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A república dos sacis. Por Marcelo Veras

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Marcelo Veras

Sempre achei curiosas as tradições de ano novo. Entrar com o pé direito, pular sete ondinhas, comer lentilha, usar calcinha amarela. Pequenos rituais para domesticar o futuro. O curioso é que agora ganharam cor ideológica.

Sete ondinhas, por exemplo. Sete remete perigosamente ao sete de setembro. Talvez seja melhor pular treze, número mais afeito à esquerda — ainda assim, há o risco de se acusar o mar de militância. O réveillon promete. Comer romã? Vermelha demais. Bacalhau? Símbolo explícito da colonização portuguesa.

Agora é o pé. Direito ou esquerdo. Nada mais concreto. Nada mais literal.
Antes se dizia: minha bandeira jamais será vermelha.

Hoje: meu pé jamais será o esquerdo. Confesso: vou sair do armário. Sou canhoto. Nos anos sessenta, uma professora tentou me corrigir à força. Por sorte, no teclado uso as duas mãos e consigo esconder melhor essa condição.

Imagino a cena à meia-noite. Uns entram com o pé direito, outros vigiam atentos, prontos para denunciar qualquer apoio indevido. Um réveillon manco, uma verdadeira república dos sacis, cada qual convencido de que amputar simbolicamente um lado do corpo é prova de lucidez.

O que mais gosto quando estudo a paranoia é perceber como ela se manifesta em pequenos detalhes. Lembro de uma paciente, quando eu ainda era um jovem psiquiatra, que se apaixonou por mim porque, ao me despedir dela com a chave na mão, eu teria simulado um casal fazendo sexo sobre um colchão de molas. Nada foi dito. Nada foi feito. Mas o detalhe bastou.

É assim que funciona. O delírio dispensa grandes teorias. Alimenta-se de gestos mínimos, símbolos deslocados, pés, carnes, frutas e ondas do mar.

Lacan dizia que não pensava com a cabeça, mas com os pés. Talvez advertisse: quando o pensamento perde o chão, qualquer passo vira prova, qualquer apoio vira crime, qualquer sandália vira manifesto.

No fim, resta torcer para que, apesar de tudo, o ano novo ainda permita algo simples: apoiar os dois pés no chão na hora de votar.

Marcelo Veras é Psicanalista

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