Aldeia Nagô
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Documentário retrata como a memória dos navios negreiros é ressignificada a partir das religiões de matriz africana

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Símbolo da migração forçada dos povos africanos, os navios negreiros figuram na tragédia que acometeu tais sociedades. No entanto, os povos de terreiros mantêm a simbologia da navegação, através da expressão “barco de iniciados”, para representar a reconexão com suas origens a partir da espiritualidade. Esta é a premissa de “Barco: Do outro lado da memória”, documentário dirigido por Marcelo Ricardo, que passa a integrar o acervo digital do museu Casa do Benin, no próximo dia 19 de novembro.

No Candomblé, durante o período de iniciação, as pessoas são recolhidas e entram num processo de autodescoberta, cercado por segredos, em que estabelecem sua relação com suas divindades. A pessoa ou o grupo de religiosos passa a ser reconhecido pela expressão “barco” . Esta expressão gerou a curiosidade por Marcelo Ricardo, enquanto estudante de jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA, quando desenvolvia seu projeto de conclusão de curso.

Ao longo de sua investigação teórica, o documentarista que também estava se aproximando da religião, encontrou fortes indícios de que a hipótese de que a expressão surgiu como forma de resgatar e dar significado à trágica memória dos navios negreiros. “A história negra é marcada pela transmigração forçada de povos africanos, mas para a tradição do candomblé, o barco é quem faz o retorno à sua origem”, aponta Marcelo.

A partir da memória do babalorixá Rychelmy Imbiriba (Esutobi) do Ilé Asé Ojisé Oludumaré, Doté Amilton Costa, do Hunkpame Vodun Zo Kwe, e do Tatá Anselmo Santos, do Terreiro do Mokambo o projeto buscou contemplar as três nações que remanescem na tradição do Candomblé ampliando o entendimento da expressão, a partir de suas semelhanças e diferenças. A obra também traz a narração da assistente do setor de pesquisa da Fundação Cultural Pierre Verger conhecida carinhosamente como Vovó Cici. 

Do outro lado da memória

“Os nossos mais velhos contam nossa história diferente de como aprendemos, foi com esse intuito que produzi esse trabalho para apontar outros olhares desta memória”, enfatiza o documentarista.  A partir dos depoimentos e canções dos povos de terreiro, Marcelo Ricardo constrói um filme performático e informativo de como, a partir da espiritualidade, outros significados se estabeleceram.

O filme foi produzido com o apoio da Fundação Roberto Marinho, Canal Futura e da Associação Brasileira de Televisões Universitárias, através da quinta edição do projeto “Curtas Universitários”. A obra é fruto do trabalho de conclusão de curso do realizador, que passa a incorporar o acervo da Casa do Benin, equipamento cultural voltado à preservação artístico cultural entre Brasil e Benin.

“Meu desejo era que o filme fizesse parte da Casa [Benin], pois acredito que este é um documento da memória negra e africana que urge fazer parte do imaginário coletivo, sobretudo de nossos ideais de nacionalidade”, afirma o documentarista. “Eu acredito que obras como esta estão inteiramente comprometidas com a educação e a diversidade, sendo também minha forma de colaborar com a Lei 10.639/03”, enfatiza. O filme está disponível para ser visto através das plataformas digitais do museu. 

*A Lei 10. 639/03, torna obrigatório o ensino da história negra, africana e indigena, no ensino fundamental e médio, nas escolas públicas e privadas.

Serviço

Lançamento de “Barco – do outro lado da memória”

QUANDO: 19 de novembro de 2021

https://bit.ly/AssistaBarco

Gratuito

Sinopse

Num transe fílmico navegamos em águas ancestrais com o “barco de iniciados”, ao passo que retornamos à origem, pela memória trágica da transmigração forçada de africanos, aderimos aos mistérios e sensibilidades da religião dos orixás que apresentam outros significados a partir da espiritualidade, por meio da experiência de um abíyan (não inciado). 

Ficha técnica 

Direção e Argumento: Marcelo Ricardo

Produção Executiva: Bruno Rodrigues

Câmera e Fotografia: Edvaldo Santos Junior

Som Direto: Lane Costa

Montagem e Finalização: Igor Moura

Vocais: Thiago Romero 

Sobre Marcelo Ricardo

Graduando em Comunicação Social pela Universidade Federal da Bahia, Marcelo atua no segmento literário e na realização em audiovisual, tendo experiências com produção e comunicação no segmento artístico. Participou da série documental, “Travessias Negras” (2016), com direção de Antônio Olavo, pela Portfolium Filmes, e também produziu e dirigiu a videorreportagem “Corpos Violentos ou Corpos Violados?”, em parceria com a Revista Afirmativa e a Produtora Tela Preta. Recentemente, lançou “Adé”, filme que alia poesia e o universo das comunidades-terreiro para pensar afetividade e a relação entre homens negros.

Fotos: Edvaldo Raw
Arte Divulgação: Ricardo Caldeira
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