Antes de chegar ao papel, livro de Márcio Junqueira vira performance de literatura, música e imagem e circula pela Bahia
“Você com 24, eu com 42” transforma 33 fragmentos de uma história de amor em experiência ao vivo com leitura integral, DJ e projeções; apresentações gratuitas passam por Salvador, Cachoeira e Santo Amaro
Em “Você com 24, eu com 42”, o poeta e artista visual Márcio Junqueira transforma uma obra concebida para as páginas em uma performance literária de aproximadamente 70 minutos, na qual texto, desenhos, música e projeções se encontram diante do público.
A circulação passa por Salvador, durante a Feira Maré Literária, Cachoeira, no Cine Theatro Cachoeirano, e Santo Amaro, no Teatro Dona Canô. As apresentações serão gratuitas e contarão com acessibilidade em Libras.
No palco, Márcio faz a leitura integral dos 33 fragmentos que compõem a obra. Um DJ constrói a paisagem sonora da apresentação, enquanto um VJ projeta os desenhos autorais que também integram o futuro livro.
É justamente nesse deslocamento que está uma das provocações do trabalho: o que acontece com um livro quando ele deixa de depender do papel para chegar ao público? “Esse trabalho nasceu como livro, mas fui entendendo que a leitura integral também poderia ser uma forma de publicação. Publicar, para mim, é tornar público. Quando o texto sai do papel e encontra o corpo, a música, a imagem e o público, ele ganha outras camadas”, explica Márcio Junqueira.
Uma história construída em fragmentos
No centro da obra está a relação entre um homem branco de 24 anos e um homem negro de 42 anos. Interracial, intergeracional e sorodiscordante, o casal tem sua história reconstruída por meio de desenhos, fotografias e fragmentos de texto que funcionam como peças de um quebra-cabeça afetivo.
Raça, classe, identidade, geração e HIV atravessam a relação. Ainda assim, Márcio aponta que a pergunta principal está em outro lugar: na possibilidade do encontro.
“Como é possível construir um encontro amoroso e afetivo entre dois sujeitos atravessados por tantas diferenças? É uma história que lida com todas essas marcas, mas que também enuncia explicitamente que gostaria de ter um final feliz”, afirma.
A escolha também dialoga com uma investigação presente há anos na produção do artista sobre masculinidades negras, homoerotismo, memória e escritas de si.
“Como artista negro e LGBT+, me interessa produzir obras que não reduzam esses sujeitos apenas ao racismo ou à violência. Me interessa orbitar outras possibilidades de existência. As histórias constroem nosso imaginário e, por isso, também precisamos produzir narrativas cuidadosas sobre pessoas negras LGBT+ vivendo, amando, desejando e construindo memória”, diz.
Do livro para o corpo
A transformação da publicação em performance começou quase por acaso. Desenvolvida inicialmente entre 2023 e 2024 como um livro de artista durante o doutorado em Artes Visuais na UFBA, a obra começou a revelar sua dimensão performática a partir de experiências de leitura integral.
O formato foi experimentado no Rio de Janeiro e, posteriormente, durante o Open Studio da residência artística da FAAP, em São Paulo, em 2024.
“Essas leituras foram a fagulha para perceber o livro também como performance”, conta Márcio, que aponta entre suas referências artistas como Laurie Anderson, Arnaldo Antunes, Maria Bethânia, Leonilson, Ana Cristina Cesar e Natasha Felix.
Agora, a circulação baiana se torna também um laboratório para a futura publicação impressa. “Em algum momento esse projeto vai se tornar um livro físico, mas me interessa essa fricção entre códigos: da literatura para a performance, da página para o corpo, da leitura individual para uma experiência coletiva”, afirma.
Para Márcio, o desejo é que, ao final dos cerca de 70 minutos, permaneça algo menos conceitual e mais afetivo.
“Eu gostaria de comover e encantar. Que as pessoas saíssem com alguma fé no amor e na possibilidade do encontro. Com um quentinho no coração e alguma vontade de apostar no outro.”
Este projeto foi contemplado nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura na Bahia, realizados com recursos do Governo Federal repassados pelo Ministério da Cultura, e executados pelo Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura do Estado.
SERVIÇO
O que? Você com 24, eu com 42 – Performance literária de Márcio Junqueira
Duração: aproximadamente 70 minutos
Entrada gratuita
Acessibilidade em Libras
SALVADOR
Feira Maré Literária – Paripe, Salvador
Data: a confirmar
Horário: a confirmar
Local: a confirmar
SANTO AMARO
Teatro Dona Canô – Santo Amaro
Data: 11/10/2026
Horário: às 19h
CACHOEIRA
Cine Theatro Cachoeirano – Cachoeira
Data: 28/11/2026
Horário: às 19h
SOBRE MÁRCIO JUNQUEIRA
Márcio Junqueira é professor, poeta e artista visual. Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal da Bahia (PPGAV-UFBA), desenvolveu pesquisa sobre masculinidades negras e homoerotismo.
Desde 2005, investiga temas como homoerotismo, escritas de si, autoficção, educação e subjetividades negras, atuando principalmente nos campos do livro de artista, publicação e exposições impressas.
É autor de “Sábado” (2019), “Lucas” (2015) e “voilà mon coeur” (2010). Foi finalista do Prêmio Mix Brasil, em 2020, com “Sábado”, e recebeu menção especial no 64º Salão de Artes da Bahia, em 2022.
Também participou de exposições como “Utopia e distopia”, no Museu de Arte Moderna da Bahia, e realizou, em 2022, sua primeira exposição individual, “Diário de Pegação”, no Instituto Guimarães Rosa, em Luanda, Angola.
Integra o coletivo Bliss Não Tem Bis e, desde 2012, é professor de Literaturas em Língua Portuguesa no Campus XVIII da Universidade do Estado da Bahia (UNEB).
