Aldeia Nagô
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A Janela dos Outros por- Martha Medeiros

2 - 3 minutos de leituraModo Leitura

Gosto dos livros de ficção do
psiquiatra Irvin Yalom (Quando Nietzsche Chorou, A Cura de Schopenhauer) e por
isso acabei comprando também seu Os Desafios da Terapia, em que ele discute
alguns relacionamentos padrões entre terapeuta e paciente, dando exemplos reais.
Eu devo ter sido psicanalista em outra encarnação, tanto o assunto me fascina.


Ainda no início do livro, ele conta a história de uma paciente que tinha um
relacionamento difícil com o pai. Quase nunca conversavam, mas surgiu a
oportunidade de viajarem juntos de carro e ela imaginou que seria um bom momento
para se aproximarem. Durante o trajeto, o pai, que estava na direção, comentou
sobre a sujeira e degradação de um córrego que acompanhava a estrada. A garota
olhou para o córrego a seu lado e viu águas límpidas, um cenário de Walt Disney.
E teve a certeza de que ela e o pai realmente não tinham a mesma visão da vida.
Seguiram a viagem sem trocar mais palavra.

Muitos anos depois, esta
mulher fez a mesma viagem, pela mesma estrada, desta vez com uma amiga. Estando
agora ao volante, ela surpreendeu-se: do lado esquerdo, o córrego era realmente
feio e poluído, como seu pai havia descrito, ao contrário do belo córrego que
ficava do lado direito da pista. E uma tristeza profunda se abateu sobre ela por
não ter levado em consideração o então comentário de seu pai, que a esta altura
já havia falecido.

Parece uma parábola, mas acontece todo dia: a gente
só tem olhos para o que mostra a nossa janela, nunca a janela do outro. O que a
gente vê é o que vale, não importa que alguém bem perto esteja vendo algo
diferente.

A mesma estrada, para uns, é infinita, e para outros, curta.
Para uns, o pedágio sai caro; para outros, não pesa no bolso. Boa parte dos
brasileiros acredita que o país está melhorando, enquanto que a outra perdeu
totalmente a esperança. Alguns celebram a tecnologia como um fator evolutivo da
sociedade, outros lamentam que as relações humanas estejam tão frias. Uns
enxergam nossa cultura estagnada, outros aplaudem a crescente diversidade. Cada
um gruda o nariz na sua janela, na sua própria paisagem.

Eu costumo dar
uma espiada no ângulo de visão do vizinho. Me deixa menos enclausurada nos meus
próprios pontos de vista, mas, em contrapartida, me tira a certeza de tudo.
Dependendo de onde se esteja posicionado, a razão pode estar do nosso lado, mas
a perderemos assim que trocarmos de lugar. Só possuindo uma visão de 360 graus
para nos declararmos sábios. E a sabedoria recomenda que falemos menos, que
batamos menos o martelo e que sejamos menos enfáticos, pois todos estão certos e
todos estão errados em algum aspecto da análise. É o triunfo da dúvida.

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