Salvador, 22 de julho de 2017
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Para além do blackface. Por Rafael dos Anjos
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Sáb, 04 de Março de 2017 13:15

Rafael_dos_AnjosDaniela Mercury posou de peruca black power durante o desfile de seu trio, o Crocodilo, na última segunda-feira de Carnaval. A produção, segundo a cantora, tratava-se de uma homenagem à amiga e diva Elza Soares.

Acompanhavam a Rainha Má em cima do caminhão, o casal de atores negros Lázaro Ramos e Taís Araújo, além do representante maior do Ilê Aiyê, o Vovô do Ilê.

Este foi o cenário perfeito que – assim como o bafafá do turbante usado por brancos – levantou uma patrulha virtual contra Daniela, e trouxe para a rede o debate envolvendo “apropriação cultural” e “blackface“.

Pois, vamos nomear as coisas: a prática do blackface se popularizou no começo do século XIX, onde atores brancos usavam carvão e outras tintas para escurecer a pele e realçar traços do fenótipo negro, como forma de ridicularizá-los. Para essa produção carnavalesca, Daniela deu o nome e sobrenome da figura homenageada.

Em 2016, quando se apresentaram no mesmo evento, a própria Elza Soares postou no Instagram: “Quero agradecer, em especial, uma outra rainha, minha amada @danielamercury que me ajudou nesta campanha, e me falou coisas muito bonitas quando nos encontramos, agora em Brasília”.

Sobre apropriação cultural, meu amigo e professor da UFBA, Doutor Multidisciplinar em Cultura e Sociedade, Gestão, Produção e Economia da Cultura e da Comunicação, Sérgio Sobreira, escreveu no Facebook: “cultura é um processo de acumulação de signos que estão em trânsito. Identidades são formadas dentro desse processo, mas elas NÃO SÃO herméticas nem exclusivas de nenhum grupo social. Ainda que elas tenham sido formuladas em determinado contexto espaço-temporal, nada na cultura fica restrito a um lugar, a um povo, a uma sociedade. Os turbantes – que alguns textos do movimento negro vieram reivindicar exclusividade – além de terem origem lá na Ásia, só existem porque os povos da Índia um dia dominaram o processo de cultivo e beneficiamento do algodão. Mafesolli bem definiu: todo mundo é filho de alguém. Tudo na cultura decorre de trocas porque somos porosos, influenciamos e somos influenciados. Então o que criamos culturalmente é legado de todos os encontros que tivemos na vida”.

Daniela e Elza

Foto: Thiago Sabino

Daniela Mercury tem mais de 30 anos de carreira, onde vem enaltecendo a cultura afro-brasileira, levando adiante o respeito pela principal religião de matriz africana na Bahia, o Candomblé – da qual é adepta. Artistas, bandas, entidades e compositores da comunidade negra na Bahia, popularizaram-se através de sua atuação no cenário musical. Mesmo em seus altos e baixos na carreira jamais abandonou a ligação com suas raízes.

Hoje Salvador celebra a pipoca nas ruas, com estrelas locais desfilando sem cordas, com apoio dos governos municipal e estadual. Há 18 anos, Daniela puxa seu trio sem cordas para o público. Desceu com o Crocodilo para a Barra, ainda enquanto circuito alternativo, transformando-o no principal espaço do Carnaval atualmente.

Em 1999 tocou música eletrônica em seu desfile e foi vaiada. Depois disso, os DJs mais famosos do mundo vieram a Salvador tocar para multidões durante a folia.

Assumiu seu relacionamento gay com a jornalista Malu Verçosa e foi rechaçada temporariamente pela mídia e público – incluindo parte da comunidade LGBT. Cinco anos depois e ainda é acusada de “querer aparecer” levantando a bandeira.

Agora tomam o caso atual como mais uma forma de chamar a atenção. Acredito que ponderações precisam ser feitas, mesmo por quem se considera militante, e por isso, se vê como detentor de toda a razão no que diz respeito às minorias.

“O grande problema está em como poderão os oprimidos que ‘hospedam’ o opressor em si, participarem da elaboração como seres duplos, inautênticos da pedagogia de sua libertação.  Somente na medida em que se descobrem ‘hospedeiros’ do opressor, poderão contribuir para o partejamento de sua pedagogia libertadora”, Paulo Freire.

Certa feita o rapper, da periferia, socialmente engajado e HOMEM, Criolo, alterou a letra de uma de suas músicas quando foi ‘advertido’ que a mesma se referia com preconceito às travestis. O episódio passou batido. Talvez porque o preconceito da comunidade gay com as travestis tenha sido convenientemente piedoso com o cantor ou porque seu público é essencialmente hétero, e os mesmos não estão ligando para esse “mimimi”.

Quando o ‘gigante’, e HOMEM, Léo Santana se referiu a algumas mulheres negras como ‘foveiras’, tudo também passou com menos alarde. Léo é o sex symbol negro da periferia.

Depois de acompanhar tudo isso, eu me pergunto: só homens pretos estão habilitados a pisar na bola e continuar representando a comunidade e seus militantes? Eles merecem o perdão e a segunda chance, a crítica construtiva e o entendimento?

Recentemente a empresária Zica do Beleza Natural foi atacada nas redes sociais ao desqualificar os black powers em relação aos cachos ‘soltinhos’ promovidos pelo seu salão. Até Luislinda Valois recebeu ataques gratuitos nas redes, após assumir um ministério no governo Temer. E a jornalista Maíra Azevedo, a Tia Má, sentiu o gosto do relógio apressado de quem julga e condenada na internet, sendo chamada de “arregona” exatamente por não se posicionar, às pressas, sobre o “Caso Mercury”.

Foto: Thiago Duran / AgNews

Foto: Thiago Duran / AgNews

O problema aqui talvez vá além da suposta blackface de Daniela.

Afinal, o que essas pessoas querem? Essas mulheres, os militantes e seus movimentos não estão sendo mais uma engrenagem na estrutura dessa sociedade preconceituosa e machista? Melhor que distribuir hashtags prontas, como numa metralhadora giratória, e suas condenações, não seria justo e saudável o debate embasado e coeso?

Aproveito para lembrar que o tal empoderamento, seja em qualquer esfera social, exige o exercício da transformação e conscientização. O que inclui o processo cultural e não apenas as habilidades, competências e interesses individuais, sejam profissionais e/ou econômicas, mas sim de grupos organizados e aptos à complementação entre eles.

Será que não há discurso melhor do que o ataque deliberado com o objetivo de calar o outro?

A militância virtual está entrando num caminho tortuoso, que há de nos colocar – pretos, gays e mulheres – cada vez mais no limbo social.

Reflitam, pois nenhum discurso baseado na intolerância ou na desonestidade intelectual – porque tem gente boa manipulando informação por aí – se sustenta por muito tempo ou agracia de fato, os chamados oprimidos, com a sonhada liberdade.

https://www.facebook.com/DanielaMercuryonline/videos/1988241961398763/

Rafael dos Anjos é Bacharel em Comunicação com habilitação em Jornalismo e especialista em Comunicação e Marketing em Mídias Sociais.

Artigo publicado originalmente em http://correionago.com.br/portal/para-alem-do-blackface/

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Última atualização em Sáb, 04 de Março de 2017 18:03
 

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