Aldeia Nagô
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Branca de Neve. Por Jorge Papapá

2 - 3 minutos de leituraModo Leitura

Chamavam-na de Branca de Neve como quem aplica verniz: para disfarçar o problema sem resolver nada. Diziam que era brincadeira, porque no Brasil o racismo precisa parecer leve para continuar operando. Aqui, quem ri consente. Quem consente, permanece. Quem denuncia, é o exagerado.

Ela era negra. Isso bastava para que sua existência fosse negociada. O apelido não era afeto — era política. Um mecanismo cotidiano de embranquecimento simbólico, desses que não constam em lei, mas organizam o mundo com eficiência. Branca de Neve era o nome dado à tentativa de corrigir o erro que, para muitos, é a negritude.

Ria no começo porque o riso é uma exigência social imposta aos corpos negros: sorrir para não ameaçar, aliviar para não confrontar, agradecer por estar ali. O riso funcionava como um contrato silencioso: você aceita a piada, nós fingimos que você pertence.

— É só um apelido.

— Para de militância.

— Você está vendo racismo onde não tem.

Frases clássicas de manutenção da ordem. Não negam a violência; a administram. O racismo brasileiro não precisa gritar — ele gere. Garante que o negro continue sendo exceção, nunca referência.

O espanto com sua competência não era individual, era estrutural. Espantava que ela escrevesse bem, pensasse rápido, ocupasse lugar de fala sem pedir licença. Cada surpresa era uma confissão involuntária: esperavam menos. Esperavam pouco. Esperavam o estereótipo.

Chamá-la de Branca de Neve era reafirmar diariamente que o ideal continua sendo branco. Era dizer, sem dizer: você só é aceitável porque se aproxima do que não é. O elogio escondia o projeto: apagar a negritude enquanto finge celebrá-la.

Quando ela parou de rir, interrompeu a engrenagem. O racismo depende da colaboração da vítima para funcionar com elegância. Sem o riso, sobrou o constrangimento — essa reação violenta de quem é forçado a se enxergar.

— Agora tudo virou racismo.

Não. Sempre foi. A diferença é que deixou de ser confortável.

No espelho, ela não buscou aprovação. Viu-se negra e política, porque existir num corpo negro, neste país, nunca foi neutro. Entendeu que não se tratava de opinião, mas de estrutura; não de apelido, mas de poder.

No dia seguinte, quando chamaram “Branca de Neve”, ela respondeu com o próprio nome. Nomear-se foi um gesto político. Recusar o apelido foi um ato de enfrentamento. Pequeno, cotidiano, radical.

O mundo não caiu. Mas ali, naquele espaço mínimo, uma lógica foi desobedecida. E toda vez que o negro recusa a piada, recusa também o lugar que lhe foi destinado.

Porque o racismo brasileiro não sobrevive sem disfarce. E quando o disfarce cai, resta o que sempre esteve ali: a violência nua — finalmente visível.

Jorge Papapá é cantor e compositor.

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