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Sonzaço! A Odisseia dos Gilbertos e a lição de João. Por Renato Queiróz

7 - 10 minutos de leituraModo Leitura

O ano era 1958. Em uma tarde qualquer, no calor de Salvador, um adolescente de quinze anos, já com uma vida musical ativa, interrompeu seu almoço familiar.

Antes mesmo da epifania que redefiniria seu caminho, Gilberto Gil não era um iniciante: dedilhava o acordeão com desenvoltura, influenciado por um dos seus grandes ídolos – Luiz Gonzaga. Integrava um conjunto amador e até compunha jingles, vivendo a efervescência prática da música popular.

O rádio, entretanto, tocava algo que soava ao mesmo tempo estranho e profundamente familiar, algo que transcendia aquela experiência inicial.

Senta que lá vem História!

Ato I: O encontro, o reencontro, o mergulho

Para aquele jovem músico, aquele não foi apenas mais um som de fundo; foi uma revelação que redirecionaria uma vida. A memória permanece vívida décadas depois: “tocou e eu fiquei tão impressionado… tocou tudo em mim”. A música era “Chega de Saudade”
(Tom Jobim e Vinicius de Moraes), na voz e no violão de um nome então novo: João Gilberto. A busca desesperada por respostas — uma corrida até um armazém vizinho para usar o telefone, procurar no catálogo telefônico e ligar para a Rádio Bahia — marcou a dimensão do impacto.

O elemento que mais o fascinou foi o violão: “Eu reconhecia, isso é um violão, mas eu nunca ouvi um violão tocando assim”.

Aquele som revolucionário, que ele mais tarde definiria como o ato de “congelar o samba”, transformando-o em algo íntimo, preciso, foi um chamado irrecusável.

“Foi esse disco… que me fez tocar violão. E com o violão veio tudo, as harmonias, as melodias, as composições, tudo. Veio tudo”.

A semente foi plantada em um solo já fértil, mas que agora demandava um cultivo completamente novo.

Mais de meio século depois, em 2014, esse fruto amadurecido foi colhido com a delicadeza de quem manuseia uma relíquia.

Quando a palavra “samba” no plural já soava quase como um arcaísmo, Gilberto Gil fez seu gesto mais radical: um mergulho de cabeça, coração e violão nas águas profundas e tranquilas do gênero em sua forma mais pura.

Não era o samba de roda, de enredo ou do partido-alto, mas aquele… para ele, essencial da música popular brasileira.

O álbum “Gilbertos Samba” e seu desdobramento ao vivo, o DVD “Gilbertos Samba Ao Vivo”, nasceram desse sonho antigo e de uma homenagem explícita ao mestre que congelou o tempo.

Ato II: A odisseia de desconstrução – do rádio ao mundo

O caminho entre a escuta e a concretização, porém, foi uma odisseia de desconstrução.

A formação musical de Gil, como ele mesmo narra, foi um amálgama de influências aparentemente desconexas.

A odisseia de Gil, antes das vanguardas internacionais, foi gestada no calor doméstico do rádio e na rica diversidade da música popular brasileira que permeava seu cotidiano familiar.

A imersão nas grandes cantoras e cantores, compositores e intérpretes que ecoavam pelos alto-falantes e pelas rodas de música.

Esse hábito familiar de ouvir rádio – onde conviviam o samba-canção de Orlando Silva, a singeleza e sofisticação de Dorival Caymmi, a dramaticidade de Nelson Gonçalves, os versos de Noel Rosa, a majestade de Dalva de Oliveira – forneceu-lhe a matriz afetiva e estrutural, por exemplo.

Foi nesse caldo cultural, já denso e diverso, que a seta do destino musical de Gil foi primeiramente embebida.

A jornada não foi apenas geográfica (Salvador-Rio-Londres-Bahia-ou qualquer lugar), mas sobretudo estética, partindo de um centro brasileiro rumo ao mundo e retornando a esse centro transformado.

Ouviu as influências subsequentes, absorveu e desconstruiu linguagens durante o exílio, um período de laboratório intensivo que teve como ponto de partida justamente aquela sólida e afetiva formação de ouvido.

Passou pelo experimentalismo vanguardista de John Cage, pela ousadia harmônica de Miles Davis, pela guitarra incendiária de Jimi Hendrix e pelas paisagens sonoras do Pink Floyd.

O período de exílio em Londres, no início dos anos 1970, foi seu laboratório solitário.

“Num frio, numa cidade que não é a dele”, o violão tornou-se seu campo de estudos e “namoro com a tonalidade”.

Foram anos de profunda imersão que o permitiram, décadas depois, voltar ao essencial não por simplicidade, mas por síntese complexa. Ele não regredia; chegava à raiz por um caminho sinuoso e pessoal.

Essa bagagem dupla – a fundação brasileira e a reconstrução global – permitiu que, ao retornar ao samba em “Gilbertos Samba”, ele o fizesse sem ingenuidade ou purismo.

A “lição de João” foi reprocessada por um músico que, partindo da essência do rádio de sua infância, havia passado pelas dissonâncias, pelas modulações livres, pela energia elétrica do rock e pela textura atmosférica do progressivo.

O resultado não é um samba “puro”, mas um samba ressignificado por um artista que conhecia, por experiência íntima e intelectual, os limites e as possibilidades de várias tradições musicais.

A simplicidade aparente do disco é, na verdade, o ápice de uma complexa síntese cultural, o retorno consciente e maduro ao quintal depois de uma longa e necessária volta ao mundo.

Ato III: A concepção – o minimalismo e o legado

Inspirado pelo chamado “álbum branco” de João Gilberto (o disco homônimo de 1973, com gravações de 1960), Gil optou por uma fórmula deliberadamente minimalista para seu projeto.

Abriu mão de uma banda completa e adotou uma formação de câmara: apenas sua voz, seu violão e a percussão orgânica e inventiva de Domênico Lancelotti.

O disco destaca-se pela interação do violão de Gil com a percussão contemporânea de Domenico (bateria/MPC), mantendo a leveza bossa-novista.

“A gente era criança quando ele foi lançado… influenciou muito o Domenico”, explicou Gil sobre aquele disco seminal.

A escolha era uma declaração estética: a exposição máxima da narrativa e do ritmo, uma conversa direta e desnuda com a sombra tutelar de João.

Na produção musical, a visão foi concretizada por uma dupla próxima ao artista: Moreno Veloso, filho de Caetano, e Bem Gil, filho do próprio Gil. Essa escolha reforça o caráter afetivo e de legado da obra, com Moreno trazendo sua sensibilidade refinada e Bem contribuindo com um entendimento profundo da linguagem musical do pai.

O álbum conta, ainda, com as incursões, em alguns momentos, de Bem Gil (violão/guitarra), Moreno Veloso (percussão), Mestrinho (acordeon) e Pedro Sá (guitarra). O molho essencial e seus temperos.

A direção artística e curadoria do repertório, naturalmente, foram assinadas pelo próprio Gil, que atuou como maestro e alma do empreendimento, fechando um ciclo que uniu tradição familiar à reverência artística.

Ato IV: O Mapa Afetivo – repertório e gravação

A gravação do DVD, realizada nos dias 1º e 2 de setembro de 2014, capturou a intimidade dessa conversa em um estúdio transformado em palco, com clima de concentração reverente. O repertório, um mapa afetivo que percorre quase um século de música, foi costurado como um rio contínuo de memórias.

A jornada se inicia em solo sagrado com “Aos pés da cruz” (Marino Pinto e Zé da Zilda), um samba de terreiro que finca a obra em sua raiz mais devota e popular. Em seguida, adentra-se no núcleo da bossa nova com “Você e eu” (Vinicius de Moraes e Carlos Lyra), onde o violão de Gil dialoga diretamente com o legado rítmico do mestre.

A melancolia do samba-canção, sua espinha dorsal emocional, ressurge em “Tim Tim por Tim Tim” (Haroldo Barbosa e Geraldo Jacques), tratada não com drama, mas com a sofisticação contida que se tornou a marca do projeto. A homenagem às próprias raízes baianas vem em “Rosa morena” (Dorival Caymmi), cantada com a autoridade tranquila de um herdeiro direto. Num gesto de curadoria brilhante, Gil insere “Desde que o samba é samba” (Caetano Veloso), uma canção-manifesto dos anos 1990 que reflete sobre a história do próprio gênero, posicionando seu trabalho dentro de um diálogo temporal contínuo e autorreflexivo.

A contribuição autoral de Gil a esse cânone se materializa na inédita “Rio eu te amo”, um samba de amor e rendição à cidade que sintetizou o gênero.

O espírito lúdico e despretensioso da bossa é lembrado em “O pato” (Jaime Silva e Neuza Teixeira), enquanto “Doralice” (Dorival Caymmi e Antônio Almeida) reconecta o fio à interpretação seminal e transformadora de João Gilberto.

O coração emocional do show pulsa em uma trilogia autoral. Primeiro, o gesto instrumental carinhoso de “Um abraço no João”. Depois, a reflexão identitária da faixa-título “Gilbertos”. E, por fim, a viagem sensorial à Salvador em “Ladeira da preguiça”. O clássico “Desafinado” (Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça) é reinterpretado, sua ironia original transmutada em uma afirmação calorosa da imperfeição como virtude genuína.

Em seguida, Gil filosofa sobre o gênero em “Máquina de ritmo”, definindo-o como o mecanismo perfeito e ancestral da cultura brasileira.

A pureza do amor em “Milagre” (Dorival Caymmi) cede espaço à declaração de identidade descontraída de “Eu sambo mesmo” (Janet de Almeida). A crônica do cotidiano e das pequenas falhas aparece em “Mancada”, e a crítica social mordaz no atemporal “Chiclete com banana” (Gordurinha e Almira Castilho).

A metáfora futebolística de “Meio-de-campo” demonstra a elasticidade temática do samba nas mãos de Gil. A conclusão é uma tríade poderosa: o hino de raízes “Eu vim da Bahia”, a celebração expansiva e coletiva de “Aquele abraço”, e, como epílogo luxuoso e indispensável, a síntese do espírito carioca em “É luxo só” (Ary Barroso e Luiz Peixoto), com Domênico Lancelotti tecendo a ponte definitiva entre a percussão do terreiro e a sofisticação do estúdio.

Ato V: A Crônica de um Reencontro Circular

“Gilbertos Samba” é, portanto, muito mais que um disco ou um DVD, é a crônica de um reencontro circular. É o registro de um artista que, após uma vida navegando nas vanguardas globais, voltou ao ponto de partida e descobriu que a origem não era um porto estático, mas um oceano de possibilidades.

O samba que João Gilberto “congelou” em 1958, transformando-o em um artefato de precisão atemporal, foi cuidadosamente “descongelado” por Gil em 2014. Não para revertê-lo a um estado anterior, mas para demonstrar que, ao ser aquecido pelo calor de uma nova interpretação e pelo afeto de uma vida inteira de aprendizado, aquele gelo não virou água, mas sim vapor — uma essência invisível e onipresente que sobe e impregna todo o ar da música brasileira. É um ato de restauração e revelação da beleza atemporal do fusco, aquele momento crepuscular onde o samba verdadeiramente habita.

Um presente para João, para o samba e para gente: o êxtase tranquilo da melancolia ritmada.

Só SONZAÇO!

Renato Queiroz é professor, compositor, poeta e um apaixonado pela história da música

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