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Espetáculo “Eu, Zuzu Angel, agora milito” estreia no Teatro Martim Gonçalves no mês que marca os 50 anos de morte da estilista brasileira que foi assassinada pela Ditadura Militar

6 - 9 minutos de leituraModo Leitura

Com dramaturgia e direção de Sophia Colleti e atuação de Vivianne Laert, Mano Leone e da própria autora, o espetáculo transita entre ficção, poesia e história do Brasil para tratar de temas como maternidade, amor, política, luta, luto e memória.

As mazelas do Golpe Militar no Brasil, ocorrido há mais de 60 anos, ainda ecoam pelo mundo em obras artísticas, como no cinema, onde serviram de pano de fundo para filmes como “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”. No espetáculo “Eu, Zuzu Angel, agora milito”, com direção e dramaturgia de Sophia Colleti – artista que também atua na peça – o contexto histórico também se desenha a partir desse passado tenebroso, em que a costureira, estilista, empresária, mãe e revolucionária mineira Zuleika Angel Jones (mais conhecida como Zuzu Angel) fez da moda a sua voz, linguagem e protesto contra o regime militar da época, nas décadas de 1960 e 1970. Além disso, sempre se manifestou por uma mulher livre de padrões estéticos e por uma identidade mais brasileira em suas criações

Em sua trajetória de luta e de luto, mas também de ativismo e de uma carreira reconhecida internacionalmente, Zuzu viveu momentos trágicos e de perseguição à sua família. Em 1971, seu filho Stuart (de 26 anos), integrante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro, foi sequestrado, torturado e morto pelo governo. Por cinco anos, Zuzu buscou o corpo do filho e denunciou as circunstâncias de seu assassinato. Inclusive, em 14 de abril de 1976, ela também foi assassinada pelo regime, em um acidente de carro orquestrado por agentes do Estado, fato reconhecido apenas em 1996 por meio da Comissão Nacional da Verdade. O espetáculo estreia em 15 de abril, data em que, 50 anos atrás, acontecia o funeral da estilista. A temporada ocorre de 15 a 26 de abril, no Teatro Martim Gonçalves (Canela). Às quintas e sextas, às 19h; sábados, às 16h e às 19h; e aos domingos, às 16h. Ingressos disponíveis através do Sympla (Ingressos disponíveis pelo Sympla (https://bit.ly/4bVz1Q3) ou no local, na bilheteria do evento. R$ 15,00 (meia) e R$ 30,00 (inteira). ) ou na bilheteria do espaço, uma hora antes de cada sessão. Os ingressos custam R$25,00 (meia) e R$50,00 (inteira). Assinantes do Clube Correio têm 40% de desconto sobre o valor da inteira.

A montagem tem como grande protagonista a atriz Vivianne Laert, no papel de Zuzu Angel, contracenando com Mano Leone, que interpreta Stuart e outros personagens masculinos, e Sophia Colleti, que vive a Filha e outros personagens femininos. O elenco recompõe as diversas fases e vertentes da vida familiar, artística e, principalmente, política de Zuzu Angel. Entremeado de projeções de vídeo e potentes intervenções de luz e som, o espetáculo vai costurando – entre a poesia, a ficção e os fatos históricos – uma dramaturgia que pode ser percebida por meio de variadas atmosferas e planos narrativos; como o caráter biográfico e documental em que informações históricas vêm à tona, desvelando memórias e bastidores desse enredo, a exemplo do período em que Zuzu morou em Salvador e deu à luz ao seu primogênito: Stuart, nascido, assim, soteropolitano.

Uma das passagens emblemáticas da obra de Zuzu foi durante um desfile-protesto feito em Nova Iorque, no mesmo ano em que seu filho foi assassinado. Em alguns dos modelos desfilados, a artista trocou seus tradicionais motivos alegres por tecidos brancos bordados com desenhos coloridos, mas que evocavam cenários sombrios. Pássaros em gaiolas, quepes, aviões, tanques

militares, soldados e canhões eram algumas das imagens nos vestidos que cruzaram a passarela. Entre eles, vestidos de linho branco com diferentes comprimentos de manga e um intenso longo com saia godê, em gorgorão de algodão vermelho-escuro, e a imagem de um anjo bordada na frente com canutilhos, miçangas e paetês.

Mediação Cultural e Acessibilidade

Durante a temporada do espetáculo, serão realizadas duas sessões mediadas, nas sextas-feiras, dias 17 e 24 de abril, às 14h30, com gratuidade para alunos, professores e funcionários da rede pública municipal de Salvador, bem como para pessoas com deficiência auditiva ou visual, públicos-alvo do projeto. As sessões contarão com audiodescrição e interpretação em Libras. Após essas apresentações, serão realizados bate-papos com o público, incentivando os estudantes presentes a tirarem dúvidas e refletirem sobre a democracia.

Processo de criação e encenação

O processo de criação e encenação de “Eu, Zuzu Angel, agora milito” começou na Universidade Federal da Bahia, em 2017, a partir de uma disciplina do curso de Direção Teatral, tendo sua dramaturgia testada em diferentes formatos ao longo dos anos e sempre bem recebida pelo público. Em 2021, durante a pandemia, e em celebração ao centenário de nascimento da estilista, foi realizada uma leitura on-line da peça, seguida de um bate-papo com a presença da jornalista Hildegard Angel, que conversou com o público e manifestou sua expectativa em ver a peça montada. Para a estreia em 2026, a dramaturgia foi reescrita, trazendo maior maturidade e informações atualizadas. O novo texto ganhará publicação em livro pela Alameda Editorial, editora paulista reconhecida por seu catálogo dedicado às ciências humanas e às artes, com lançamento previsto para abril.

O projeto “Eu, Zuzu Angel, Agora Milito” foi contemplado pelo edital Chamadão das Artes Cênicas, com recursos financeiros da Fundação Gregório de Mattos, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, Prefeitura de Salvador.

+ SOBRE A AUTORA, DIRETORA E ATRIZ Sophia Colleti

Atriz, dramaturga, encenadora, produtora, pesquisadora de público e mestre em Artes Cênicas. Paulista fugida, a artista chegou sozinha em Salvador em 2015, com 17 anos, para cursar Artes Cênicas na UFBA. Em sua trajetória na Escola de Teatro, participou como atriz de mostras e experimentos cênicos, integrou o projeto de extensão CineTeatro, e fez um intercâmbio de um semestre na Universidade de Coimbra, em Portugal, onde

estudou principalmente cinema.

No currículo, destacam-se dois espetáculos. O primeiro, “Enfermaria nº 6”, sua pré-formatura em direção teatral, que lhe rendeu a indicação ao Prêmio Braskem de Teatro 2018 (atual Bahia Aplaude) na categoria Revelação. A peça é uma adaptação autoral do conto de Anton Tchekhov e discute, a partir de uma perspectiva filosófica, temas como saúde mental, manicômios e relativização de violências. O segundo, “Revolução – o retorno de um corpo astral a um ponto da própria órbita”, foi seu espetáculo de formatura, em mais uma adaptação autoral — dessa vez do romance Revolutionary Road, de Richard Yates. O trabalho investiga as tensões entre desejo, fracasso e os ideais de vida em sociedade.

Mais recentemente, Sophia escreveu o texto “O que vem depois”, montado pela Cia de Teatro da Casa sob direção de Gordo Neto, de quem também foi assistente de direção. Além disso, foi assistente de direção de Marcio Meirelles no espetáculo “O trem que nos leva”, do Grupo Minotauro, em parceria com o Teatro Vila Velha.

+ SOBRE Zuzu Angel

Zuzu Angel (1921-1976) foi uma estilista brasileira. Mãe de Stuart Edgar Angel Jones, jovem desaparecido em 1971 durante o período da Ditadura Militar no país. Zuleika Angel Jones, conhecida como Zuzu Angel, nasceu em Curvelo, em Minas Gerais, no dia 5 de junho de 1921. Ainda criança mudou-se com a família para Belo Horizonte. Morou em Salvador, na Bahia, época em que costurava para a família. Da cidade, recebeu grande influência em seu futuro trabalho.

Em 1940, Zuzu conheceu o americano Norman Angel Jones, com quem se casou em 1943. No dia 11 de janeiro de 1946 nasceu o primeiro filho, Stuart Edgar Angel Jones. O casal teve mais dois filhos, Ana Cristina e Hildegard Angel e, em 1947, se mudaram para o Rio de Janeiro. No final dos anos 50, Zuzu começou a trabalhar como profissional da costura. Nos anos 60, separou-se do marido. Em 1970, Zuzu abriu uma loja de roupas em Ipanema. Com o tempo, a estilista expandiu seu trabalho e chegou ao mercado norte-americano. Foi vitrine de grandes lojas de departamento e ganhou editoriais importantes. Chegou a ter clientes famosas, como as atrizes Kim Novak e Joan Crawford.

Na manhã de 14 de maio de 1971, seu filho Stuart, então estudante de economia e militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), que combatia o regime militar que foi instalado no país em 1964, foi preso no Rio de Janeiro e levado para a Base Aérea do Galeão. A partir do desaparecimento do filho, Zuzu transformou sua vida em uma batalha incansável em busca de informações sobre o paradeiro do filho.

Ainda em 1971, Zuzu realizou um desfile-protesto em Nova Iorque. Suas roupas incorporaram elementos que denunciavam a situação política brasileira, como tanques de guerra, canhões, pássaros engaiolados, meninos aprisionados e anjos amordaçados.

FICHA TÉCNICA:

Dramaturgia e encenação: Sophia Colleti

Assistente de direção: Rui Manthur

Elenco: Mano Leone, Sophia Colleti e Vivianne Laert

Produção: Cia de Teatro da Casa (Gordo Neto e Iara Colina), Ana Clara Veras e Sophia Colleti

Direção de movimento: Mônica Nascimento

Iluminação: Victor Hugo Sá

Assistente e operadora de iluminação: Cecília Vasconcelos

Cenário e figurino: Guilherme Hunder

Costureira: Saraí Reis

Cabelo e maquiagem: Julia Laert

Direção musical: Luciano Bahia

Técnica e operadora de som e projeção: Patricia Rojas

Assessoria de imprensa: Arlon Souza

Identidade visual e design gráfico: Mariano Santos

Fotografia: Ícaro Soares

Captação de imagens para rede social: Hyago Matos

Acessibilidade comunicacional: Rede Iris (coordenação Jurema Iris)

Mediação de público: Criare – Mediações Culturais e Educacionais (coordenação
Créditos: 
Foto: Ícaro Soares
Intervenção gráfica: Mariano Santos

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