A música do carnaval. Por Jorge Papapá
O Carnaval é o território da explosão. É quando o Brasil vira tambor, suor e serpentina. A rua se transforma em palco e o povo em coro. Mas, no meio da euforia coletiva, existe um rito que deveria ser mais sagrado do que é tratado: a escolha da música do Carnaval.
Hoje, esse processo se rende ao barulho das redes, ao peso dos fã-clubes organizados, ao poder da mobilização digital. Vence quem grita mais alto. Vence quem tem mais dedos apertando o botão de votação. Vence quem domina o algoritmo — não necessariamente quem compôs melhor, escreveu melhor ou ousou mais.
E assim acontece o paradoxo cruel: muitas vezes, a música eleita como “a melhor do Carnaval” é apenas a mais popular naquele instante, não a mais inventiva, não a mais sofisticada, não a mais duradoura. Popularidade não é sinônimo de qualidade. Engajamento não é critério estético.
A arte, quando reduzida a disputa de torcida organizada, perde densidade. A canção carnavalesca tem história, tem tradição, tem técnica. Não nasceu para ser um número de curtidas, mas para ser uma construção estética: letra consistente, melodia criativa, harmonia coerente, arranjo inteligente, mensagem que dialogue com seu tempo — ou que ao menos sobreviva a ele.
Não se trata de desprezar o público. O público é soberano na emoção, na festa, no canto coletivo. Mas escolher tecnicamente a melhor composição exige escuta qualificada. Exige músicos, compositores, críticos, arranjadores, pesquisadores da cultura popular. Exige critérios claros: poesia, originalidade, estrutura musical, impacto cultural, permanência histórica.
Mas o problema não termina na votação da música. Ele ecoa também no modelo de desfile dos trios elétricos. Criou-se uma espécie de hierarquia fixa, quase hereditária, de posições. Há artistas que já sabem, ano após ano, o horário e o lugar que ocuparão. O Carnaval, que nasceu da improvisação e da rua democrática, vai se transformando numa grade engessada.
Esse negócio de lugar marcado deveria ser abolido.
A ordem dos desfiles deveria ser definida por sorteio a cada ano. Quem foi o último no ano anterior teria a chance de abrir a festa no ano seguinte. Quem abriu poderia encerrar. Um rodízio transparente, público, democrático. Um gesto simples que devolveria ao Carnaval o espírito da surpresa e da igualdade de condições.
Porque quando a ordem é sempre previsível, cria-se vantagem estrutural: horário nobre, maior público, maior visibilidade, maior chance de repercussão — e, consequentemente, mais votos. O sistema se retroalimenta. Quem já está na frente continua na frente.
O Carnaval não pode funcionar como condomínio fechado da folia.
Ele nasceu da rua. Do improviso. Do encontro inesperado. Da mistura.
Se queremos uma escolha justa da música do Carnaval, precisamos também de um modelo justo de desfile. Critérios técnicos para avaliar a canção. Sorteio para definir a ordem dos trios. Transparência no processo. Igualdade de oportunidade.
Não para apagar a festa — mas para protegê-la.
Porque o verdadeiro Carnaval não é o da planilha, nem o do fã-clube organizado. É o da criação viva. É o da arte que surpreende. É da canção que atravessa o ano e volta a ser cantada quando o confete já virou pó.
E talvez só quando devolvermos justiça ao processo — tanto na escolha da música quanto na ordem do desfile — possamos dizer que a quarta-feira de cinzas não enterrou, mais uma vez, a melhor canção da festa.
Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

