A cor do carnaval. Por Zuggi Almeida
O carnaval é negro em essência.
Sim, a manifestação popular derivada do entrudo trazida por portugueses adquiriu novo significado com a reinterpretação do povo negro expandido os espaços para celebrar o ideal de libertação ainda contido. O carnaval tornou-se coisa de preto, e logo a elite branca migrou para os salões de bailes onde poderia exibir a pompa das festas venezianas e o sentimento colonialista europeu latente, e sem misturas.
Foi o início da estratificação social da festa.
De um lado um povo que assumiu o controle e as formas de organização do evento – registre-se que o carnaval em sua galhofa era fortemente reprimido pela polícia da época; o negro criou como estratégia o formato das organizações denominados cordões carnavalescos.
Os cordões foi o modo encontrado em demonstrar para autoridades que naquele espaço imperava a ordem e o respeito à organização social.
O samba praticado nos quintais passa ocupar o espaço nas ruas. Músicos negros desenvolvem novas harmonias para polca europeia transformando-as em marchinhas carnavalescas levando a alegria negra para animar os salões de festas brancas. A apropriação sutil do capital cultural do negro.
Portanto, a música do carnaval brasileiro continua preta, a dança, a identidade racial, a alegria, a irreverência e a criatividade.
A escola de samba foi o tipo de organização desenvolvido por negros que atestam a existência de criação, gestão e representação na cultura brasileira. Quando as escolas tornam-se produto de captação do turismo e ativo importante despertam-se os interesses do capital econômico no carnaval e a cobiça das elites.
O momento que o carnaval negro cede parte de seu controle para o financiamento vindo de fora das entidades. A entrada do capital econômico desejando usufruir do simbolismo e representatividade das escolas de samba , além das possibilidade de lucros.
São introduzidas as figuras de destaques brancas, rainhas de bateria antes representantes das comunidades sendo substituídas por celebridades. Os bailes carnavalescos em espaços reservados tornam-se insossos e os camarotes na passarela aparecem para manter a seletividade na festa. Nas ruas, a manifestação popular resiste no propósito de manter a identidade e o modo espontâneo.
No comando está a cor branca.
O negro antes protagonista e realizador do espetáculo assume o lugar do coadjuvante.
Esse é um recorte das festas realizadas no Sul-Sudeste. A Bahia não foge a regra, talvez da forma mais perversa possível.
Enquanto no Rio e São Paulo, as comunidades ainda participam como a parte visível dos eventos, em Salvador o povo negro foi relegado aos serviços gerais na festa sendo porteiros, seguranças e cozinheiros nos camarotes, às ruas são ocupadas pelos cordeiros dos blocos e catadores de latinhas.
A delícia do branco e o sofrimento do preto no mesmo carnaval.
Existe uma resistência mantida por afoxés e blocos afros mesmo colocados em segundo plano para investimentos públicos e privados. O capital cultural negro assegurando a sobrevivência de um evento com a possibilidade de movimentar bilhões no mercado, onde os lucros estão destinados a fortalecer o capital econômico (branco) amparado na criatividade e mão-de-obra preta.
Experimentem algo, tipo.
Retirem o preto do carnaval e a festa fica sem cor.
Eu quero é ver!
Zuggi Almeida é baiano e escreve crônicas e contos.
