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O bem que a pirataria nos faz por Bolívar Torres
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Cultura
Seg, 19 de Março de 2012 00:29

Bolvar_TorresPor que o compartilhamento ilegal de obras de arte democratizou a cultura e nos tornou pessoas mais inteligentes e felizes.

Entre SOPAs, PIPAs, fechamentos de sites de download e a prisão de hackers anônimos, 2012 parece ser o ano em que os governos prometem acabar com o delicioso recreio que a internet se transformou. Em vez de pensar novos modelos de distribuição, as grandes empresas ainda preferem manter seus velhos e enferrujados sistemas, pressionando os dirigentes a acabarem com o download e o compartilhamento de arquivos.

Apesar dos esforços e medidas drásticas, esquecem que os novos hábitos já estão entrincherados no cotidiano das pessoas e que a internet, historicamente, sempre conseguiu driblar novas regras com novos tipos de compartilhamento. O que as grandes empresas e os legisladores não entendem é que o mundo decidiu mudar – e cabe a eles se adaptarem a isso.

Sempre que se discute a revolução promovida pela popularização da pirataria e do download, a conversa acaba, invariavelmente, no futuro da indústria – quantos bilhões de dólares as gravadoras deixaram de ganhar? E a indústria do cinema? E a televisão? Mais uma vez, é a velha discussão de ver o copo metade cheio ou metade vazio. Talvez já esteja a hora de inverter o foco da discussão e analisar as mudanças do ponto de visto do “pirata”. O que a sociedade ganhou com a disseminação do compartilhamento ilegal? A verdade é que, ao democratizar a cultura, a pirataria pode ter ajudado toda uma geração a se tornar mais culta, informada e feliz.

Nasci em 1981, e só fui conhecer a internet no final dos anos 90. Até ter acesso ao download, que só se tornou importante de verdade no início dos anos 2000, minha geração viveu em um mundo muito diferente do que vivemos hoje. Nós sofríamos, e muito, escravos que éramos de tudo que a indústria cultural brasileira tentava nos enfiar goela abaixo: maus livros, maus discos, má televisão e uma imprensa muito inferior à de certos países. Eram as editoras, as gravadoras, os distribuidores de filmes e os canais de televisão que decidiam o que devíamos consumir e discutir.

Fui morar na França em 1989, voltando para o Brasil em 1995. No período em que fiquei por lá (entre os 8 e 13 anos) tive acesso a uma série de produtos culturais que moldaram minha formação: eu podia ler no orginal poetas dramáticos franceses do século 17, podia assistir a mostras da nouvelle vague no cinema da esquina, comprar mensalmente minha Cahiers du Cinéma, ter acesso a autores da Pléiade em boas bibliotecas sem gastar um tostão (quer dizer, pagando alguns míseros francos pelo atraso na entrega), e, depois do colégio, podia chegar em casa e sintonizar meu rádio nos programas da France Culture, ouvir entrevistas com autores e cineastas que me falavam coisas importantes, me ajudavam a crescer, enriqueciam minha formação. Não era como se eu tivesse tudo ao meu alcance – morava numa cidade pequena, e às vezes precisava pegar um trem para assistir a alguma mostra do Orson Welles na cidade vizinha, ou até mesmo ficar frustrado por não ter dinheiro para comprar um disco da nova banda de jazz que tinha ouvido na rádio France Inter. Mas era um mundo muito diferente do que eu encontrei ao voltar ao Brasil, no meio dos anos 90.

Voltei a morar em Porto Alegre, e logo me senti revoltado com o pouco que tinha à disposição. Tomei nojo da imprensa local e nacional. Um punhado de famílias detinha o monopólio da informação e não apenas insistia em me convencer a acreditar em mentiras absurdas como tentava me impor os assuntos do momento, a venerar suas próprias celebridades. Sim, porque o mesmo jornal local também era dono da rádio e da televisão, esta uma filial de uma rede nacional que compartilhava sempre as mesmas notícias, os mesmo pontos de vista, as mesmas mentiras, os mesmos modismos. Era difícil ter acesso ao que vinha de fora. Programas de rádio com artistas franceses, nunca mais (a rádio pública regional e nacional era de uma pobreza atroz, e só servia para fazer propaganda do governo). Sofri bastante para continuar a ter acesso a ver filmes e livros importantes, e só consegui porque tinha televisão a cabo e uma ótima biblioteca familiar. Dependia de uma rara mostra de filmes clássicos no cinema (em Porto Alegre, a sala Mario Quintana e a P.F. Gastal). Era uma oferta mil vezes mais pobre do que a que tinha na França, mas ainda assim, comparado com adolescentes de outros meios sociais e de cidades menores, posso dizer que tive sorte. Vivi numa espécie de país paralelo, onde podia mandar para o inferno o lixo imposto pelas grandes corporações da mídia e da indústria cultural brasileira.

Depois dos meus 20 anos, houve, de fato, uma revolução: com a internet, podia ouvir novamente minhas rádios francesas, ler jornais e revistas europeus e americanos, ter novamente acesso a uma outra visão de mundo. Com a banda larga e os sites de compartilhamento, conseguia baixar filmes raros e músicas de artistas completamente ignorados pelos distribuidores no Brasil. Antes disso, como contar com os selos brasileiros para que me oferecessem as novidades do jazz, das bandas independentes e dos músicos experimentais? Enfim, não precisava mais pagar o triplo por um disco importado, nem esperar pelo lançamento de um DVD de um filme esquecido pelas salas de cinema, ou de uma – péssima – tradução do autor revelação da última rentrée littéraire. Eu precisava apenas de um cabo, uma conexão à internet.

De vez em quando, encontro amigos de novas gerações, que cresceram nos anos 2000, cem por cento conectados. Aos 20 anos, viram toda a filmografia de D. W. Griffith e Eric Von Stroheim, descobriram curtas raros do Luc Moullet no YouTube, sabem quem é a última banda interessante do underground nova-iorquino sem ajuda de nenhum jornalista descolado (descobriram sozinhos no MySpace). Se são estudantes de línguas clássicas, leram no WikiSource aquele Virgílio no original que você não encontrava em nenhuma biblioteca da sua cidade. Se são cinéfilos, baixaram toda a obra de Ernst Lubitsch, inclusive aqueles filmes raros alemães dos anos 20 que só passavam vez que outra no MAM-RJ. Se se interessam por literatura, descobriram qual novo autor acaba de ser recomendado pelo New York Times – e não o último livro do apresentador da Globo, divulgado exaustivamente por todos os jornais, revistas e rádios pertencentes à emissora como se fosse a única coisa que prestasse no mundo. Se acham – com razão – que video game é uma nova forma de arte, buscam em publicações estrangeiras o que não temos por aqui: crítica estética de jogos eletrônicos.

Se, aos 20 anos, muitos desses moleques têm uma bagagem cultural muito mais rica do que a minha, podem ter certeza que eles devem tudo isso à internet. Ou melhor – ao compartilhamento de arquivos que os governantes e as corporações (sim, os mesmos que inisistiam em nos manter na ignorância e esconder de nós este vasto mundo que se apresenta agora) insistem em criminalizar. Qual o nosso crime, afinal? Termos acesso à cultura?

Portanto, parem de falar do mal que a pirataria fez à indústria e comecem a pensar no bem que fez à sociedade. Não seria absurdo dizer que estamos vivendo uma nova Renascença. Um material antes confiscado pelos monastérios estão finalmente ao alcance de todos. Uma vez liberados, forma-se uma nova cultura, novos gostos e tendências, uma tradição. Só que, dessa vez, não são as empresas e a mídia que nos dizem o que devemos gostar ou não gostar. Os atravessadores não dão mais as cartas. Um dia talvez irão entender que, uma vez que as pessoas provam o gosto da liberdade e da independência, dificilmente vão querer outra coisa.

Artigo publicado originalmente em http://opiniaoenoticia.com.br

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Última atualização em Ter, 27 de Março de 2012 22:38
 

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