei o romance, pela internet. Era isso mesmo. Joguei fora as quase 200 páginas que tinha escrito.

O romance, que estava escrevendo, já tinha sido escrito. Chama-se "Um Defeito de Cor", escrito por uma jovem mineira. Não a conheço pessoalmente. O nome dela é Ana Maria Gonçalves. Mas, se eu estava psicografando alguma coisa, o mesmo espírito baixou então em dois terreiros. Alguém, algum de nós, teria de fazer o que ela fez.

Chega a ser engraçado. Imaginei fazer uma narrativa paralela, fugindo ao tema central do romance, com o padre Bartolomeu de Gusmão, o Padre Voador, que estudou no Seminário de Belém, em Cachoeira. Bartolomeu é uma personalidade que me fascina há tempos. Adoro a história de sua pirâmide voadora, mostrada ao rei e às grandes autoridades, na época, em Portugal. Assim como sou fascinado por Santos Dumont, sobre quem já escrevi aqui. Mas até nisso a Ana Maria Gonçalves foi: sua Luíza Mahin escreve um livro sobre o nosso querido padre. É demais.

É claro que fiquei meio zonzo. Meio, não, inteiramente zonzo. E Ana Maria, seja ela quem for, fez um belo trabalho. Não posso deixar de aviar algumas restrições. Há disparates antropológicos e alguns equívocos históricos. Há desleixos na narrativa. Por exemplo: Kehinde, a sua Luíza Mahin, fica sabendo duas vezes, "pela primeira vez", o que era alforria. Ana Maria teve preguiça, ainda, de rever o que tinha escrito sobre a independência da Bahia - da primeira vez que toca no assunto, prioriza o 7 de Setembro e não o 2 de Julho. O livro é prolixo. Poderia ter partes e partes cortadas. O que se passa em Lagos, por exemplo, dá sono. E muitos outros capítulos são perfeitamente dispensáveis. Ana Maria fez o contrário do que Jorge Amado nos ensinava: sentou para escrever uma obra-prima. E quase conseguiu. Porque seu livro merece ser lido e admirado.

Ninguém escreve o que ela escreveu sem uma dedicação imensa. Sem estudo. E sem um enorme esforço de concentração. E é um livro raro na paisagem lítero-cultural brasileira. Por diversos motivos. Pelo trato que ela dispensa aos pretos, em primeiro lugar. Ana Maria é provavelmente mais branca do que gostaria de ser. Mas sabe chegar lá. Sabe ir na senzala, sentir aquelas coisas, nos comover. E faz isso - virtude suprema - sem qualquer sombra de maniqueísmo. Sabe que a amizade pode cruzar fronteiras raciais, sabe o que é o sincretismo religioso, sabe que a filhadaputice desconhece classes e cores.

E fez isso se arriscando por um terreno melindroso não só em plano político-ideológico, mas também literário, o que é de uma coragem louvável, já que começa o seu romance na Itaparica estetizada - maravilhosamente - por João Ubaldo Ribeiro, em "Viva o Povo Brasileiro". Aliás, transfere, para o seu romance, uma personagem de Ubaldo, o mulato boçal que se finge descendente de ingleses, Amleto. Não gosto de sua preferência pela palavra "racha". Mas gosto - demais - de muitas outras coisas. Houve momentos em que me emocionei.

Ela consegue criar personagens que nos convencem. Que são reais, apesar de todas as idealizações. Os momentos na chácara ou no sítio da Barra, as transas na casa de dona Balbiana, no Rio de Janeiro, são muito bonitos. Eu queria conhecer um dia quem escreveu essas coisas. Queria agradecer a ela. Queria que as pessoas lessem o seu livro.

Mas, se não chegar a conhecer quem escreveu o que eu estava escrevendo, vou prometer uma coisa. Vou inventar, num romance, a vida de Ana Maria Gonçalves. Vai ser o meu jeito de me vingar - e, sobretudo, de amar - essa pessoa que não conheço. E que fez, tão bem feito, o que eu teimava em tentar fazer.


Antonio Risério é poeta e antropólogo.

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