Xênia França, Larissa Luz e Luedji Luna dão um novo significado à resistência de mulheres negras
“Quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”. No momento que a ativista norte-americana Angela Davis disse essa frase, ela projetou um futuro que foi vivenciado, na noite desta terça-feira, no palco principal do Carnaval do Pelô, quando as cantoras Larissa Luz, Luedji Luna e Xênia França se apresentaram com o projeto Aya Bass.
O trio, que criou o projeto para ser apresentado no verão de Salvador, coroou a última noite da folia com um show que atraiu uma multidão de foliões no Largo do Pelourinho. Com um repertório diverso e ao mesmo tempo particular, elas iniciaram a apresentação saudando Exu e, em seguida, as Yabás (orixás femininas), através de músicas do cancioneiro popular que reverenciam as entidades de matriz africana.
No setlist não faltou referência também às mulheres negras que as antecederam na música popular brasileira, como a sambista “Pérola Negra”, Jovelina; a “Mulher do fim do mundo”, Elza Soares; e a “Rainha de Wakanda”, Margareth Menezes. “É super importante estar rodeada de outras mulheres pretas que ressignificaram sua existência, porque nossa história não é única e é importante que cada uma de nós se joguem no que acreditam, no que querem”, completa a cantora camaçariense Xênia França.
Acompanhando as cantoras no palco, estavam as instrumentistas Deise Fatuma, Zinha Franco, Suyá Nascimento e Nanny Santos. O local foi espaço também para apresentação de Lumena Aleluia, candidata à Deusa do Ébano 2019, que dançou com um cartaz estampado pelo rosto de Marielle Franco, em lembrança à vereadora assassinado em março do ano passado. E não acabou por aí, o público ainda conferiu as palavras “xeque” que Fernanda Maia, integrante da banda Afrocidade, “largou” no finalzinho do show.
Esta não foi a primeira vez que as cantoras Luedji, Xênia e Larissa se apresentaram no Carnaval do Pelô, mas foi a estreia delas como um trio, como conta Luedji Luna: “Sabemos que o Pelourinho foi um lugar de dor durante a época da escravização, agora a gente retorna três mulheres pretas, compositoras, com o trabalho reconhecido nacionalmente, mostrar que apesar dessa história e herança perversa, conseguimos ressignificar nossas próprias existências enquanto mulheres pretas, sendo uma referência de um futuro possível, de dignidade e de autonomia”.
O espelho que as cantoras projetaram no palco foi refletido em dezenas de outras mulheres negras que foram ao Largo do Pelourinho nesta noite. É o caso da digital influencer Jéssica Ipólito. Para ela, a formação desse projeto é “um dos shows mais políticos e de resistência que teve nesse carnaval”. Pouco antes de Luedji, Xênia e Larissa entrarem no palco, foi perguntado a elas: “E a palavra amor, cadê?” (trecho da canção “Um corpo no mundo”) e em harmonia responderam: “Está aqui com toda certeza”.
Carnaval da Cultura – É o carnaval dos blocos afro, de samba, de reggae e dos afoxés, apoiados por meio do Edital Ouro Negro para desfilar nos três principais circuitos da folia: Batatinha, Dodô e Osmar. É a folia animada, diversa e democrática do Carnaval do Pelô, que abraça o carnaval de rua, microtrios e nanotrios, além de promover nos palcos grandes encontros musicais e variados ritmos numa ampla programação. Tem Afro, Reggae, Arrocha, Axé, Antigos Carnavais, Samba, Hip-hop e Guitarra Baiana, além de Orquestras e Bailes Infantis. E é também a preservação do patrimônio cultural, com o apoio ao carnaval tradicional dos mascarados de Maragojipe. Promovido pelo Governo do Estado, através da Secretaria de Cultura (SecultBA), o Carnaval da Cultura é da Bahia. O Mundo se Une Aqui! Confira mais fotos no Flickr: https://goo.gl/6c7RT5
Repórter: Juliana Dias
