Sonzaço: Mar de Copacabana: o presente infinito de Gilberto Gil. Por Renato Queiróz
Em 1983, das ondas do rádio no disco Extra (WEA), chegava um presente: “Mar de Copacabana”.
Senta que lá vem História!
Voz e violão Ovation de Gil, composição assinada pela mesma mão que desenhava no ar a metáfora perfeita. Nos controles, a mente inventiva de Liminha, arquiteto de sonoridades que definiriam uma época.
A faixa era um microcosmo do Brasil sonoro daqueles anos: a guitarra precisa e sofisticada de Celso Fonseca, a bateria fundamentadora de Wilson Meireles, o tamborim de Repolho fincando a raiz. E, navegando sobre esse mar orgânico, as nuvens eletrônicas de Jorjão Barreto, explorando os cosmos sintéticos do Memory Moog, Synergy, GS-II e as águas térreas do Piano Fender Rhodes.
Mas a alma da canção está no gesto poético que a nomeia. Gil não canta sobre o mar, ele o oferece. Um presente divino, encomendado a um anjo, entregue por um “caminhão que desce do infinito e abastece o nosso amor”. Copacabana deixa de ser geografia e vira oferenda, sonho líquido, abundância espiritual. O amor precisa de um tanque cheio de horizonte.
Liminha teceu com maestria esse paradoxo: aterrou o céu e eletrificou a praia. Uniu a palma da mão no violão ao toque fantasma nos sintetizadores. Criou uma moderna tradição, um futuro que já vinha com o cheiro do mar e o brilho dos circuitos.
“Mar de Copacabana” é esse milagre: uma canção enraizada no chão de Copacabana e que, ao mesmo tempo, desprende-se do chão. É tecnologia a serviço do assombro, poesia que se faz paisagem, e um presente que Gil, como um anjo do infinito, entrega a todos nós: um caminhão-tanque de amor, sal e eternidade.
SONZAÇO!
Renato Queiroz é professor, compositor, poeta e um apaixonado pela história da música
