Sonzaço! Juventude Transviada: Luiz Melodia e Cássia Eller no encontro que a música guardou. Por Renato Queiroz
Tem música que simplesmente acontece. Ela nasce, cresce e, de repente, toma conta do imaginário de um povo inteiro. “Juventude Transviada” é dessas.
Senta que lá vem História!
ATO 1. O Estácio, o samba e o moleque Melodia
O ano era 1976. Luiz Melodia, cria do Morro do Estácio, soltava no mundo o álbum Maravilhas Contemporâneas. Segundo disco dele. E ali estava aquela canção que ninguém sabia ainda, mas que ia grudar feito carrapato na memória do Brasil.
Melodia compunha do jeito dele. Trançava o samba tradicional com soul, com blues, com uma lírica afiada que não pedia licença. “Lava roupa todo dia, que agonia / Na quebrada da soleira, que chovia…” É a rotina de quem trabalha, o cansaço do corre diário, a busca por afeto no meio da cidade grande. E o refrão: “Eu entendo a juventude transviada / E o auxílio luxuoso de um pandeiro…” A voz da periferia contada com elegância e poesia. A crítica já respeitava o rapaz desde Pérola Negra, de 1973, mas o reconhecimento popular ainda estava por vir.
ATO 2. A TV, a censura e o estouro nacional
Foi na televisão que a coisa pegou fogo.
Em 1975, a censura da ditadura militar proibiu a exibição da primeira versão da novela Roque Santeiro de Dias Gomes. Buraco na programação. Para tapar, a autora Janete Clair escreveu Pecado Capital em tempo recorde. A trama girava em torno do taxista Carlão, interpretado por Francisco Cuoco, que encontrava uma mala cheia de dinheiro roubado no banco de trás do táxi e vivia um dilema ético daqueles.
“Juventude Transviada” virou o tema do Carlão. A combinação entre o drama do personagem e o canto dolente de Melodia fez a música tocar sem parar nas rádios. Entrou na casa de milhões de brasileiros. Virou um dos maiores sucessos da história da TV brasileira.
ATO 3. O encontro no Casa de Samba
Anos mais tarde, em 1999, a música ganhou uma das suas interpretações mais marcantes. No projeto Casa de Samba 3, idealizado pelo produtor e gaitista Rildo Hora, a proposta era reunir nomes do samba e da MPB para dividir faixas com artistas de outros gêneros e gerações.
Foi ali que Luiz Melodia dividiu o microfone com Cássia Eller. O registro ao vivo, feito no Rio de Janeiro, colocou lado a lado duas personalidades marcantes.
De um lado, Melodia: charme, afinação impecável, um quase terno alinhado e o gingado característico do samba carioca. Do outro, Cássia: vinda do rock e do blues, voz rasgada, postura tímida e um respeito visível pelo mestre. No palco, os dois não disputaram espaço. Cássia cantou contida pelo respeito ao ídolo, com delicadeza e reverência. Melodia a conduziu com um sorriso cúmplice. O arranjo trazia um balanço cadenciado no pandeiro e no violão, criando um diálogo direto entre a voz aveludada do compositor e o timbre grave de Cássia.
O dueto era uma conversa de olhar e alma.
Olhar para essa gravação hoje é lembrar da força de dois artistas que deixaram uma marca funda na nossa cultura. Uma parceria simples, bonita, que continua soando fresca toda vez que a gente dá o play.
SONZAÇO!
Renato Queiroz é um apaixonado pela música
