A palavra e o abismo. Por Jorge Papapá
Houve um tempo em que a loucura era um abismo.
Não metáfora. Não estilo. Abismo mesmo.
Ela não tinha charme, não tinha camiseta estampada, não virava legenda de fotografia. Loucura era queda. Era sumiço. Era o nome que se dava quando alguém atravessava uma linha invisível e não voltava mais igual.
Eu era menino quando vi isso acontecer.
No Alto do Pará, um amigo amanheceu diferente. Não foi uma mudança suave, dessas que a gente explica com cansaço ou tristeza. Foi um deslocamento. Como se ele tivesse saído do eixo da Terra durante a noite.
Pisava na lama com uma espécie de convicção sagrada. Não respondia quando chamavam. O olhar não pousava em ninguém. Estava inteiro em outro lugar.
E nós ficamos aqui.
O bairro inteiro assistindo. Parados. Não era só curiosidade — era um medo antigo, quase instintivo. Porque quando alguém enlouquece, ele não vai sozinho: ele leva embora a nossa segurança de que o mundo é estável.
Naquele tempo, ninguém queria ficar louco. Loucura era expulsão. Era deixar de ser sujeito para virar problema. A solução era o muro alto, o portão fechado, o hospital distante. O que não se compreendia, afastava-se.
Depois, a palavra começou a mudar.
“Maluco” virou saudação. Virou afeto. Virou identidade. Ser maluco passou a significar liberdade, criatividade, autenticidade. Quem não era maluco era careta. A normalidade começou a parecer suspeita.
Mas sempre me perguntei: o que foi que mudou de verdade? A experiência — ou a palavra?
Talvez tenhamos aprendido a admirar a diferença quando ela é produtiva. Quando cria arte, quando gera inovação, quando dá lucro, quando encanta. A loucura que cabe na vitrine virou genialidade. A que não cabe continua sendo silêncio.
Hoje não temos mais os mesmos muros visíveis. Falamos em cuidado, em inclusão, em escuta. E isso é avanço — inegável. Mas o desconforto ainda existe. Ele só ficou mais elegante.
Ainda não sabemos o que fazer quando alguém pisa na lama sem perceber o chão.
Ainda não sabemos como olhar para quem está realmente fora do compasso sem tentar, imediatamente, consertar o ritmo.
Às vezes penso naquele amigo. Não sei que mundo ele via. Não sei se era dor, se era excesso, se era ruptura ou revelação. Só sei que nós ficamos do lado de cá, assustados.
Talvez a verdadeira linha entre sanidade e loucura nunca tenha sido médica. Talvez seja social. Uma linha desenhada pelo consenso. Uma cerca invisível que decide quem pertence e quem ameaça a ordem.
O tempo muda as palavras.
Mas o abismo continua lá.
Só que agora a gente o chama de estilo.
Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

