Bloco Alvorada celebra 100 anos de Nengua Guanguacese e transforma a avenida em ato contra o racismo e a intolerância
Desfile uniu tradição, religiosidade afro-brasileira e juventude do samba em homenagem à sacerdotisa do Terreiro Bate Folha
O Bloco Alvorada levou para o Carnaval de Salvador 2026 um desfile marcado por ancestralidade, resistência e afirmação identitária. Com o tema “Nengua Guanguacese: 100 anos de mar, folha e fé”, o bloco mais antigo de samba da folia baiana transformou a Sexta-feira de Carnaval, no Circuito Osmar (Campo Grande), em um grande tributo à vida e à trajetória de Dona Olga Conceição Cruz, referência do candomblé Angola e líder do Terreiro Bate Folha.
A homenagem celebrou o centenário da sacerdotisa, conhecida como Nengua Guanguacese, e propôs mais que um desfile: um ato público de reverência à memória de uma mulher preta de candomblé que dedicou a vida à fé, ao cuidado e à resistência cultural.
Para o presidente do bloco, Vadinho França, o tema dialoga diretamente com a atuação do Alvorada ao longo de todo o ano. “O tema faz parte das nossas pautas do ano inteiro contra o racismo, contra a intolerância, pelo respeito às diversidades de gênero e que tem o samba como grande protagonista”, afirmou. Segundo ele, a proposta foi mostrar na avenida a vida e a resistência de uma mulher preta de candomblé, reafirmando o compromisso histórico do bloco com as religiões de matriz africana e com a valorização da identidade negra.
Fundado em 1º de janeiro de 1975, o Alvorada nasceu no bairro do Gravatá e ficou conhecido por abrir oficialmente a Sexta-feira de Carnaval, anunciando o início da festa no Campo Grande. Ao longo de cinco décadas, consolidou-se como símbolo do samba tradicional na capital baiana, mantendo repertório próprio, ala de canto com artistas locais, ala das baianas e o tradicional galo que abre o cortejo.
Em 2026, a ala de canto reuniu grandes nomes do samba baiano, reforçando essa tradição musical: Bira (Negros de Fé), Arnaldo Rafael, Romilson (Partido Popular), Marco Poca Olho, Valdélio França e Tiago Dantas (Representa), além das participaçoes especiais de Rogério Bambeia, Marquinho Sensação, Renato da Rocinha e Roberto Mendes. Como expressão do diálogo entre gerações, o desfile contou também com a participação do Banjo Novo, que simboliza a renovação da linguagem do samba e a conexão direta com a juventude.
A presença do Banjo Novo reforçou a proposta do Alvorada de aproximar a ancestralidade do presente, mostrando que o samba segue vivo porque se reinventa. Formado por jovens artistas que dialogam com as rodas contemporâneas e novas estéticas do gênero, o grupo trouxe energia e novas sonoridades à avenida, sem perder o vínculo com as raízes. Para Samora Lopes, um dos idealizadores do movimento, a participação no cortejo representa continuidade e responsabilidade. “Estar no Alvorada é uma honra porque a gente entende que não existe futuro sem quem abriu caminho. O Banjo Novo chega para somar, para aprender com os mais velhos e mostrar que o samba também é linguagem da juventude, que carrega a ancestralidade e projeta novos horizontes”, afirmou.
Na avenida, o sentimento era de pertencimento e resgate. A funcionária pública da área de enfermagem Kátia, 52 anos, contou que estava há mais de 12 anos sem sair no Carnaval e que reencontrou no Alvorada o prazer da folia. “Já são quatro anos no bloco. O Alvorada resgatou a questão da segurança, da folia, do gostar do Carnaval, do gostar do samba. É gente preta, gente bonita. A gente precisa acabar com esse paradigma de que gente bonita é só gente branca. O Alvorada tem homens e mulheres negros lindos. É o melhor bloco de samba da Bahia”, declarou.
Para o professor Josuel Queiroz, 56 anos, a presença no Alvorada é parte essencial da experiência carnavalesca. “Eu já saio há muito tempo no Alvorada. Acho que é a melhor parte do Carnaval. Não existe Carnaval sem o Alvorada”, afirmou.
A estudante de biomedicina Ayanna Trinchão, 19 anos, destacou a importância simbólica de desfilar no Campo Grande. “É maravilhoso porque o samba é nossa raiz, principalmente por estar no Carnaval de Salvador, no Campo Grande, onde tudo começou. É uma sensação maravilhosa porque a gente cultua também os nossos ancestrais”, disse.
Ao unir tradição, posicionamento político-cultural e renovação musical, o Bloco Alvorada reafirma, em 2026, seu papel histórico: manter o samba como instrumento de memória e resistência, sem abrir mão do diálogo com o presente. Mais do que celebrar um centenário, o desfile transformou a avenida em espaço de reverência à ancestralidade, combate à intolerância e exaltação da beleza e da força do povo negro, mostrando que o samba segue vivo porque passa de geração em geração.
