Aventurando-me na dialética. Por Renato Janine Ribeiro
Gente, um alerta apenas. De vez em quando vejo pessoas de esquerda criticando as contradições do capitalismo ou dizendo que o capitalismo, devido às suas contradições, está falindo etc. É bom lembrar que a ideia de contradição do capitalismo é uma ideia de Marx, e Marx é o pensador que deve a sua formação a Hegel. Ou seja, a contradição é um termo da dialética. Isso quer dizer que tanto a definição de uma entidade, como no caso do capitalismo (um modo de produção), quanto o próprio movimento da história se dá por contradições. A contradição, por exemplo, entre uma classe dominante e classes dominadas, no caso a contradição entre a burguesia e o proletariado, para simplificar.
Então, a contradição é o próprio movimento do capitalismo, é ela que faz o capitalismo funcionar. Isso é muito difícil de entender, mas deve ficar claro no sentido de que a lógica dialética não é uma lógica aristotélica, em que a contradição seria uma falha. É uma lógica em que o que é vivo, no caso as formas históricas, procede com a contradição, e é essa contradição que vai fazer com que isso se expanda e, em um certo momento, sucumba. Assim, a contradição dentro de cada modo de produção é a sua vitalidade e o que terminará por causar a sua morte, mas sua morte no sentido da superação por uma forma superior. Sim, isso traz inúmeras discussões, inclusive uma convicção muito forte de que existe algo chamado progresso. Mas o importante é entender a contradição como o movimento mesmo da História.
Acessoriamente, esse assunto é tão difícil de se compreender que levou a uma discussão séria em meados do século XX, que teve como protagonista Louis Althusser, o mais destacado filósofo marxista francês em seu tempo e um dos mais importantes da Europa. Mas ele, não aceitando a ideia de contradição hegeliana, distinguiu dois tipos de contradição: uma contradição que apenas manteria um sistema, e outra contradição que seria mortífera para a forma histórica. Na prática, isso levou vários de seus discípulos a pensar que a contradição que fazia o capitalismo funcionar na Europa e nos países desenvolvidos, entre burguesia e proletariado, era uma contradição não antagônica. E que o que liquidaria o capitalismo seria basicamente outra contradição: a contradição entre o Império e suas neocolônias, no caso América Latina, África e Ásia. É o tempo da Conferência Tricontinental, chamada por Fidel Castro, em 1966. É isso.
Agora, fique claro que essa tese de Althusser é, do ponto de vista marxista, complicada. Althusser estava consciente disso e atacou exatamente Hegel. O negócio dele era mostrar que o marxismo tinha rompido com Hegel, rompia com essa ideia de uma dialética que tem a contradição como antagônica. Tudo isso estudei há muito tempo, então posso estar cometendo algum pequeno equívoco, mas essencialmente foi isso.
Então, quando Régis Debray, aluno de Althusser, vai ser preso, na Bolívia, tentando se juntar às guerrilhas de Che Guevara e publica seu livro Revolução na Revolução, ele está defendendo essa ideia, que é muito bem sintetizada pelo próprio Guevara na frase: “É preciso fazer 2, 3 Vietnãs”. Ou seja, o capitalismo, o imperialismo, seriam derrotados justamente pelas lutas na periferia do sistema. O centro do sistema eram contradições que no fim das contas não seriam antagônicas, não seriam letais. A contradição que destruiria o capital viria de fora.
Curiosamente, isso sugere um parentesco remoto e involuntário com Toynbee, o grande historiador inglês que defende a tese de que a destruição de cada civilização ou cultura se dava pelo seu proletariado externo. O proletariado externo de Toynbee, por exemplo, os bárbaros que invadem o Império Romano, teria esse papel, que no caso dos guevaristas seria exercido pelos 3 continentes oprimidos, América Latina, Africa e Asia. Mas basta isso. Entenda-se apenas: a contradição, para a dialética, é o que dá vida, é o que dá morte também.
Renato Janine Ribeiro é filósofo, escritor e professor da USP. Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)
