A Influência dos Ternos de Reis. Por Nelson Varón Cadena
(A mãe de todas as festas populares)
Do alto da minha ignorância cada vez mais reforço o meu sentimento de que os Ternos e Ranchos das Festas de Reis têm importância maior do que imaginamos. O meu instinto me diz que o Carnaval não seria o mesmo e nem as festas populares teriam evoluído numa certa direção se não fosse a influência desses grupos hoje quase extintos, no passado de grande relevância na cidade.
Reafirmo a minha ignorância no sentido de desconhecimento do tema, mas o meu sentimento é que os ternos e ranchos impactaram todas nossas festas populares, no aspecto organizacional, musical, coreográfico e alegórico. E, além disso, alimentaram essa característica bem baiana de torcida: quem não era Terno do Arigofe, era Bacurau. Como no Carnaval, quem não era Cruz Vermelha, era Fantoches; quem não era Internacionais, era Corujas; quem não era Barão, era Jacu … O emocional de um BA-VI.
Os ternos e ranchos, surgem no final do século XIX de grupos de amigos, representavam bairros e alguns deles uma rua específica. Estimulava a confraternização e ao mesmo tempo a disputa com os concorrentes. Ensaiavam três ou quatro meses, músicas e coreografias, o objetivo era surpreender com novidades. Envolvia os melhores talentos de nossa terra: artistas plásticos, marceneiros, carpinteiros, alfaiates e costureiras, dançarinos, coreógrafos, músicos. Amadorismo puro, mas muito profissional na dedicação e no objetivo de fazer melhor do que os outros. Mais de uma centena foi constituída entre 1880 e 1930, auge das agremiações.
O seu propósito inicial, era participar do ciclo de festas de Natal, que tinha início após a Missa do Galo do dia 24 de dezembro e se encerrava em 6 de janeiro. Em nenhum outro lugar do Brasil, o ciclo natalino foi tão marcante e com tamanha diversidade. Aqui não se encerrava no Dia de Reis, tinha seguimento durante todo o mês de janeiro e início de fevereiro, com a apresentação dos grupos nos arrabaldes, animando o veraneio.
Se a Lapinha era a referência e justificativa de sua existência, o veraneio era o ápice. Apresentavam-se nas festas do Bonfim, São Gonçalo e Nossa Senhora da Guia, em Itapagipe; Santo Antônio da Barra, na Barra, Nossa Senhora da Luz, na Pituba, Nossa Senhora dos Mares, em Amaralina, Nossa Senhora da Purificação, em Itapuã e Nossa Senhora de Sant’Ana, matriz geográfica da Festa de Iemanjá, no Rio Vermelho.
O impacto desses grupos sobre as festas se dá, quando recriam temas musicais e coreografias fora do contexto dos bailes pastoris e das cantigas de Reis; na década de 30, o lundu e o samba já eram ritmos praticados e, antes disso, os então chamados ritmos pagodistas. A baliza; o porta-estandarte; os bonecos-fetiches semelhantes aos babalotins dos afoxés; o enredo do desfile; o cordão das pastorinhas, camponesas ou ciganas; a evolução coreográfica do desfile de rua; tudo isso é legado e um dia o Carnaval, o da Bahia e o do Rio de Janeiro, assimilaram essas práticas nos seus desfiles, lá por influência da embaixada baiana, Tia Ciata e Hilário Jovino, dentre outros. As escolas de samba são legítimas herdeiras dos Ranchos de Reis no e na configuração das alas temáticas, não há como negar.
Os ternos e ranchos originais comportavam apenas cinco instrumentos: violas, flautas, pandeiros, cavaquinhos e castanholas. Quando o Terno do Arigofe introduz violinos, banjo, chocalhos, trompetas e o ganzá, na década de 1910, já sinalizava uma revolução musical. De fato, as orquestras do Arigofe e do Bacurau faziam o diferencial desses dois grupos que então estimulavam a rivalidade de torcidas. Em 1949, Otavio Mangabeira, que jovem desfilara no Arigofe, quis reviver a tradição. Era tarde. Valeu, em todo caso, a iniciativa. Por um momento pareceu a retomada de uma manifestação cultural, hoje ainda viva graças a poucos abnegados que aprenderam o significado da palavra resistência. (Nelson Cadena)
De minha autoria, publicado originalmente no Jornal Correio em 12 de setembro de 2014
Foto: desfile de Terno de Reis na Praça da Sé, em 1970. Arquivo de A Tarde.

