Salvador, 15 de dezembro de 2017
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O beijo meu vem com melado decorado cor de rosa. Por Silvio Carvalho
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Sáb, 05 de Agosto de 2017 05:35

Silvio_Carvalho“Devo de ir, fadas!” Tenho a impressão que foi com esse seu verso que o nosso doce Pérola Negra se entregou ao chamado dos deuses.
Não costumo comentar sobre o falecimento de pessoas, por receio de cair no discurso clichê. Mas no caso de Luiz Melodia, declino desse cuidado, pois a sua música me marcou.

Sem dúvida, Ébano é a canção que eu mais gosto de cantar. Beto (foi ele que me ensinou a tocar esse clássico do poeta do Estácio), meu primo e tocador de violão, sabe disso. Meu filho, também. Juventude Transviada, outra canção emblemática, foi a escolhida para mostrar, ao meu pai, que eu já sabia tocar violão. E por que essa canção? Pela sua sofisticada construção harmônica. Eu e Beto suamos para aprendê-la, pois dependíamos do rádio. Passávamos dias ligados, torcendo para que aquela música aparecesse em uma das poucas emissoras que chegavam à nossa terra. A letra era sempre mais fácil de aprender, cada um copiava uma parte e depois íamos juntando os fragmentos. Mas a harmonia... Era uma canção cheia de acordes desconhecidos por nós. Haja ouvido. Quando conseguimos, senti-me apto a me apresentar para o meu pai. Ele era músico e eu não me sentia à vontade de lhe apresentar uma performance tocando uma canção com harmonia previsível. Juventude Transviada tinha tudo que eu precisava para me impor: melodia refinada, bela e difícil harmonia e letra moderna. Fui aceito, pois soube ler o seu silêncio. 

A terceira canção, composta por Melodia, que me marcou bastante foi Estácio, Holly Estácio! Meu filho mais velho devia ter entre cinco e seis anos quando, um dia, chega pra mim e diz: “Meu pai, ouvi Maria Bethânia cantando uma música linda.” Quando lhe perguntei qual era a música, ele respondeu cantando: “Se alguém quer matar-me de amor / Que me mate no Estácio”. Dei-lhe um abraço e chorei. Não sei se ele lembra disso, mas naquele dia pensei: “Esse menino é poeta, é músico, é artista. Vai carregar água em peneira”, como diz Manoel de Barros. E eu não estava errado. Quando tocamos juntos, tocamos Ébano. Acho que ele nunca ligou uma coisa a outra. 

Como se isso fosse pouco, tive o privilégio de conhecer Luiz Melodia pessoalmente. Tomando chope juntos no Restaurante Árabe, Shopping da Gávea/Rio de Janeiro, tive a oportunidade de lhe dizer tudo isso que acabo de relatar acima. Ele não deixou por menos e me falou do carinho que tinha pela Bahia (a mulher dele é baiana de Jequié), da amizade com Rodrigo Veloso, da admiração por Caetano, da gratidão por Gal Costa e Bethânia. Fiquei muito emocionado.

Ontem comemoraríamos o aniversário do meu pai; hoje, morre Luiz Melodia. Vou ouvir o poeta do Estácio, pra ver se “amanso a dor”.

Luiz_Melodia

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Última atualização em Sáb, 05 de Agosto de 2017 05:43
 

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