Salvador, 18 de September de 2021
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Só tinha sacanagem. Por Zuggi Almeida
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Sex, 09 de Julho de 2021 08:07

Zuggi_AlmeidaI. SÁBADO. MEIO DIA.  MERCADO MODELO

A parte dos fundos do Mercado Modelo, na Cidade Baixa de Salvador ficava tomada por uma turma ruidosa espremida nos pequenos balcões do Bar do Chacrinha e Imbé Preto entre os demais do velho prédio colonial.

 

O toque sincopado do berimbau vindo de fora circulava pelos corredores. Os biriteiros clássicos sorviam doses generosas de batida de limão,  amendoim ou cajá. Ficava difícil pra quem chegava atrasado pedir um tira-gosto de lambreta ou agulhinha frita. O pedido era  feito àquele privilegiado que estava encostado no balcão. Os pratos passavam de mãos em mãos por cima das cabeças até chegar ao dono.

Esse era o ritual do Mercado Modelo, nas décadas de 70 e 80.

Ali, reunia-se uma maioria negra vinda das periferias e bairros próximos do Centro. As tribos da Liberdade, Cabula, Lobato, Pernambués, Cosme de Farias, Tororó e até de Itapuã encontravam-se nos finais de semana para resenhar e programar onde seria os embalos do sábado à noite. Os homens dominavam o ambiente embora algumas mulheres retadas marcassem a presença.


2.ESCADARIAS DAS LOJAS YPÊ.BAIRRO DA LIBERDADE.10 HORAS DA NOITE.


Em frente à loja de eletrodomésticos já com as portas fechadas, a conversa seguia animada entre  jovens negros de cabelo black power, pantalonas coloridas e camisas com lurex colada ao corpo. Nos pés sapatos, os cavalo de aço que ajudavam na estatura dos mais baixos e dava o devido ar de superioridade semelhantes aos orgulhosos negros americanos.

O objetivo era saber onde iria rolar o esquema ou baile nas festas onde reinava a black music de James Brown, Jackson Five, Tim Maia, Cassiano, Lady Zu, Earth, Wind and Fire e outros bacanas. O contraponto caribenho ficava com o som de Luiz Kalaff, Célia Cruz e Bienvenido Granda. A trilha sonora era produzida por alguém do grupo que montava as coleções dos Lp’s da hora.

Esse cara era sempre o convidado especial para pilotar as Taterkas. O restante da turma acompanhava a celebridade do som. Uma personalidade seguida por um grupo de penetras.Logo, o salão era ocupado por  dez ou mais rapazes dispostos a  "serrar", as bebidas e as comidas da festa.

Os donos do evento ficavam de olho nessa turma.


3.A FESTA.    ONZE HORAS DA NOITE.
As pretas exibiam vestidos  saídos direto das máquinas das costureiras para o  baile. Os salões de beleza na Liberdade eram ocupados desde às sete da manhã por  jovens que esmeravam-se em caprichar na beleza,  elegância e graça da mulher negra numa celebração noturna. Aquela geração descobria-se afrodescendente e orgulhava-se disso.

As bebidas da festa eram as mesmas da manhã no Mercado Modelo com raras exceções para um Cuba Libre, um Martini ou Whisky Drurys. O dono da festa podia ser o proprietário da oficina mecânica, o estivador no cais do porto, um petroleiro ou trabalhador do recém-inaugurado Pólo Petroquímico. Um tonel era colocado nos fundos da casa e abastecido com cervejas e refrigerantes. Para conservar a bebida usava-se gelo em barra  coberto com pó de serraria e folhas de jornal (confesso que até hoje não sei o porquê do uso do jornal).

Uma pessoa era colocada para tomar conta do cooler gigante tão desejado. A bebida só era servida  quando o dono da casa determinava, e só para  convidados especiais.

Certas vezes o guardião do tonel era tão radical que negava as bebidas até pro dono da festa. Ordens eram ordens e deviam ser cumpridas (sic!)

Os mortais comuns continuavam bebendo as batidas de limão, amendoim e cajá e comiam *sacanagem. Quibes, pastéis e empadas só eram oferecidos para os vips do evento. Uma exceção era feita aquele que comandava o som que recebia uma bandeja de salgados, logo dividida entre todos os seus assistentes.

O baile seguia até a hora de servir o prato principal, geralmente era dobradinha, xinxin de bofe ou caruru oferecido como promessa.Quando o evento não oferecia essas iguarias especiais, a sacanagem era a melhor coisa no cardápio do penetra.

*Sacanagem é denominação dada ao tira-gosto servido em  palitos com uma rodela de salsicha, uma azeitona, um pedaço de queijo, outro de tomate e um de pimentão. Esses palitinhos são espetados num mamão verde descascado e colocado sobre a mesa para os convidados. Fazia o maior sucesso nas festas das antigas.

Zuggi Almeida é baiano, escritor e roteirista.

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Última atualização em Sex, 09 de Julho de 2021 08:19
 

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