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Na ONU, Bolsonaro falou para o curralzinho do Alvorada Por Bernardo Mello Franco

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A pandemia esvaziou o plenário da ONU e obrigou Jair Bolsonaro a mandar seu discurso por vídeo. Para o Brasil, foi um bom negócio. O capitão se dirigiu ao mundo como se estivesse no curralzinho do Alvorada.

O país voltou a passar vergonha, mas deixou de gastar com diárias de hotel em Nova York.Bolsonaro ignorou a comunidade internacional. Falou para seus seguidores fiéis, sem se preocupar com checagens ou desmentidos. Seu discurso empilhou mentiras, distorções e teorias conspiratórias.

Tudo o que já estamos acostumados a ouvir por aqui.O presidente se disse vítima de “uma das mais brutais campanhas de desinformação” sobre a Amazônia e o Pantanal. Em vez de explicar as queimadas, ele atacou quem se preocupa com o fogo. Vociferou sobre “interesses escusos” e brasileiros “impatrióticos”.

Desta vez, ele não tentou culpar o ator Leonardo DiCaprio. Atribuiu os incêndios a caboclos e índios que “queimam seus roçados”. O capitão mirou nos pequenos para proteger os grandes. Deixou de mencionar grileiros e latifundiários que devastam a floresta com a cumplicidade do governo.Bolsonaro disse ter “tolerância zero com o crime ambiental”.

A frase não combina com os fatos. Sua gestão desmontou órgãos de fiscalização, reduziu a aplicação de multas, deu carona a garimpeiros em avião da FAB.Ao falar da pandemia, o presidente se esquivou da responsabilidade pelas quase 140 mil mortes. Preferiu atacar a imprensa, que teria “disseminado pânico”. Ele ainda fez a tradicional propaganda da cloroquina. Só faltou exibir, mais uma vez, a caixinha do remédio.De olho no eleitorado evangélico, Bolsonaro disse que o Brasil é um “país cristão” e protestou contra a “cristofobia”.

Duas impropriedades. A Constituição afirma que o Estado é laico, e a intolerância só tem sido uma ameaça aos cultos de matriz africana.O capitão ainda encontrou espaço para elogiar Donald Trump, que o ignorou no discurso seguinte. Não foi só ele. A imprensa internacional mal tomou conhecimento da performance de Bolsonaro. Sinal de que seus delírios não impressionam mais ninguém.

Artigo publicado originalmente em https://blogs.oglobo.globo.com/bernardo-mello-franco/post/na-onu-bolsonaro-falou-para-o-curralzinho-do-alvorada.html

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