2026 e o colapso da ordem ocidental. Por Marcelo Zero
Artigo publicado originalmente no Brasil247
Começamos 2026 com a grave ameaça de uma intervenção militar dos EUA na Venezuela
Não há dúvida de que 2025 foi um ano bastante difícil, de rápido colapso da antiga ordem mundial “baseada em regras”, criada pelos EUA.
O segundo governo Trump se encarregou de destruí-la, colocando no lugar uma geoestratégia baseada no uso desabrido e cru da força. Força financeira e comercial, força geopolítica, força militar e força comunicacional, a força das Big Techs dos EUA.
A nova estratégia dos EUA, concebida, entre outros, pelos autores do Projeto 2025 da Heritage Foundation, por Elbridge A. Colby (neto do diretor da CIA da era Nixon, William E. Colby, e amigo de J.D. Vance desde 2015), por Dan Caldwell, por Marco Rubio etc. colocou nossa região, com o “corolário Trump da Doutrina Monroe”, no centro da grande disputa geopolítica mundial, tornando-a uma espécie fortaleza geográfica do Império.
Por isso, começamos 2026 com a grave ameaça de uma intervenção militar dos EUA na Venezuela. Provavelmente não uma invasão terrestre tout court, mas sim intervenções aéreas pontuais contra objetivos estratégicos, com a finalidade evidente de derrubar o regime de Maduro. De qualquer forma, um desastre para toda a região e para o protagonismo do Brasil.
Contudo, 2026 começa também com vários outros conflitos perigosos para todo o planeta.
O conflito no Oriente Médio (ou no Oeste da Ásia, como preferem alguns) continua e pode se agravar rapidamente. O morticínio em Gaza persiste, embora tenha arrefecido um pouco. Líbano e Irã continuam com ameaça de intervenções, por parte do governo de Netanyahu e dos EUA.
O Irã, em particular, que atravessa uma conjuntura econômica de inflação (principalmente de alimentos), ocasionada, em grande parte, pelas pressões econômicas das inúmeras sanções a que está submetido, e por período de seca prolongada, acabou de ser ameaçado diretamente de intervenção militar por Trump.
O Irã, recorde-se, por ter pouca terra arável e água, importa muitos alimentos. Só as importações de cereais respondem por quase 30% do total das importações iranianas. No entanto, se o Irã não estivesse submetido a tantas sanções, poderia lidar com essa restrição com facilidade, dado ao fato de ter reservas abundantes de petróleo e gás.
A Síria, por sua vez, continua conflituosa, dividida e problemática, governada por um ex-membro da Al-Qaeda, apoiado pelo hipócrita Ocidente.
No Pacífico, as tensões relativas à “política de contenção à China” de Trump, que inclui o maldisfarçado incentivo ao separatismo de Taiwan, ponto extremamente sensível e inegociável para Beijing, estão se avolumando, de forma extremamente perigosa. A nova classe de super encouraçados que Trump pretende construir está sendo pensada para projetar o poder imperial naval estadunidense no Pacífico.
Não obstante, o conflito atual mais perigoso, com potencial evidente de se expandir pela Eurásia e de, inclusive, se nuclearizar, é o da Ucrânia.
Tudo porque Zelensky (um “idiota”, segundo o próprio Trump) e a fraca Europa se recusam a reconhecer o fato básico, irreversível, de que a guerra está perdida para Kiev.
Até Elbridge A. Colby já vinha dizendo, bem antes do segundo governo Trump começar, que o dinheiro que os EUA estavam gastando na Ucrânia seria “muito mais bem empregado no Pacífico”, para conter a China, um objetivo geopoliticamente mais importante. Ademais, desde aquela época, sabia-se que a maior parte do dinheiro da ajuda era desviado pela corrupção.
Desde o início do segundo governo Trump, que a estratégia do EUA têm sido, com algumas dissensões na CIA e entre alguns militares, a de pressionar Zelensky (um “motherfucker”, de acordo com Trump) a desistir de sua luta perdida.
Isso ficou claro quando o Grupo de Contato de Defesa da Ucrânia, uma aliança europeia que apoia o esforço de guerra, reuniu-se em Bruxelas em fevereiro de 2025.
Já naquela ocasião, conforme o NYT, Hegseth, o Secretário de Defesa (ou da Guerra, como queiram), expôs as posições do governo Trump sobre esse conflito.
“Devemos começar reconhecendo que retornar às fronteiras da Ucrânia anteriores a 2014 é um objetivo irrealista”, começou dizendo Hegseth, para surpresa dos europeus.
Em seguida, afirmou: “os Estados Unidos não acreditam que a adesão da Ucrânia à Otan seja um resultado realista de um acordo negociado.”
Por fim, Hegseth, segundo testemunhas, teria também dito que “as tropas americanas não se juntariam a uma força de paz, após um acordo para encerrar a guerra”.
Enfim, os EUA de Trump não continuariam a apoiar os esforços irrealistas de Zelensky e da Europa.
Boris Pistorius, o Ministro da Defesa da Alemanha, teria reagido de forma furiosa, segundo as testemunhas consultadas pelo “The NYT”.
“Não acho sensato descartar a adesão da Ucrânia à Otan e fazer concessões territoriais aos russos antes mesmo do início das negociações”, afirmou, iracundo, o Ministro da Defesa, Boris Pistorius.
Em vão. A posição dos EUA foi mantida.
Ainda segundo o The New York Times, houve uma reunião entre estadunidenses e ucranianos em Jeddah, Arábia Saudita, em março de 2025.
Marco Rubio, nessa ocasião, teria estendido um grande mapa da Ucrânia sobre uma mesa. O mapa mostrava a linha de contato entre os dois exércitos — a linha que divide o país entre os territórios controlados pela Ucrânia e pela Rússia.
“Quero saber quais são suas condições mínimas; o que vocês precisam para sobreviver como país?”, teria perguntado Rubio aos ucranianos.
Mike Waltz, então Conselheiro para Segurança Nacional de Trump, teria entregado a Rustem Umerov, o Ministro da Defesa da Ucrânia, um marcador azul escuro e dito: “Comece a desenhar”.
Umerov, ainda segundo as testemunhas consultadas pelo The New York Times, “traçou a fronteira norte da Ucrânia com a Rússia e a Bielorrússia, depois seguiu a linha de contato através das regiões de Kharkiv, Luhansk, Donetsk, Zaporizhzhia e Kherson”.
“Em seguida, circulou a usina nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa. De acordo com uma autoridade ucraniana, o Sr. Umerov alertou que os ocupantes russos estavam deixando de fazer a manutenção da usina, arriscando um “desastre nuclear”. A Ucrânia queria recuperá-la”.
Por último, “ele apontou para Kinburn Spit, uma faixa de praia e prado salgado que se projeta no Mar Negro. Recuperar o controle da faixa, explicou ele, permitiria que os navios ucranianos entrassem e saíssem dos estaleiros de Mykolaiv.”
Em outras palavras, os ucranianos bem sabiam, desde aquela época, que para negociar a paz, teriam de estar dispostos a renunciar a cerca de, pelo menos, 20% do seu antigo território e de desistirem também de entrar para a Otan.
De lá para cá, essas condições, que enfraquecem a posição de Zelensky e dos seus apoiadores europeus, não se alteraram, em substância. Na realidade, se tornaram até mais rígidas, em alguns casos. O domínio de todo o Donbass por Moscou, mesmo as áreas que ainda não foram ainda conquistados pelos russos, já teria sido aceito como fato, pelos EUA.
E, à medida que o tempo passa, a Rússia vai avançando sobre o território ucraniano e os exércitos ucranianos sofrem mais perdas, que não podem mais ser repostas. O tempo joga contra a Ucrânia.
Zelensky e a Europa, que tem delírios sobre a suposta vontade de Putin de estabelecer um domínio sobre todo o continente, numa tentativa de reerguer o “antigo Império Russo”, estão desesperados.
A tentativa de assassinar Putin com um enxame de drones demonstra isso. Saliente-se que, em 2023, houve um outro ataque de drones contra a residência de Putin no Kremlin.
A resposta de Putin foi implacável: a Rússia ativou o sistema de mísseis hipersônicos Oreshnik em Belarus, os quais têm capacidade nuclear. A Europa simplesmente não tem como se defender de um ataque desses mísseis.
A teimosia no impasse está levando o mundo a uma maior proximidade de um conflito mais intenso e extenso. Um conflito que poderia ter consequências imprevisíveis.
Poderia, inclusive, no limite, abrir passo para uma nova guerra mundial.
Manter Zelensky e seu governo corrupto, bem como ceder aos delírios europeus, não vale um risco como esse.
Mas o fato mais amplo e definitivo é o de que o cenário de 2026 começa com um colapso evidente da antiga Ordem Ocidental.
Uma ordem mundial estável só poderá ser reconstruída, a partir do Sul Global e da refundação das instituições multilaterais, com base nos interesses da maioria da humanidade.
Do Império estadunidense, só se pode esperar força bruta desgovernada, agressões e protecionismo brutal, sob a batuta disruptiva, caótica, contraditória e ignorante do novo Nero. Da Europa, fluem delírios paranoicos, fraqueza, sonhos saudosos de antiga glória e a pretensão de uma suposta superioridade ética e civilizacional.
De onde menos se espera, daí que não sairá nada mesmo.
Os adultos na sala estão no sul geopolítico.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor
Marcelo Zero
É sociólogo, especialista em Relações Internacionais e assessor da liderança do PT no Senado
