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Racismo: o Brasil mostra a sua cara. Por José Fernandes
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Ter, 29 de Janeiro de 2019 22:16

Jose_FernandesNunca se falou tanto sobre racismo e nunca se praticou tanto abertamente o racismo no Brasil, como agora. A avalanche de atos racistas e a exibição cotidiana de preconceitos de todos os tipos na mídia

tradicional e nas redes sociais mostram que, 130 anos após a Abolição, o racismo está aí firme e forte, exibindo a verdadeira cara da “democracia racial” brasileira.

No final da década de 80, uma pesquisa da Universidade de São Paulo constatou que 95% dos brasileiros afirmavam não serem racistas, embora admitissem conhecer pessoas que eram racistas. Ou seja: “eu não sou, mas o vizinho é racista”. Agora, ao que tudo indica, a fase de negação está chegando ao fim.

Não dá mais para esconder ou negar a maior de todas as nossas mazelas: o racismo institucional, matriz da nossa desigualdade, principal fundamento da exclusão e marginalização das populações indígenas e afrodescendentes brasileiras. É preciso ir mais fundo, ampliar o debate e encarar de frente essa mazela, sem rechaçá-la a priori, como sempre fizeram os conservadores de direita ou considerá-la um problema menor, como os progressistas da esquerda.

O racismo à brasileira é uma construção antiga, perversa, gestada ao longo de quatro séculos de escravidão e que não se extingui com a Lei Aurea. Ao contrário, adquiriu novo impulso depois da República com a adesão de expressivas parcelas da elite política e intelectual às teses eugenistas, que propagavam inferioridade dos negros, defendiam o embranquecimento da população com imigração em massa de brancos europeus, pois o país não teria futuro com uma população mestiça.

Essas ideias prevaleceram durante os primeiros 40 anos da República, período em que se consolidam não só os conceitos racistas, mas também a exclusão dos negros e mestiços da vida econômica e social do país. Na Bahia, terra de Nina Rodrigues, uma das figuras mais proeminentes eugenismo, a situação não era diferente do resto do país.

A elite branca e conservadora considerava a “Cidade da Bahia” a Atenas do Atlântico Sul, onde os costumes e a cultura europeias prevaleciam, apesar de sua grande população negra e mestiça. Uma grande ilusão. Salvador era, na verdade, a cidade mais africana do Brasil, a “Roma Negra”, como a batizou Mãe Aninha, do Ilê Axé Opô Afonjá, em 1937,

A teoria do embranquecimento entrou em desuso na década de 30, após a publicação de “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freire, livro que abre caminho para criação do mito da “democracia racial” e inicia uma nova fase do racismo à brasileira, em que se festeja a mestiçagem, ao mesmo tempo em que se naturaliza todos os conceitos racistas massificados durante décadas pelos eugenistas.

Quem tem mais de 60 anos, como eu, já viveu dias piores. Tempos em que, como diz o poeta, “preto não entrava no Baiano nem pela porta da cozinha”, tempos em que ter pele escura era ser feio e não ter a “boa aparência” necessária à maioria dos empregos. Tempos em que para cultuar e festejar os Orixás era preciso autorização da polícia.

Deve-se reconhecer, porém, que muita coisa na Bahia mudou desde o dia em que o Ilê Aiyê pisou pela primeira vez na avenida Sete, nos primeiros anos da década de 70. O carnaval se africanizou, a cidade se rendeu à magia e ao balanço da música dos blocos afros e, o mais importante, houve uma mudança substancial na autoestima da população negra, que passou a ter orgulho de sua ascendência, da sua cultura e, de certa forma, descobriu a sua própria beleza.

É evidente que o que aconteceu em Salvador nesse período é algo importante: vivemos um processo de inclusão cultural da população negra inédito no país. Mas, deve-se reconhecer também que esse movimento, devido a sua debilidade politica, não teve força suficiente para abalar as estruturas do racismo e, muito menos, teve condições de impedir que, ao invés de avançarmos também na direção de uma inclusão econômica e social da população negra, se estabelecesse um processo de apropriação cultural que fez a fortuna de meia dúzia de artistas e empresários da elite branca.

Mas, de qualquer forma, já temos meio caminho andado. É preciso seguir adiante, tendo consciência de que o racismo à brasileira é estrutural e que por isso tem que deixar de ser um problema que diz respeito apenas às vítimas. É um problema de toda a sociedade, principalmente da parcela branca da população, que é o agente propagador dessa mazela.

Se não for assim, estaremos fadados ao fracasso, porque apenas com o esforço de combate dos ativistas do movimento negro e o exercício do politicamente correto pelos segmentos mais esclarecidos e democráticos, nas redes sociais, não conseguiremos nos livrar ou pelo menos reduzir o peso dessa herança maldita no coração do Brasil.

José Fernandes é Jornalista

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Última atualização em Ter, 29 de Janeiro de 2019 22:57
 

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