Banheiro de Mundinho — Anos 70. Por Jorge Papapá
Saindo da Liberdade, bastava descer a ladeira de Pedra, atravessando o Bairro Guarani, e logo os pés se acostumavam ao chão batido que levava até a escola Dona Cabocla — orgulho da comunidade e parada obrigatória de toda criança daquelas bandas. Era ali que se aprendia a ler, escrever e sonhar, mesmo quando a vida era dura e o futuro parecia uma estrada esburacada.
Mais adiante, já no Largo do Tanque, o coração do bairro pulsava forte ao cheiro de azeite de dendê. Bem no meio da praça, sob um guarda-sol desbotado e uma brisa teimosa, ficava o tabuleiro sagrado de Dona Venância, a baiana mais respeitada da região. O acarajé dela, diziam, era diferente — não só pelo sabor, mas pela reza que ela fazia antes de acender o fogo. Com olhos fechados e mão no peito, pedia proteção, axé, e que o vatapá não desandasse.
Foi também no Largo do Tanque que, com o tempo, surgiu uma novidade que mexeu com a imaginação de todo mundo: ali foi construído o primeiro shopping center de Salvador. Na época, foi uma verdadeira festa. Gente de todo canto vinha só pra ver de perto aquela novidade moderna, cheia de vitrines, luzes e movimento. O shopping virou a grande atração do bairro, ponto de curiosidade, passeio e orgulho — como se o mundo tivesse decidido dar as caras ali, no meio da rotina simples de quem vivia no Largo.
E, como se fosse o guardião invisível de tudo aquilo, todo fim de tarde Bandalia aparecia. Era sempre ali, por perto do shopping, em frente ao tabuleiro de Dona Venância, como se aquele fosse o seu palco escolhido. Sentava num banco gasto, ajeitava o violão no colo e, sem pressa, começava a tocar.
Bandalia não cantava só música — ele costurava o bairro com som.
Destilava canções que falavam das histórias da Gigibirra, dos amores que não deram certo, da charanga que cruzava as ruas levantando poeira e gente, da chuva batendo no telhado de zinco. Quem ouvia, se via ali dentro. Ele transformava lembrança em melodia e fazia do Largo um lugar ainda maior do que já era.
Na Gigibirra, aliás, a gente também ia assistir aos shows de Balbino do Rojão, e era sempre uma grande festa. O povo se juntava, ria alto, dançava sem cerimônia. Mas a melhor parte era quando, no meio do show, ele levantava a gravata — que parecia ter vida própria — e ela se erguia como uma espada pendurada no pescoço. Era impossível não se encantar. As charangas também faziam seu espetáculo à parte, passando pelas ruas e arrastando multidões. Bastava o primeiro toque da bateria, e lá ia o povo atrás, dançando, como se o corpo soubesse o caminho sozinho.
Perto dali, quase escondido entre construções tortas, estava o Banheiro de Mundinho. Era mais que um banheiro: era um ponto de apoio da vida. Por alguns trocados, qualquer um — de chinelo ou descalço — ganhava um pedaço de sabão em barra e um banho que lavava o suor do dia. A água era fria, mas não havia queixa. O importante era sair limpo, com a alma enxaguada.
E pra quem queria dar um trato no visual, ali mesmo, ao lado das duchas, tinha a dupla de ouro: Barriga e Roberto. Barriga, falastrão, fazia piada até com o próprio nome. Roberto, sério e meticuloso, era dos riscos bem feitos e da navalha silenciosa. Juntos davam conta do recado: cortavam cabelo, faziam barba, ajeitavam bigode e, de quebra, levantavam a moral de qualquer um.
De quando em quando nosso pai nos levava pra cair nas mãos dos mágicos dos cortes. E quase sempre o corte era “pimpão” — um estilo que a gente achava ridículo, mas que ele insistia em manter.
O banheiro, a escola, o tabuleiro, a música de Bandalia — tudo fazia parte de um ciclo de sobrevivência com dignidade. O Largo do Tanque não era bairro turístico, mas era um mundo inteiro pra quem vivia ali. Tinha seus códigos, seus heróis e suas histórias.
Hoje talvez restem apenas ruínas, ecos, fotos amareladas. O mato cresceu ao redor das lembranças. As tábuas gastas ainda guardam segredos.
E o Banheiro de Mundinho virou memória nas paredes da minha cabeça
Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

