Da vida dos lemingues. Por Cora Rónai
Gastamos a energia que não temos com um presidente cada vez mais
Conheço gente que ainda defende Bolsonaro. Gente civilizada, inteligente, de ótima educação, que acha que
Bolsonaro é vítima de calúnias da mídia e da “esquerda”. Gente honesta, com históricos de vida dignos e coerentes, que se dá ao trabalho de escrever textão na internet para defender o que lhe parece ser a “autenticidade” do presidente em comparação com os fingimentos da “velha política”.
Vários de vocês conhecem; se duvidar, até membros queridos das suas famílias pensam assim.
Não sei como interpretar isso.
Não sou ateia por nada; sou ateia porque não alcanço os mistérios da fé. Não sei como as pessoas bolsonaras boas conseguem lidar com o discurso e com as ações do presidente.
(Sim, sim, há pessoas bolsonaras boas, ainda que as mais visíveis sejam péssimas: não vamos cair no erro de imaginar que pessoas que pensam de forma oposta à nossa são necessariamente más, porque este já foi o caminho de muitas tragédias. Bolsonaro ainda tem a aprovação de 33% da população, o que dá quase 70 milhões de almas. Prefiro acreditar que parte substancial delas está confusa a achar que todas são perversas, burras ou ambas coisas ao mesmo tempo.)
Não sei como essas pessoas conciliam as próprias vidas honestas e esforçadas com o culto a um parasita que vive encostado há décadas, que levou os filhos pelo mesmo caminho e que usa a política como cabide de emprego para amigos e familiares.
Isso é um contrassenso.
Não entendo como convivem com a ideia de que é possível deixar um genocida no comando quando há uma pandemia à solta.
Isso é um suicídio.
E é muito assustador.
Não sei como explicar a essas pessoas que suicídio é fatal.
Não sei mais como escrever, o que escrever.
Escrever é o que faço desde que me tenho por gente, é a minha profissão, é o que me deu casa e comida ao longo da vida, mas dessa vez não sei como explicar, não sei que palavras mais usar ou como desenhar com letras o tamanho da desgraça.
Não sei mais o que é preciso que aconteça para que saiam do seu transe coletivo e acordem para o fato de que, logo ali adiante, a um passo de onde estamos, há um despenhadeiro.
A pandemia mal começou no Brasil, deveríamos estar todos juntos tentando ter disciplina para combatê-la, nos incentivando uns aos outros com boas palavras, tentando manter o foco na quarentena e no distanciamento social, pensando coletivamente em soluções para amenizar a crise, e em vez disso gastamos a energia que não temos com um presidente cada vez mais descontrolado, que há tempos ultrapassou todo e qualquer limite da política, do bom senso, da ética, da humanidade.
Que tempos.
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Adeus Flávio Migliaccio. Adeus Aldir Blanc. Foi uma honra e uma felicidade ter vivido ao mesmo tempo que vocês.
