As pulseiras do sexo por Contardo Calligaris
Baratinhas. E divertidas, pulseiras de silicone de todas as cores foram populares nos anos 1980. Recentemente, entraram, de novo, no gosto das meninas.
Duas
semanas atrás, aprendi, pela imprensa, que essas pulseiras, vendidas
pelos
camelôs país afora, tinham-se transformado num código sexual, no qual
cada cor
anuncia uma disposição de quem a veste. Por exemplo, uma pulseira azul
assinala
a vontade de praticar sexo oral, uma preta anuncia o desejo de ter uma
relação
sexual completa. Esse código vale no jogo do "snap" (arrebenta), cuja
regra é
que, em tese, mesmo um desconhecido, se ele conseguir arrebentar a
pulseira de
uma menina (nenhum esforço: o silicone é frágil), ganhará a prestação
sexual
anunciada pela cor do enfeite.
Como
disse, soube disso duas semanas atrás. Ignorância minha: é fácil
encontrar, na
internet, artigos de 2009 sobre escolas médias norte-americanas que
interditaram
o uso das pulseiras de silicone por causa de sua significação
sexual.
Como
começou? Talvez com a brincadeira de um grupo de amigas fantasiando
entre si no
Messenger e, logo, abrindo o jogo para desafiar a timidez dos meninos.
Ou pode
ter sido a invenção de meninos frustrados, que brincaram de interpretar
as
pulseiras de suas colegas como mensagens sexuais que eles gostariam de
receber.
Seja como for, em poucos meses, o código das pulseiras se espalhou,
mundo
afora.
Certamente, muitas meninas usam esses acessórios só porque os
acham
bonitos. Mas há meninas usando as pulseiras por causa do código sexual.
Nesse
caso, o que são as pulseiras do sexo? Uma provocação de adolescentes
inseguras?
Ou será que elas expressam um desejo? Bom, mesmo uma provocação
manifesta um
desejo. Qual?
Nos
anos 1970, na comunidade gay de São Francisco e de Nova York, começou o
uso do
código dos lenços no bolso traseiro das calças jeans: as cores
correspondiam ao
tipo de relação desejada, e o bolso escolhido dizia se o homem queria
mandar ou
ser mandado (esquerdo para os "tops", direito para os
"bottoms").
A
intenção do jogo não era facilitar os encontros (nas ruas do Castro ou
do
Village, esse problema não existia). Tampouco o uso de um lenço
significava que
o usuário, encontrando um "encaixe", transaria necessariamente. Então?
Era fácil
constatar que os lenços serviam para erotizar o cotidiano, para
transformar
qualquer passeio "inocente" à padaria da esquina numa possível fantasia
erótica.
Coisa
de homens, ainda por cima gays, obcecados por sexo? Pois bem, uma das
obras-primas da literatura erótica do século XX (que, aliás, é,
sobretudo,
feminina) é "História
de O", de Pauline
Réage (Ediouro, esgotado). No romance, a heroína aceita usar
um
anel que a torna reconhecível pelos membros de um clube, que são poucos e
perdidos pelo vasto mundo, mas que, ao identificá-la, sabe-se lá quando e
onde,
terão o direito imediato de possui-la.
É
desta mesma fantasia que se trata no uso das pulseiras do sexo: a
fantasia de
tornar erótica a trivialidade do cotidiano, cuja massa um pouco cinza,
de
improviso, poderia ser atravessada por relâmpagos de desejo. No fundo,
as
adolescentes que brincam com as pulseiras do sexo estão fantasiando com
sua
própria disponibilidade para a aventura da vida. E é por isso mesmo que
elas
encontram o ódio de quem não vive.
Nas
últimas semanas, em Manaus (AM),
três
jovens que usavam as pulseiras foram estupradas, duas delas foram
mortas.
Em Londrina (PR),
uma
menina de 13 anos, que também usava as pulseiras, foi estuprada. Não se
sabe por
certo se as meninas e seus agressores conheciam o código das pulseiras.
Nessas e
em outras cidades, a prefeitura proibiu o uso das pulseiras nas escolas.
Concordo com essa decisão preventiva, mas é espantoso que nossa
sociedade seja
incapaz de garantir às meninas a liberdade de andar pela rua com a
alegria de
quem fantasia desejar de corpo aberto.
Os
estupradores e assassinos foram "provocados"? Será que as pulseiras,
como os
decotes e as saias curtas, suscitariam uma atração irresistível e,
portanto,
violenta?
Vamos
parar de acusar as mulheres por elas serem estupradas. O estuprador
nunca é
atraído por suas vítimas; ele só tem o impulso irresistível de acabar
com o
desejo delas. Por quê? Por raiva de ele não estar, por exemplo, à altura
do
mundo com o qual fantasiam as meninas com suas pulseiras: um mundo que
seja o
teatro possível de mil aventuras (sexuais ou não).
O
autor é psicanalista,
Artigo
publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo,
15-04-2010.