Aldeia Nagô
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A grande merda que dá quando você se excede em sensatez e generonidade. Por Walter Falceta

5 - 6 minutos de leituraModo Leitura

As redes sociais potencializaram o Terror do Século XXI. Se você for racional demais, se extrapolar no bom senso e, principalmente, se resolver ser altruísta, vão te difamar, caluniar, detonar, fuder, pisar em cima e estigmatizar.

Os principais agentes dessa nova caça às “bruxas”, mas também aos alquimistas, arcanjos e fadas, são os malditos influencers (geralmente bem remunerados) e suas seitas de seguidores em delírio.

Esses correligionários da detração leviana nunca fogem à regra: ou são burros-imbecis, ou são ignorantes-deseducados ou são gente de péssimo caráter.

E o pior: sempre que possível, essa ação demonizadora se segue, paralelamente, a uma escandalosa santificação de biltres, safardanas e vagabundos de toda sorte e espécie.

Revoltado, eu reclamava raivosamente desse tipo de infâmia. Aí, na tentativa de vão consolo, uma neoestoica me disse:

– O pai, mas você é tonto? Sabe que foi sempre assim… Afeee…

Quem proferiu essa sentença tem a posse da verdade. Equívoco brutal meu acreditar que o suposto avanço técnico-civilizatório garantiria reconhecimento ou recompensas aos sensatos e bondosos.

Porque, de fato, a maior parte da humanidade nutre profundo ódio por aqueles que, no contraste evidente, colocam em evidências seus vícios e incapacidades.

Um vendedor de cerâmicas já havia me advertido sobre essa maldição. Foi há muitos anos, numa tarde quente e fumarenta de Atenas.

Ele se referia ao um “antepassado” possível, o sincero Sócrates. Em vez de ensinar certezas, o sujeito enfileirava perguntas e expunha a ignorância dos larápios que se julgavam sábios.

O resto você sabe. Foi absurdamente acusado de corromper a juventude e condenado a se afastar para sempre da pólis. Como sua vida era coletiva, considerou a punição pior do que a morte. Bebeu cicuta, com tristeza e orgulho, isentando-se de seu mundo de merda.

Lembrei de outra figura espetacular: Hipátia de Alexandria, que deveria ser mais lembrada pelas feministas e feministos. Era matemática, astrônoma e filósofa, uma baita intelectual da chamada Antiguidade tardia.

Virou uma referência de conhecimento evoluído. Por motivos políticos e religiosos, foi assassinada por uma turba delirante.

Portanto, precavenha-se. A multidão enganada e ressentida é o ciclone implacável da intolerância e da violência.

Giordano Bruno era um formidável pensador. Falou do universo infinito e de inúmeros mundos. Pensava um milênio adiante. A porra da Inquisição – que nunca terminou, mesmo depois de extinta pela Igreja Católica – o encarcerou, torturou e o queimou vivo, em Roma.

Sorte menos dramática teve Galileu Galilei, o cara cuja pesquisa somou credibilidade ao heliocentrismo. Foi o sujeito que mudou nossa ideia de mundo ao localizar as quatro principais luas de Júpiter.

Foi condenado e obrigado a renegar publicamente seus saberes cósmicos. Passou o restante da vida em prisão domiciliar.

No Século 19, Ignaz Semmelweis descobriu que médicos poderiam transmitir doenças às parturientes e demonstrou que a lavagem das mãos reduzia drasticamente as mortes.

Sua conclusão óbvia enfrentou forte resistência da comunidade médica, mobilizando imbecis, apedeutas e canalhas. Foi ridicularizado, rejeitado e internado em um manicômio. Tentou fugir e levou uma sova dos guardas. Esses ferimentos provocaram sua morte, semanas depois.

Este aqui você viu na telinha, não faz muito tempo. Alan Turing, matemático e pioneiro da computação, foi fundamental para a quebra dos códigos alemães na II Guerra Mundial.

Depois do conflito, foi perseguido pelo Estado britânico por ser homossexual. Condenado e submetido à castração química, morreu aos 41 anos. Ou seja, o homem que ajudara a salvar a democracia foi perseguido e destruído pela própria sociedade que defendera.

Mahatma Gandhi transformou a resistência não violenta em instrumento político contra o colonialismo britânico e defendeu a convivência entre diferentes grupos religiosos.

Foi preso uma pancada de vezes e acabou assassinado por um extremista hindu. Sua morte mostrou que até a defesa radical da não violência e da tolerância pode acender a fúria dos fanáticos.

Martin Luther King Jr., que nele se inspirou, foi o líder da luta pelos direitos civis nos EUA. Defendeu igualdade racial e resistência não violenta. Foi espionado pelo FBI, perseguido, caluniado, preso e constantemente ameaçado. Em 1968, o Estado norte-americano permitiu que o assassinassem, em Memphis.

Na África do Sul, Nelson Mandela lutava apenas contra o preconceito, a discriminação e a desigualdade. Passou 27 anos preso pelo regime do apartheid.

O bondoso e justo Óscar Romero, arcebispo de San Salvador, passou a denunciar publicamente a violência e as violações de direitos humanos cometidas contra os pobres. Foi assassinado enquanto celebrava uma missa.

O culto e bacanudo colega Vladimir Herzog, jornalista, filósofo e professor, dirigia o jornalismo da TV Cultura quando foi chamado ao DOI-CODI para prestar esclarecimentos.

Foi preso, torturado e morto. E o regime dos milicos corruptos ainda tentou apresentar sua morte como suicídio.

Das minhas viagens ao Acre, lembro com pesar do que ocorreu ao generoso, inteligente e valente Chico Mendes, seringueiro, sindicalista e defensor do meio ambiente e dos povos da floresta.

Organizou os “empates” contra o desmatamento e tornou-se uma voz internacional em defesa da Amazônia. Foi assassinado por interesses ligados à disputa pela terra.

Falando do fundo do Brasil, recordo ainda da gentilíssima Dorothy Stang, religiosa, defensora dos agricultores pobres da Amazônia.

Eram lindos seus projetos de desenvolvimento sustentável. Mas enfrentou interesses fundiários de coronéis e aventureiros. Foi assassinada em Anapu, no Pará, em 2005.

O Bruno Pereira, indigenista de carreira da Funai, era um cara fabuloso, simples, solenemente divertido, que gostava de cantar com as crianças das aldeias.

Trabalhou com a Univaja, ajudando os povos do Vale do Javari a proteger seu território contra invasores, pesca e caça ilegais.

Era especial porque não defendia apenas os indígenas, mas também o direito de permanecerem como guardiães da natureza em seus próprios territórios.

Junto com ele, mataram o colega Dom Phillips, jornalista britânico radicado no Brasil desde 2007, correspondente de veículos como The Guardian e The Washington Post.

Corajosamente, ele contava ao mundo sobre os ataques ao meio ambiente e aos povos originários. Uma perda desastrosa para o mundo da comunicação no processo civilizatório.

Antes de serem presas, mortas ou torturadas, é preciso repetir que essas pessoas todas foram caluniadas, difamadas, ofendidas e ameaçadas.

Então, diante de situações semelhantes, NUNCA SE CALE. É sua obrigação.

Pronuncie sempre, mesmo que no seu meio restrito, uma palavra de apoio às pessoas que ainda se arriscam a pensar com sensatez, a defender os oprimidos e a agir com bondade.

Não citei muitas e muitos que deveriam figurar nesta dourada lista. Fica à vontade para lembrá-los e reverenciá-los nos comentários.”

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