Aldeia Nagô
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A Perversidade da Desigualdade Estrutural: Quando a Política Social Reproduz Injustiças.

3 - 4 minutos de leituraModo Leitura

O Brasil é historicamente marcado por profundas assimetrias sociais, um cenário que não se limita à esfera econômica, mas se entranha nas instituições, nas relações de poder e, sobretudo, na cultura política. A eleição de governos com retórica progressista e compromissos socialistas surge, em tese, como uma resposta a essa realidade, prometendo inverter prioridades e reorientar o Estado para a redução das desigualdades. No entanto, uma análise mais atenta revela uma triste e recorrente contradição: muitas vezes, mesmo sob nova gestão, as estruturas públicas continuam a servir aos mesmos grupos, privilegiando os mesmos lugares e reproduzindo lógicas excludentes. Esse fenômeno não é um mero desvio de rota, mas a manifestação de uma cultura enraizada do “primeiro o meu”, que transforma políticas sociais em instrumentos de perpetuação de privilégios, configurando um cenário ao mesmo tempo lamentável e imoral.

A persistência dessa dinâmica pode ser observada na distribuição de recursos e na execução de políticas setoriais, como nas secretarias de Turismo e Cultura. Em tese, essas pastas deveriam funcionar como agentes de democratização do acesso, valorização de identidades marginalizadas e desenvolvimento territorial inclusivo. Na prática, não raro, suas emendas e programas seguem uma “cartilha” invisível que direciona investimentos para circuitos já consolidados, projetos de elite e grupos com maior capital político ou influência. O resultado é que os recursos públicos, que deveriam corrigir assimetrias, acabam por concentrar-se em mãos já favorecidas, reforçando o acesso de uma minoria a bens culturais, infraestrutura turística e visibilidade. A periferia, a zona rural, as comunidades tradicionais e os artistas independentes permanecem à margem, aguardando uma inclusão que se promete, mas não se concretiza de forma estrutural.

Essa distorção é alimentada por uma cultura política patrimonialista, que confunde o interesse público com o privado e transforma o Estado em moeda de troca para a manutenção de redes de apoio e lealdades. O “primeiro o meu” não é apenas um vício individual, mas uma lógica sistêmica que atravessa partidos e ideologias. Em contextos onde a governabilidade depende de alianças fisiológicas, mesmo gestores bem-intencionados podem se ver capturados por práticas que privilegiam aliados em detrimento do critério técnico e da justiça social. Assim, a máquina pública, em vez de ser um instrumento de transformação, torna-se um palco onde velhas desigualdades se reciclam, agora legitimadas por um discurso de mudança.

As consequências dessa imoralidade institucionalizada são graves. Ela gera descrença na política, esvazia o sentido da participação popular e aprofunda o cinismo social. Quando a população percebe que os recursos continuam a fluir para os “de sempre”, mesmo sob governos que se dizem representantes dos excluídos, instala-se um sentimento de traição e impotência. A desigualdade, então, deixa de ser apenas econômica para se tornar também política e simbólica: uma negação do direito de ser visto, ouvido e incluído.

Reverter esse quadro exige mais do que alternância no poder; requer uma ruptura com as práticas que o sustentam. É fundamental institucionalizar mecanismos transparentes de gestão, com critérios públicos e participativos para a alocação de recursos, fortalecendo o controle social por meio de conselhos, audiências públicas e plataformas abertas de monitoramento. Além disso, é preciso valorizar a atuação de movimentos sociais e coletivos como fiscais e propositores das políticas, garantindo que as vozes dos verdadeiramente marginalizados orientem as decisões. Só assim será possível desmontar a lógica do “primeiro o meu” e construir um Estado que não apenas fale em nome da justiça, mas a pratique em cada ato, em cada emenda, em cada política pública.

Portanto, a desigualdade brasileira não será superada enquanto a cultura do favor e do privilégio continuar a ditar os rumos da administração pública, mesmo sob novas roupagens ideológicas. Transformar essa realidade é um imperativo ético e político: só uma gestão radicalmente democrática, transparente e comprometida com a redistribuição efetiva do poder e dos recursos poderá honrar a promessa de um país verdadeiramente justo e inclusivo. A imoralidade do presente não pode ser o legado do futuro.

Auêto Sambangola!

Walmir França Kitekuê é fazedor cultural e Tata de Caiango

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