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Indústria Cultural, objetificação e as memetizações das mulheres gordas na internet . Por Deivide.Sacramento
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Ter, 05 de Janeiro de 2021 02:08

Deivide.SacramentoA objetificação sexual feminina está por toda a parte, no rádio, na televisão e na publicidade. Para BELMIRO et al (2015)[i]: “A objetificação, termo cunhado no inicio dos anos 70, consiste em analisar um individuo a nível de objeto, sem considerar seu emocional ou psicológico.” Adams (2018)[ii] relacionou o ato de transformar a carne animal em um simples prato de comida a transformação do sujeito em um objeto. Dentro da nossa cultura, o corpo da mulher é visto como algo a ser consumido, a ser explorado na publicidade e em outros meios. A autora também usou o termo “antropornografia”, cujo significado é mostrar animais que pedem para ser comidos, elucidando um dos maiores argumentos do patriarcado em relação à figura feminina.

Na internet, as mulheres gordas são vítimas das memetizações, o que levanta discussões sobre a obesidade e os padrões de beleza que são impostos às mulheres como mitos, que ditam regras de cintura, de peso e de forma para definir o que é bonito e aceitável diante da sociedade.

É o tipo de pensamento que ganhou maiores promoções durante a década de 90 e nos primeiros anos de 2000, com a atenuação do desejo de muitas mulheres de serem magras e ter o corpo “ideal” dentro dos ditames do meio social e daquilo que foi reverberado através dos meios massivos de comunicação.

O corpo gordo foi visto como um mal que tinha de ser fortemente guerreado e atacado. Já o corpo magro, a “ditadura da magreza”, foi louvado e passou a oprimir cada vez mais quem fugisse desse ‘padrão” corporal.  (NERY, 2018, p. 4) [iii]

Hoje, as memetizações acontecem para além das tidas mídias tradicionais (televisão e rádio). As redes sociais promovem grande parte dos comentários gordofóbicos. Até mesmo nos app (aplicativos) de relacionamento, mulheres gordas recebem propostas indecorosas de sexo, visto que muitos homens encaram essas mulheres como fora dos padrões de beleza e desejam incutir em suas mentes que por “não ser bonitas” (forma de repressão masculina a essas mulheres), elas devem se submeter a todo e qualquer tipo de ato sexual, incluindo oral, anal, sadomasoquismo, etc.

Muitas mulheres por falta de aceitação dos seus próprios corpos acabam aceitando fazer aquilo que não é de sua vontade, que é abusivo e que contribui desfavoravelmente para os paradigmas acerca do perfil da mulher gorda. “[...] Existe uma coisa que se chama solidão da mulher gorda, que é o seguinte: Muitas mulheres por ter a autoestima baixa, acabam infelizmente se sujeitando a algumas situações que não são o que elas queriam fazer” (GALRÃO, 2019, informação verbal).

Ao refletir sobre a seita do medo da gordura, a jornalista Wolf (1992) considerou que ela mexe diretamente com o psicológico e com controle dos mais íntimos pensamentos e estímulos da mulher. Muitas mulheres se voluntariam ao entrar nesta “seita” e não conseguem mais deixá-la. São escravizadas pelos padrões e raciocínios incutidos em suas mentes, produzindo efeitos nocivos na autoestima e criando alucinações quanto a sua imagem. (WOLF, 1992, p. 179)[iv].

A caricatura criada sobre a mulher gorda está ligada a pouca representatividade que elas encontram nos produtos da Indústria Cultural. Existe, ainda, a escassez da mulher acima do peso em produções fílmicas e capas de revista.

Tomando uma posição mais subversiva em relação a essa seita da gordura, influencers utilizam seu poder nas mídias sociais para dar ênfase à causa da representatividade gorda postando fotos com roupas tidas como inaceitáveis, pelo mito da beleza, para uma mulher acima do peso vestir.

É o que explicou a influenciadora digital e idealizadora do perfil no Instagram Gorda Roupa, Carla Galrão: [...] muita mulher por aí está se vendo de outra maneira principalmente por causa de exemplos que tem na internet. As influenciadoras digitais, as pessoas que criam conteúdo sobre gordofóbia, corpo, autoestima, elas estão chegando ao mesmo patamar, se já não passaram, a musa fitness. Está mudando, as meninas estão se sentindo representadas e estão representando também, e isso está sendo muito importante para ajudar a mudar também a cabeça das pessoas, fazer com que elas não aceitem mais migalhas, aceitem o que elas merecem e que se vejam, se encontrem, façam o que estão a fim independe de qualquer coisa. (GALRÃO, 2019)

Nos comentários de internautas nesses perfis na internet, é possível notar a objetificação. Em geral, as pessoas entendem que a violência está dirigida apenas às mulheres magras ou com o corpo tonificado. No entanto, um olhar mais atento revela outra forma de objetificação sexual, a do corpo da mulher gorda, o fetichismo.

Os que têm atração ao corpo gordo, geralmente recebem todos os tipos de apelidos possíveis, como “caçadores de gordinhas” ou até mesmo “fetichizadores de gorda”. “[...] a fetichização em cima do corpo da mulher gorda é uma coisa que existe, tem muitos homens que também tem muito interesse na mulher gorda, mas que não chega porque o amigo acha que é feio, por causa da sociedade” (GALRÃO, 2019).

Apesar do empoderamento gordo nesses perfis de internet, que vem ajudando muitas mulheres a desconstruir o pensamento equivocado e estereotipado sobre essas figuras, algumas dessas influenciadoras digitais também sofrem com a banalização de seus corpos que viram motivo de piadas na internet.

A influenciadora digital Carla Galrão (2019) refletiu que a gordofóbia demonstrada e convertida em forma de comentários depreciativos na internet tem a ver com a observação da autoestima elevada da mulher gorda, que muitas vezes causa incômodo, já que elas não têm medo e nem vergonha de mostrar seus corpos.

O perfil da bailarina Thaís Carla, é atualmente um dos perfis de mulher gorda mais seguidos e que recebe mais interações diárias. Só no Facebook ela conta com mais de 364.530 curtidas. No Instagram o número é superado, tendo mais de 2 milhões de seguidores. As postagens dividem opinião. Aquelas em que a bailarina costuma ser mais reveladora, recebem uma grande quantidade de Facebook Reactions, e a interação “Haha”, que demonstra quando o internauta se divertiu com a postagem, e que geralmente é voltado para conteúdos cômicos, é a mais utilizada. Sua foto de capa, postada no dia 18 de julho de 2018, recebeu cerca de 1.300 interações.

Dessas, 524 dos “seguidores” do perfil reagiram com “Haha”, 478 “amaram” a publicação, 309 curtiram, 36 reagiram com “triste”, 30 com UOL, o botão para quando as pessoas se surpreendem com o conteúdo da postagem, e quatro com “Grr”, que por sua vez denota irritação.

No vídeo onde Thaís aparece dançando ao som da música “Senta no Talento”, de MC Rebecca, o número de interações “Haha” consegue ser ainda maior e bater o número de mais de 2.200, metade das reações presentes na postagem. A quantidade de internautas que “curtiram” a publicação foi de 959 e os que “amaram” chegou a 826.

Nos comentários da postagem, seguidores do perfil memificam a dançarina com dizeres, como: “Santa Maria mãe de Deus”, “Obesidade mata mais do que feminicídio”, “Dança da família do acasalamento do dinossauro”, “Só vejo coisas balançando”, etc.

No dia 21 de abril de 2019, Thaís Carla voltou a ser vítima das memetizações no Instagram por parte de internautas após postagem em que desejava ‘Feliz Páscoa’ e exibia seu corpo em um lingerie. Nos comentários, homens e mulheres criticavam e satirizavam a exposição do corpo da dançaria, seu peso e autoestima.

Ilustrao_de_Raquel_Botelho_Luz

A marca de roupa pluz size, Lane Bryant, lançou em 2016 a campanha This Body Is Made to Shine (Esse Corpo é Feito para Brilhar, em tradução livre), que ironizou e respondeu comentários negativos a mulheres gordas na internet. Atrizes como Gabourey Sidibe e Danielle Brooks, e também as modelos Ashley Graham, Alessandra Garcia-Lorido e Candice Huffine, emprestaram seus nomes e imagens para a peça.

A campanha contou ainda com um filme, no qual elas respondiam aos comentários feitos nas redes sociais, como “Ninguém deveria ser feliz usando tamanho 14 (equivale ao tamanho 46 no Brasil), e outros tipos de discursos depreciativos e gordofóbicos da internet. O intuito da marca era vencer o preconceito, e contradizer os estereótipos com humor e autoestima.

Uma pesquisa encomendada pela Skol Diálogos, realizada pelo Ibop, em setembro de 2017, apontou que a gordofóbia está presente na rotina de 92% dos brasileiros. Desses, apenas 10% se manifestaram que são preconceituosos. Os dados mostraram ainda que 89% dos entrevistados admitiram que vinculam ou que já ouviu outras pessoas associarem apenas a forma física magra a beleza. O estudo realizado pelo Ibop mostrou que a palavra ‘gordice’ foi aplicada de maneira depreciativa.

Como ponderou Wolf (1992) é possível se livrar da seita do medo da gordura, ou seja, uma desprogramação. Para isso, a autora salienta que é preciso que tanto mulheres quanto homens, interiorizem o poder dos padrões que lhes foram impostos, e como estes têm o poder de afetar diretamente o seu psicológico.

Sobre os pensamentos que são reverberados nas redes sociais, Waldron (2010, p. 1601) [v]concluiu que a todos é livre o pensar, mas que o maior problema é quando o pensamento excede a divisa, dando espaço à palavra pública e que tem efeitos prolongados. Esses discursos, carregados de emoção e ódio, tem o único objetivo de difamar e violar direitos fundamentais.



[i] BELMIRO, Dalila Maria Musa et al. Empoderamento ou Objetificação: Um estudo da imagem feminina construída pelas campanhas publicitárias das marcas de cerveja Devassa e Itaipava. Intercom, Rio de Janeiro, 2015.

[ii] ADAMS, Carol J. A Política sexual da carne: uma teoria feminista–vegetariana. 2. ed.  Tradução: Cristina Cupertino. São Paulo: Alaúde Editorial, 2018.

NERY. Joseanne de Oliveira. Gordofobia: discursos e estratégias de empoderamento de mulheres gordas ao preconceito. Anais do XIII Encontro de Iniciação Científica da UNI7. v. 7 n. 1 (2017).  Disponível em: https://www.uni7.edu.br/periodicos/index.php/iniciacao-cientifica/article/view/368/430. Acesso em: 04 abr. 2019.

[iv] WOLF, Naomi, O mito da beleza. Como as Imagens de Beleza são usadas contra as Mulheres. Tradução: Waldéa Barcellos. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1992.

[v] WALDRON, Jeremy. Dignity and Defamation: the Visibility of Hate. Harvard Law Review, v.123, n.1596 (2010), p. 1601. Disponível em: https://harvardlawreview.org/wp-content/uploads/pdfs/vol123_waldron.pdf. Acesso em: 04 mai de 2019

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