Aldeia Nagô
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Comoção pela morte de Isabella por ContardoCalligaris

4 - 5 minutos de leituraModo Leitura

A tragédia
nos lembra afetos dolorosos que regram nossa maneira "moderna" de
casar
.


HOJE,
QUARTA-FEIRA, quando acabo esta coluna, não conhecemos os eventos que levaram à
morte de Isabella Nardoni; só sabemos que a menina, de cinco anos, foi
assassinada, intencionalmente ou não, enquanto estava na custódia do pai e da
madrasta. E conhecemos um pouco a história da família: a mãe e o pai de Isabella
não chegaram a se juntar -foi um romance adolescente que acabou antes de
Isabella nascer. O pai tem dois filhos pequenos com sua mulher atual.

É uma
situação trivial: a pensão mensal, as visitas, o padrasto ou a madrasta, os
meio-irmãos etc. Mas a banalidade dessa situação não deveria disfarçar o
emaranhado de afetos dolorosos que ela produz -afetos que muitos vivem e que
todos preferimos esquecer.

Não sei se esses afetos são responsáveis pela
morte de Isabella. Mas talvez eles sejam responsáveis pela extraordinária
comoção produzida pela sua morte. Como assim?

A morte violenta de uma
criança nos fere a todos: é como se, ao mesmo tempo, alguém nos arrancasse um
pedaço de nosso próprio futuro e destruísse a fantasia nostálgica da infância,
que sempre cultivamos, mesmo que o primeiro período de nossa vida tenha sido
infeliz.

Mas a história de Isabella nos comove também por outra razão: as
tentativas de "explicar" o acontecido evocam, inevitavelmente, as dificuldades
de nossa maneira "moderna" de casar.

São dificuldades nas quais, em geral, preferimos evitar de pensar.

É
comum que o marido ou a mulher (às vezes, ambos) levem para o casamento filhos
que são frutos de uma relação anterior. Espera-se que isso aconteça sem
complicação: afinal, se descasamos e casamos por amor, por que o mesmo amor não
reinaria pelo lar todo? Pois é, o amor é uma coisa complicada. Exemplos.
A
rivalidade, que sempre existe entre irmãos, vinga entre enteados e meio-irmãos.
E vinga redobrada, justamente por ser mais inconfessável do que a rivalidade
entre irmãos -por ser silenciosa, reprimida pelo esforço geral de compor uma
nova família ideal, em que todos os integrantes se amariam.
Na nova família,
à primeira vista, o homem convive com seus enteados melhor do que a mulher. Não
é nenhum milagre do "instinto" paterno: o homem encontra uma satisfação
narcisista no exercício da paternidade. Ele, aliás, curte ser e se sentir amado
por suas qualidades "paternas". Pare ele, saber ser pai de filhos e enteados faz
parte de uma virilidade que ele quer que seja reconhecida e festejada pela
mulher.
Mas cuidado: a encenação da paternidade, embora às vezes
espalhafatosa, não resiste à pressão da culpa de dar para seus filhos de sangue
menos do que para seus enteados.

Essa culpa, envergonhada e reprimida, é
inevitável, porque há uma coisa que o homem, na grande maioria dos casos, dá
mais aos enteados do que aos filhos: sua própria presença no lar.

A mulher,
ao contrário, vive quase sempre uma rivalidade dramática com seus enteados:
compete com eles como se ela fosse mais uma filha. Para a mulher, o enteado ou a
enteada não usurpam o lugar dos filhos que ela trouxe de um casamento anterior,
nem o lugar dos filhos que nasceram no novo casamento: eles ameaçam usurpar o
próprio lugar dela. Essa rivalidade, escondida, expressa-se de maneiras
travessas: por exemplo, numa crítica assídua das manifestações do afeto paterno
do homem para com o filho ou a filha dele. Ou seja, para não admitir um ciúme
envergonhado do enteado, a mulher censura o "excesso" dos sentimentos paternos
do marido. Esse, criticado como pai, sente-se diminuído como homem. O desastre
está às portas.

São apenas exemplos. O casamento "moderno" é um nó de afetos reprimidos,
uma convivência explosiva que aposta no amor do casal como se fosse remédio para
todos os males.
Não se trata de condenar a idéia de que seja possível
refazer sua vida com outro ou outra e, nessa ocasião, levar consigo os filhos
dos casamentos anteriores. Mas seria melhor que a gente se engajasse nesses
projetos sem a ilusão de que os bons sentimentos prevalecerão por conta própria.
Seria melhor, para começar, que nossas disposições menos nobres, em vez de
silenciadas e reprimidas, fossem faladas, explicitadas. Isso, para evitar que,
de vez em quando, a trágica morte de uma menina nos lembre, por um dia ou uma
semana, que a vida das famílias "modernas" é muito mais difícil do que parece.

Publicado originalmente na Folha de São Paulo

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