Aldeia Nagô
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As tragédias da mídia Por Fernando Branquinho

5 - 6 minutos de leituraModo Leitura

Deixei a TV ligada na segunda-feira
(1/6) o dia todo para acompanhar o sumiço do vôo 447 da Air France, alternando
Globonews, CNN, TV5Monde, Bandnews e Recordnews.


Na falta de novidades, qualquer
coisa servia para mostrar atualização. Numa delas, depois de repetir a vinheta
por horas, acrescentaram o prefixo da aeronave como relevante. Por volta do
meio-dia, ouvi de relance, na TV francesa, falarem em 60 brasileiros. Às 3 da
tarde a TV Globo mostrou o relações públicas da Air France no Brasil falando em
percentuais de nacionalidades, cabendo aos canais de mídia fazerem as contas
chegando a cerca de 80 brasileiros. Depois, o número passou a oscilar entre 57 e
58 dependendo da fonte (ANAC e Air France).

Ainda
falando em cálculo, na CNN leram a nota da Aeronáutica brasileira e os
comentaristas aparentavam bater cabeças com fusos horários. Já no Brasil
Urgente
, de José Luiz Datena, na Band, a coisa estava risível. Em poucos
minutos, vi passarem imagens de um grande aeroporto ao fundo, enquanto o
apresentador falava que eram imagens do aeroporto de Fernando de Noronha.
Depois, perceberam a mancada e ele retificou. Depois falou que havia caças na
busca aos destroços, e que o tempo que levariam de Natal a Noronha era
praticamente nenhum, porque eram supersônicos. Acho que confundiu com a nave de
Startrek, que chega à velocidade da luz.

Logo em
seguida um repórter retificou que, na verdade, não havia aviões caças na busca.
Depois que o Datena disse que o avião da Air France estava voando a 11 mil km de
altitude, mudei de canal, porque ele devia estar falando de um vôo espacial, já
que a Estação Espacial Internacional orbita a 360 km de altitude. Confundiu
metros com quilômetros.

Normas
brasileiras

A mídia convocou para
entrevistas pilotos, peritos e engenheiros, que davam as informações com as
devidas ressalvas dada a falta de dados, mas depois, na boca dos repórteres,
viravam "verdades" fora de contexto. A idéia do raio ter causado a pane elétrica
e a queda, apesar de muito remota pela redundância dos sistemas e pelo efeito de
Gaiola de Faraday (que
tem campo elétrico nulo no seu interior e cargas uniformemente distribuídas no
exterior, blindando a parte interna de choques ao ser energizada), foi colocada
pelos especialistas como quase impossível, mas povoou, com ilustrações e filmes,
os noticiários quase como uma explicação final.

Estranhamente, uma hipótese de explosão por bomba ou qualquer
outra causa, foi rechaçada categoricamente pela mídia brasileira, mas vem sendo
levantada na
França
. Ninguém fala nisso por aqui. Seria uma dessas possibilidades que
fazem um sistema automático disparar alertas, mas impedem os pilotos de fazerem
procedimentos de emergência ou comunicarem o problema. Essa possibilidade
eximiria de responsabilidades dois ícones do capitalismo francês, a Air France e
a Airbus, fabricante do avião.

Do outro lado do
Atlântico, o jornal americano Washington Post tem uma matéria onde se
pergunta: "Como pode um
jato tão moderno simplesmente desaparecer?
" Claro que isso não deve ter
muito a ver com o fato de as concorrentes da Airbus – Boeing e Douglas – serem
americanas.

A imagem da Air France ficou
positiva na assistência aos parentes, tirando-os da exposição pública no momento
de dor, mas deixou a mídia sem as imagens fortes de choros e revoltas vistas na
época do "caos aéreo". E também não permitiu a exploração política – afinal, não
havia ninguém esculachando as autoridades brasileiras. Foi aí que vi na
Globonews a entrevista de um professor descendo a ripa na Agência Nacional de
Aviação Civil (ANAC), porque não apareceu no episódio, porque estaria omissa,
porque nenhum titular apareceu para dar declarações, que não tinha lista dos
passageiros até aquela hora etc.

Segundo a
imprensa, as autoridades estavam cumprindo normas brasileiras, que exigem o
contato com todas as famílias antes da divulgação. Esse vôo era uma Babel: 31
nacionalidades presentes. Devem estar até agora procurando
contatos.

Idéia
subliminar

No fim da tarde, a
Globonews mostrou Lula em El Salvador. Estranhei a insistência na abordagem.
Lula disse o que era cabível: falou com Sarkozy, que também não sabia o que
dizer, que acreditava em Deus e que até o fim esperaria uma boa notícia, que
estava solidário com a dor das famílias etc. Isso em poucos segundos. Aí o
assunto acabou, e os repórteres pareciam querer mais. E Lula repetia. E a
matéria não acabava. Então alguém perguntou se ele decretaria luto. Ele disse
que a decretação legalmente competia ao vice, José Alencar, que estava em
exercício na presidência no Brasil, e que já estava fazendo de tudo para as
buscas, que o representaria junto às famílias etc. Ficou a sensação que
esperavam ouvir dele que abandonaria toda a missão na América Central e voltaria
para ver as famílias.

A idéia de mostrar Lula
como omisso progrediu nas empresas Globo. O jornal O Globo de terça-feira
(2/6) mostra a seguinte manchete na sua capa : "Sarkozy vai e Lula manda vice".
O texto esclarece o assunto, mas quem lê apenas o título fica com a impressão de
pouco-caso do presidente, porque o da França foi lá consolar as famílias, e o do
Brasil… mandou o vice.

No caderno especial,
página 9, outra manchete, esta em destaque: "Sarkozy consola parentes; Lula
estava longe". Novamente a indução: Lula estava longe, ou seja, não se envolveu,
é a idéia subliminar. A "desumanidade" do presidente fica explicitada, na mesma
página, ao se destacar uma mensagem da coluna "O leitor opina", que normalmente
fica no primeiro caderno do jornal, e que diz:

"O presidente Lula deveria ter
interrompido sua agenda para dar suporte e acompanhar de perto essa tragédia,
mas preferiu seguir com a sua agenda. Enquanto isso, o presidente francês estava
no aeroporto Charles de Gaulle o mais rápido que pôde."

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