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Jesus, guerras infindáveis e a ascensão do fascismo estadunidense. Por Chris Hedges
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Dando o que Falar
Ter, 10 de Maio de 2022 06:36

chris-hedgesO Partido Democrata dos EUA – que teve 50 anos para legislar o processo Roe vs Wade[legalização do aborto nos EUA] com Jimmi Carter, Bill Clinton e Barak Obama em pleno controle da Casa Branca e do Congresso dos EUA no início das suas presidências  - está bancando a sua estratégia eleitoral ao redor da esperada decisão da Suprema Corte dos EUA de suspender a proibição judicial da competência dos estados de decretar leis que restrinjam ou proíbam os abortos.

A hipocrisia e a duplicidade do Partido Democrata é o fertilizante para o fascismo cristão. O seu foco exclusivo nas guerras culturais e políticas de identidades ao custo da justiça econômica, política e social alimentou uma repercussão e excitou a intolerância, o racismo e sexismo que eles procuram cercear. A opção dos Democratas por imagem em lugar de substância, incluindo o seu repetido fracasso em assegurar o direito ao aborto, os tornou inconfiáveis e insultáveis.

O governo Biden convidou o presidente da União dos Trabalhadores da Amazon (Amazon Labor Union) Christian Smalls e sindicalistas do Starbucks e outras organizações para irem à Casa Branca, ao mesmo tempo que re-premiaram os furadores de greve da Amazon e a Agência de Segurança Nacional (NSA – National Security Agency) com um contrato de US$ 10 bilhões pelos serviços de nuvens cibernéticas (cloud computing). O contrato da NSA é um dos 26 contratos federais para nuvens cibernéticas que a Amazon tem com o exército e a força aérea dos EUA, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos, o Departamento de Segurança da Pátria (Homeland Security), o Departamento do Interior e o Bureau de Censos Populacionais. A retenção da aprovação dos contratos federais até que a empresa Amazon permitisse a livre e aberta organização do sindicato seria uma posição poderosa à favor dos trabalhadores - - os quais ainda estão aguardando pelo salário mínimo de US$ 15/hora que Biden prometeu como candidato. Porém, por detrás das paredes da aldeia Potemkin do Partido Democrata está a classe dos bilionários. Os Democratas falharam em tratar das injustiças estruturais que transformaram os EUA em um estado oligárquico, no qual os obscenamente ricos disputam por brinquedos multibilionários como galinhas numa caixa de areia. Quanto mais tempo este teatro político continue, piores as coisas ficarão.

Os fascistas cristãos aderiram como em um culto em torno de Donald Trump. Eles são bancados financeiramente pelas forças mais retrógradas do capitalismo. Os capitalistas permitem as imbecilidades dos fascistas cristãos e das suas guerras sociais e culturais autodestrutivas. Em troca disso, a classe bilionária goza de monopólios corporativos, destruição de sindicatos, a privatização do estado e dos serviços municipais – incluindo a educação pública – a revogação de regulações governamentais, principalmente a regulação do meio-ambiente, e podem engajar-se num boicote virtual aos impostos.

A indústria da guerra ama os fascistas cristãos – os quais, em troca, transformam todos os conflitos, do Iraque à Ucrânia, numa cruzada sagrada para esmagar a mais recente iteração de Satã. Os fascistas cristãos acreditam no poder militar e nas virtudes “de macho” que vêm com este sejam abençoadas por Deus, por Jesus e pela Virgem Maria. Nenhum orçamento militar é grande demais para eles. Nenhuma guerra executada pelos EUA é maléfica.

Estes fascistas cristãos talvez constituam 30% do eleitorado, aproximadamente o equivalente à porcentagem de estadunidenses que acreditam que o aborto é um assassinato. Eles são organizados, comprometidos com uma visão, por mais perversa que seja, e nadam em dinheiro. A Corte Suprema dos EUA é controlada por ideólogos da Sociedade Federalista que carregam a bandeira do fascismo cristão – como os medíocres juízes John Roberts, Samuel Alito, Amy Coney Barret, Clarence Thomas, Neil Gorsuch e Bret Kavanaugh.

Republicanos e Democratas do 'establishment' – como George Armstrong Custer fez no 'Last Stand Hill' [a 'Colina da Última Posição' na luta contra os nativos nos EUA] - fizeram um círculo de carroças em torno do Partido Democrata numa aposta desesperada par impedir que Trump, ou um mini-Trump retorne à Casa Branca. Eles e os seus aliados no Vale do Silício estão usando algoritmos e a desplataformização aberta para censurar críticos da esquerda e da direita, tolamente transformando em mártires figuras como Trump, Alex Jones e Marjorie Taylor Greene.

As classes dominantes de ambos os partidos [Republicanos e Democratas] contaram mentiras sobre o NAFTA, os acordos comerciais, a “reforma” da segurança social, a abolição das regulações financeiras, a austeridade, a guerra no Iraque e o neoliberalismo que fizeram muito mais mal ao público estadunidense do que qualquer mentira contada por Trump. A gosma reptiliana escorre de cada poro destes políticos – de Nancy Pelosi e Chuck Schumer, até Biden – que apoiaram o 'Hyde Amendment' [emenda constitucional de Hyde] de 1976 que proibiu o custeio federal de abortos e, em 1982, votaram à favor da emenda constitucional que permitiria aos estados de cancelar Roe vs Wade [a lei federal que permite o aborto legal]. A hipocrisia deles não passa desapercebida pelo público, mesmo com os seus exércitos de consultores, pesquisadores de opinião pública, cortesãos da imprensa, equipes de relações públicas e agências de publicidade.

Marjorie Taylor Greene é ignorante e desequilibrada. Ela alega que Hillary Clinton estava envolvida numa quadrilha de mutilações de crianças e de pedofilia e de diversos tiroteios de alto perfil teatralizados em escolas. Porém, como Trump, quando armada, ela é um míssil político mirado ao coração dos desacreditados centros do poder tradicional.

O ódio é o combustível da política estadunidense. Ninguém vota para quem quer. Eles votam contra aqueles que eles odeiam. As comunidades marginais negras e marrons sofreram ataques piores que a classe trabalhadora branca, porém eles foram politicamente desfigurados pelas polícias militarizadas que funcionam como exércitos internos de ocupação. A erosão do estado de direito, o maior sistema de prisões do mundo e a retirada de todos os direitos – muitas vezes incluindo os direitos de votar, devido a condenações por crimes – bem como a perda de acesso à maior parte dos serviços sociais e de empregos, os reduziram ao nível de subsistência na faixa mais baixa do sistema de castas dos EUA. Eles também são os alvos primários da supressão de eleitores e as mudanças de distritos patrocinadas pelos Republicanos.

A cola que mantém este fascismo cristianizado junto não a a reza, apesar de temos muito disso, porém é a guerra. A guerra é a razão de viver (raison d'être) de todos os sistemas totalitários. A guerra justifica a busca por inimigos internos; ela é usada para revogar as liberdades civis básicas e impor a censura. A guerra demoniza aqueles que vivem no Oriente Médio, na Rússia ou na China – que são culpados pelos desastres econômicos e sociais que pioram inevitavelmente. A guerra desvia a ira gerada por um estado disfuncional contra imigrantes, pessoas de cor, feministas, liberais, artistas e qualquer um que não se identifique como heterossexual, contra a imprensa, o movimento antifascista, os judeus, os muçulmanos, os russos ou os asiáticos. Escolha o seu preferido. Este é um smorgasbord [refeição misturada] dos intolerantes. Cada item do cardápio é válido.

Eu passei dois anos com a direita cristã, reportando e pesquisando para o meu livro 'American Fascists: The Christian Right and the War on America' (https://www.simonandschuster.com/books/American-Fascists/Chris-Hedges/9780743284462) ['Fascistas estadunidenses: a direita cristã e a guerra contra os EUA']. Estes fascistas cristãos jamais esconderam a sua pauta e o seu desejo de criar uma nação “cristã”, muito menos que Adolf Hitler escondeu a sua visão demente para a Alemanha no seu livro 'Mein Kampf'. Assim como todos os fascistas, eles rezam sobre as aflições dos seus seguidores. Eles pintam retratos macabros do final dos tempos quando a ansiada eliminação dos não-crentes pressagie o glorioso retorno de Jesus Cristo. Eles acreditam que e batalha de Armageddon será lançada do quartel-general mundial do Anticristo na Babilônia, quando os judeus tiverem novamente o controle de Israel. Quanto mais perto chegarmos de Armageddon, mais extasiados eles ficam.

Estas pessoas acreditam nestas coisas, assim como acreditam em Qanon e na suposta fraude eleitoral que colocou Biden no governo. Eles estão convencidos que uma demoníaca ideologia secular-humanista propagada pelas mídias, pelas Nações Unidas, pelas universidades de elite, pela União pela Liberdades Civis dos EUA (American Civil Liberties Union), pela Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor (NAACP – National Association for the Advancement of Colored People), a Organização Nacional da Mulheres (National Organization for Women), o serviço de planejamento familiar (Planned Parenthood), a Comissão Trilateral, junto com o Departamento de Estado dos EUA a as principais fundações estão procurando destruí-los.

A violência é adotada como um agente de limpeza, um componente-chave de qualquer movimento fascista. Os fascistas cristãos não temem a guerra nuclear. Eles dão as boas-vindas a ela. As provocações insanas do governo Biden contra a Rússia – incluindo a decisão de fornecer US$ 33 bilhões em assistência à Ucrânia – têm como alvo dez generais russos a serem assassinados e a transferência de inteligência à Ucrânia para afundar o cruzador de mísseis russo Moskva, que era o navio de comando da esquadra russa no Mar Negro – superalimentam a ideologia da direita cristã. O casamento da indústria de guerra – decidida a fazer guerra para sempre – com os fascistas cristãos ansiosos pelo apocalipse é aterrorizante. Biden está nos sonambulando para uma guerra com a Rússia e, quem sabe, com a China. Os fascistas cristãos acelerarão a sede de sangue.

As deformidades políticas que nós [os EUA] geramos não são únicas. Elas são o produto de uma sociedade e de um governo que não funcionam mais à favor da cidadania, um governo que foi tomado por um conluio diminuto – corporativo, no nosso caso – para servir aos seus interesses. As grandiosas promessas feitas por políticos – incluindo o anúncio feito pela candidato Barak Obama de que a primeira coisa que ele faria no cargo seria assinar o 'Freedom of Choice Act' (https://www.buzzfeednews.com/article/andrewkaczynski/obama-promised-to-sign-the-freedom-of-choice-act-o) [Ato de Liberdade de Escolha], o que ele jamais fez nos seus oito anos como presidente – são sem valor. A votação programada para a próxima semana no Senado Federal dos EUA de um projeto de lei afirmando que os abortos são legais nos EUA – que se prevê seja bloqueado pelo uso da obstrução pelos Republicanos, devido a uma regra de procedimento do Senado que requer 60 votos para fazer passar a maior parte das leis na câmara de 100 membros, é outro gesto vazio.

Vimos as consequências desta disfunção na República de Weimar na Alemanha e na Iugoslávia – um conflito que eu cobri para o The New York Times. A estagnação política e a miséria econômica geram a ira, o desespero e o cinismo. Ela faz surgir demagogos, charlatães e burlões. O ódio domina o discurso político. A violência é a forma primária de comunicação. A vingança é o bem maior. A guerra é a ocupação principal do estado. São os vulneráveis e os fracos que pagam.

Chris Hedges

Jornalista vencedor do Pulitzer Prize (maior prêmio do jornalismo nos EUA), foi correspondente estrangeiro do New York Times, trabalhou para o The Dallas Morning News, The Christian Science Monitor e NPR.

Artigo publicado no The Chris Hedges Report, traduzido e adaptado Por Rubens Turkienicz com exclusividade para o Brasil 247. Jesus, guerras infindáveis e a ascensão do fascismo estadunidense - Chris Hedges - Brasil 247

 

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