Salvador, 19 de novembro de 2017
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Bom descanso, Paulo da Anunciação, digo: boas lutas em outras dimensões. Por Franciel Cruz
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Ter, 31 de Outubro de 2017 14:27

Franciel-CruzExpor minhas fraquezas nunca foi meu forte. Então, de prima, informo logo que é com a alma compungida que farei o relato abaixo.

Seguinte.

Há exatos 20 anos, imbassahy, atual sinistro-chefe do governo do mordomo, assumia o comando da cidade do Salvador botando pra vê tauba lascá ni banda.

Para que os desmemoriados, distraídos, coniventes & adjacências tenham uma ideia, lembro que o indigitado, com uma só canetada, mandou 4.741 pessoas para o olho da rua.

Se, em qualquer lugar, isto já seria um absurdo, imaginem nesta província lambuzada de dendê e de exclusão, onde as ancestrais taxas de desemprego sempre estiveram nas alturas.

Óbvio que o couro ia comer.

E a Castro Alves, que, dizem, era do povo, virou praça de guerra, literalmente. E cada um apresentava suas armas. Os dirigentes sindicais gritavam palavras de ordem na kombi, uns demitidos desesperados apelavam para as pedradas, os escrotos meganhas metiam bombas de gás sem dó nem piedade e este corajoso locutor sacava do coldre a...carteira provisória da Associação Baiana de Cronista Desportivo e arranjava abrigo na sede da Federação Baiana de Futebol.

De lá, protegido, ligo para o jornal Bahia Hoje, onde eu fingia que trabalhava, e solicito um espaço maior para a matéria, pois era o único repórter no local, aquela besteira de exclusividade e tals.

Com o aceno positivo, decido ir pra cima do fato igual a um carrapato. Subo a Rua Chile e acompanho o rebuceteio na Praça Municipal. A puliça e os x-9 estão com sangue no olho. Ao perceber que era o alvo, o fotógrafo Milton Mendes, puta velha, passa os filmes adiante. O problema é que o adiante era eu. Olhe a porra. Quer dizer, nem dá tempo de olhar. Ao ver a turba, corro igual a um Ben Johnson dopado rumo ao Elevador Lacerda. Refugio-me num pequeno cubículo, sala de manutenção, uma zorra desta. Ao me ver ofegante, a moça que estava lá tenta me acalmar. Os canalhocratas de farda passam gritando. "Tem que pegar o cabeludo, tem que pegar o cabeludo". Heroicamente...me mijei nas calças. (E isto não é metáfora nem hipérbole. Aliás, o medo era tanto que até a quantidade de mijo foi pouca).

Eles pegaram depois outro cabeludo. E, de modo criminoso, cortaram o cabelo do rapaz com faca. A simbologia daquele ato vil era ainda mais marcante, pois o cara era negro e usava, com orgulho, dreadlocks, estilo rastafari. Era a tentativa de humilhação em sua forma mais estúpida. Este cara, porém, não se deixou humilhar. Continuou militando no sindicato dos trabalhadores em limpeza, depois se elegeu vereador e deputado estadual.

Mas, derivo. Motô, dê marcha ré e continuemos em 1997. Pois muito bem, digo, pois muito mal. Após uns dribles, consigo enfim chegar no jornal com uma boa história e imagens exclusivas, além, é claro, da calça mijada. Porém, nem começo a escrever e já vem a ordem de que a palavra "demitidos" estava proibida. Lógico que o chefe não disse isso deste modo. Com aquela conversa mole, informou que era equivocado escrever assim porque juridicamente e jornalisticamente e num sei lá o que maismente o correto era "desligado".

Enquanto ouvia isso, a porra do sangue subia. Tinha acabado de testemunhar um massacre e o cara me mostrava um release da Prefeitura que citava juristas e outros escroques desta natureza.

Secamente, eu disse que, se eles quisessem, eu escreveria aquilo. Era só me contratar como digitador. Porém, para esta nobre função o trabalho seria mais caro do que o abjeto jornalismo. Desliguei o computador e fui para o recesso do meu lar. Todo mijado, mas com a alma lavada por um tanto de dignidade.

Sim, é muito provável que só consegui ter a coragem de realizar este pequeno ato por inspiração daquela galera que não fugiu à luta e enfrentou a puliça e muitos outros dissabores. Óbvio que, com esta minha decisão, o jornalismo não perdeu porra de nada. Ao contrário. Tanto é assim que não acompanhei a trajetória daqueles personagens, especialmente do rasta que teve os cabelos cortados a faca e que, soube há poucos instantes, morreu de parada cardíaca.

Bom descanso, Paulo da Anunciação, digo: boas lutas em outras dimensões.

Nota do Editor: Paulo Anunciação foi sindicalista, militante anti racista e eleito vereador e depois deputado estadual pelo PT

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