Uma velha história por Alessandra Terribili
Nos anos 80, a luta contra a violência contribuiu para
fortalecer e consolidar o feminismo no Brasil. As mortes de Ângela Diniz (1979)
e de Eliane de Gramond (1981) por seus ex-maridos chocaram o Brasil.
Eram
mulheres que puseram fim a seus casamentos, e, além da brutalidade dos
assassinatos, os dois casos envolviam pessoas conhecidas da opinião pública, o
que lhes conferiu ainda mais "notoriedade". "Quem ama não mata" era a resposta
dada pelas feministas àqueles que sugeriam que os homens matavam "por
amor".
Mas não tardou a tentativa de transformar as vítimas em
rés, "compreendendo" o criminoso, que teria "perdido a cabeça" por ação delas.
Organizadas, as mulheres repudiaram o machismo que levou Ângela e Eliane à
morte, e que, depois, buscou incessantemente justificar essas mortes com base na
conduta das vítimas. A tal defesa da honra era reivindicada. O movimento de
mulheres não se calou e colocou em questão as insígnias do "em briga de marido e
mulher, ninguém mete a colher" ou a ideia de que "um tapinha não
doi".
O tempo passou e, em 2000, a própria mídia foi pano de
fundo para um crime análogo. A jornalista Sandra Gomide foi morta pelo
ex-namorado, Pimenta Neves, então diretor de redação de O Estado de São Paulo. O
assassinato aconteceu precisamente porque o namoro acabou. Por conta disso, ela
sofreu agressões físicas e verbais, perdeu seu emprego, foi perseguida. Neves
chegou a ameaçar de retaliações qualquer pessoa que oferecesse trabalho a
Sandra. Pela mídia, a moça chegou a ser tratada como "aquela que namorou com o
chefe para subir na vida".
Em 2008, outro episódio de violência contra mulher gerou
comoção nacional. Eloá Pimentel, com seus 15 anos, praticamente foi assassinada
ao vivo e em rede nacional pelo ex-namorado, que a sequestrou e a manteve em
cativeiro por cinco dias. A agonia da menina foi acompanhada em tempo real, e ao
se tornar a personagem central de uma história dramática, ela, como as já
citadas, teve sua vida exposta e sua conduta julgada, apresentada como principal
fundamento do comportamento agressivo de seu assassino.
Há poucos meses, a vítima foi Maria Islaine,
cabelereira, morta pelo ex-marido diante de câmeras que ela mesma mandou
instalar no salão onde trabalhava, julgando que essa atitude a protegeria da
violência anunciada. Dias atrás, tivemos a infelicidade de testemunhar o
advogado do assassino defendendo seu cliente com o bom e velho "ela
provocou".
Eliza e Mércia
Agora, a mídia tem apresentado as histórias de Eliza
Samudio e de Mércia Nakashima como se fossem romances policiais. Convida-nos a
acompanhar cada momento, provoca comoção, sugere respostas, vasculha a vida das
mulheres mortas e as expõe a julgamento público, sem direito de defesa. A
tragédia é exaustivamente explorada, e no final, a lição que fica é: elas
procuraram.
Mércia morreu, aparentemente, porque rejeitou seu
ex-namorado. Cometeu o desaconselhável equívoco de querer sua vida para si
mesma, de não aceitar perseguições, sanções ou intimidações. Entretanto, tem-se
falado em traição e ciúmes. E lá vem, de novo, a conversa fiada da defesa da
honra. Mas é Mércia quem não está mais aqui para defender a
sua.
De Eliza, disse-se de tudo: maria-chuteira, garota de
programa, abusada, oportunista. Acontece que não importa. Não importa se ela foi
garota de programa, se era advogada, modelo, atriz, estudante ou deputada. Ela
está morta. E morreu, aparentemente, porque o pai de seu filho não queria arcar
com as obrigações legais e éticas de tê-la engravidado.
Ela nunca vai poder se defender das acusações póstumas.
Não vai ao "Superpop" defender sua versão ou sua história. Não vai estampar a
capa de "Contigo", acompanhada de frases de impacto entre aspas. Ela está morta,
e o que ela fez ou deixou de fazer, pouco importa agora. E seria prudente,
inclusive, evitar julgá-la pelo crime que a matou.
Mais uma vez, a história se repete. Mulheres são mortas
por homens com quem se envolveram. Assassinos frios, esses homens tiraram a vida
de mulheres confiando na impunidade, porque há quem os "compreenda". A morte de
Eliza e de Mércia parece ter sido calculada e premeditada. E mesmo assim, segue
ecoando a ideia de que a culpa é delas, que elas procuraram, que elas
provocaram.
O espetáculo da morte
Infelizmente, histórias como as de Eliza, Mércia, Eloá,
Maria, Sandra, Ângela e Eliane são muito mais comuns do que se imagina. E antes
de culminar em assassinato, outras formas de violência foram praticadas contra
cada uma delas, como acontece com muitas – as que morrem e as que se
salvam.
A espetacularização promovida pela mídia, no entanto,
faz parecer que são histórias ímpares e distantes do cotidiano da vida real.
Como se o perigo não morasse ao lado, como se muitas não dormissem com o
inimigo. Na sua família, na sua vizinhança, no seu local de trabalho, no seu
círculo de amigos, certamente há casos de violência contra mulheres, e
certamente você ouviu falar de pelo menos um deles. Em recente levantamento, a
ONG Centro pelo Direito à Moradia contra Despejos apontou que uma mulher é
agredida a cada 15 segundos no Brasil, e uma em cada quatro afirma já ter
sofrido violência. Há que se considerar também que existem as que não afirmam –
por medo ou vergonha.
Essas mulheres não são co-autoras de seu assassinato. É
recorrente a trama montada para torná-las rés, para justificar suas mortes nas
ações delas mesmas, para tolerar a violência. "Que sirvam de exemplo", parece
que dizem.
Num mundo em que a desigualdade entre mulheres e homens
se expressa visivelmente desde na divisão das tarefas domésticas até no controle
dos corpos delas pela Igreja ou pelo Estado, passando pela realidade de
violência e pela discriminação no mercado de trabalho ou por serem tratadas como
objetos descartáveis na rua e na TV; ninguém pode dizer que não sabia; nem fazer
piadinhas que celebram os casos. São mulheres de carne e osso, não são
personagens de novela.
São cúmplices dessa violência todos os que a toleram ou
que buscam subterfúgios no comportamento da vítima para declará-la culpada por
sua própria morte. São cúmplices silenciosos, igualmente, aqueles que fingem que
machismo, discriminação e opressão são peças de ficção.