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Consumado o golpe, tudo volta ao normal? Por Tereza Cruvinel

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Tereza_Cruvinel

Na reta final do julgamento da presidente afastada Dilma Rousseff, que começa oficialmente hoje, vão se intensificando os sinais de que, consumado a remoção do governo petista, haverá uma discreta e até dissimulada volta ao normal.

 

Entenda-se por normalidade a contenção dos excessos, abusos e ultrapassagens perpetrados,  sobretudo,  pela coalizão policial-judicial que, somada à aliança político-midiática, criou as condições para o golpe. A contenção da Lava Jata e do poder supremo que foi dado a seus condutores  será a expressão mais clara de que, cumpridos seus desígnios, o tempo do vale tudo já pode ser encerrado. O dia de fortes sinais neste sentido terminou com o discurso de posse do novo corregedor do CNJ, ministro João Otávio de Noronha, para quem o Judiciário não pode ser tutelado por forças como a mídia, o Ministério Público ou a polícia. Viva a normalidade!

Soou como o toque de um sino a virulência do ataque do ministro Gilmar Mendes à Lava Jato, depois do estranho vazamento, para a revista Veja, de falsa denúncia contra o ministro Dias Toffoli. Soou como o repique de outra igreja a decisão do procurador-geral Rodrigo Janot de cancelar a delação premiada da construtora OAS.

Segundo nota de ontem da colunista Natuza Nery, no Painel da Folha de S. Paulo,  um procurador da força-tarefa da Lava Jato revelou o sentimento de que estão sendo descartados porque já fizeram o trabalho que serviu ao golpe:  “Éramos lindos até o impeachment ser irreversível. Agora que já nos usaram, dizem chega”.   Esta soou como um gemido resignado.

Os sinos voltaram a tocar com a fala do novo corregedor do CNJ ao dizer coisas que, faz muito pouco tempo, seriam mal vistas. Agora vão  merecer aplausos. Aliás, merecem, exceto pela questão tempo. Disse ele:

“Nosso papel primordial é  de proteger, é de blindar a magistratura das influências externas, fazer com que o juiz exerça a magistratura na mais plena liberdade, fazer com que juiz não tenha medo da mídia, mídia que se tornou um poder”.

Não faz muito tempo, alguém veria na frase uma ameaça à liberdade de imprensa.

E mais adiante, disse ele:

“Não pode um juiz ser refém do Ministério Público, da Polícia Federal ou de quem quer que seja. O magistrado existe é para garantir direitos fundamentais”.

Oba! Os direitos fundamentais voltaram a ser cultuados.  Noronha foi em frente:

“Não podemos nos calar, nos curvar e perder nossa independência. Não podemos permitir que se instale a ditadura da informação falsa. Nos cabe arregaçarmos as mangas e enfrentarmos o desafio de colocar as coisas em seus devidos lugares.  Lemos todos os dias nos jornais a censura a quem vota a favor ou contra determinado investigado”.

Viva! Alguém volta a reconhecer, implicitamente, o direito a um julgamento justo, em que os  juízes  não tenham a imparcialidade corrompida pela necessidade de não contrariar a opinião midiática, confundida com opinião pública.

Neste ritmo, em breve voltaremos à normalidade. Em breve, consumado o golpe e entronizado o governo sem voto. Será uma democracia capenga mas na moldura de uma normalidade institucional. Uma democracia relativa, como disse um general da ditadura.

Artigo publicado originalmente em http://www.brasil247.com/pt/blog/terezacruvinel/251606/Consumado-o-golpe-tudo-volta-ao-normal.htm

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