Chico Louco. Por Jorge Papapá
O nome dele era Chico Louco, e a cidade aprendeu cedo que nada permanecia igual depois de sua passagem. As paredes amanheciam diferentes, os muros ganhavam coragem, as casas deixavam de cochilar na mesmice do cinza. Não havia anúncio, nem assinatura. Bastava acordar e olhar em volta: Chico tinha passado por ali.
Diziam que era pintor de telas, mas ninguém nunca viu uma moldura em suas mãos. Seu quadro era o dia, sua moldura, a rua inteira. Carregava latas de tinta como quem carrega memórias, algumas cheias, outras quase vazias, todas úteis. As pessoas lhe davam tintas sem perguntar o porquê. Era um acordo silencioso: ele coloria a cidade, e a cidade, em troca, deixava Chico existir.
Chico Louco era tinta. Onde pisava, o mundo ganhava outra cor. Um poste virava girassol. Um muro rachado se transformava em rio. Um portão enferrujado aprendia a ser arco-íris. As crianças seguiam seus passos como quem acompanha uma brincadeira longa demais para acabar. Chico as amava. Pintava rindo, sujando as mãos, errando de propósito, como quem brinca de colorir cadernos novos. Às vezes deixava o pincel de lado e usava os dedos, como se estivesse desenhando para não esquecer como era ser pequeno.
Os adultos fingiam não ver, mas diminuíam o passo. Ninguém atravessava uma pintura de Chico com pressa.
Seu melhor amigo era Duca, o cego da rua de baixo. Duca não via o que Chico pintava, mas enxergava tudo. Sentava-se no meio-fio, escutando o som do pincel raspando a parede, o chacoalhar das latas, o suspiro satisfeito de Chico ao terminar uma cor.
— Que cor é essa? — perguntava Duca.
— Hoje é verde com gosto de esperança — respondia Chico.
Duca sorria, como quem reconhece um velho conhecido.
Chico dizia que Duca era o único que realmente via suas pinturas. “Quem olha demais, às vezes não enxerga”, explicava, sem explicar. Duca passava a mão no muro ainda fresco, sentia o relevo da tinta, o calor do sol misturado à cor. Para ele, cada parede tinha som, cada cor tinha temperatura. E assim, o cego via mais do que muitos olhos abertos.
Houve o dia em que Chico pintou o hospital. Não por fora, mas por dentro das pessoas. Ficou horas sentado na calçada, misturando cores invisíveis. E algo mudou. Os pacientes pareceram mais leves, mais otimistas, alguns sorriram sem perceber. Doentes antigos pediram para abrir as janelas. Médicos caminharam mais devagar. Quem entrou com medo saiu com esperança. Ninguém soube dizer como, mas naquele dia todos sentiram: ali, a dor tinha ficado menor. O hospital respirou diferente.
Teve também a manhã em que a prefeitura mandou apagar um de seus murais. Diziam que não estava “dentro do padrão”. Chico observou em silêncio. No dia seguinte, pintou o muro de branco, um branco tão intenso que doía olhar. E no centro, apenas uma pequena mancha azul. Bastou. A cidade entendeu.
Chico Louco nunca pediu nada. Duca dizia que ele pintava para não desaparecer. Talvez fosse verdade. Um dia, as latas ficaram vazias. As paredes, cheias. Chico sentou no banco da praça, ao lado de Duca, e ficou em silêncio. O chafariz seco refletia o céu como um espelho cansado.
Depois disso, Chico sumiu.
No começo, a cidade não percebeu. As cores ainda estavam ali, resistindo. Mas, aos poucos, começaram a desbotar. O azul perdeu profundidade. O amarelo ficou pálido. O vermelho cansou. Ninguém sabia explicar. Diziam que era o sol, a chuva, o tempo. Mas quem tinha memória sabia: faltava mão, faltava olhar, faltava Chico.
Duca continuou na praça. Sentava no mesmo banco, escutava a cidade, tocava as paredes. Mas algo também começou a mudar nele. Dizia que as cores estavam ficando frias. Depois, disse que estavam ficando distantes. Um dia, confessou que já não sentia nada ao tocar os muros.
Duca foi perdendo a cor também. Primeiro na voz, que ficou mais baixa. Depois no corpo, que parecia cada vez mais leve, quase transparente. Até que um dia não veio mais à praça.
Alguns juram que ele simplesmente desapareceu. Outros dizem que, naquela manhã, o último resto de cor deixou a cidade junto com ele.
Hoje, a cidade é cinza de verdade. Não o cinza das paredes, mas o dos dias. Às quatro da tarde, ninguém para mais. O sol ainda bate torto, mas não encontra onde ficar. As paredes não respondem. O silêncio se espalha como poeira.
Talvez Chico tenha ido embora quando ninguém mais soube oferecer cor.
Talvez Duca tenha partido quando não havia mais nada para sentir.
Ou talvez a cidade, cansada de ser alegria por um tempo tão curto, tenha decidido esquecer.
E assim segue: correta, organizada, sem manchas.
Uma cidade que nunca mais soube ser arco-íris.
Jorge Papapá é cantor e compositor.

