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Cordeiro de Nanã. Por Renato Queiróz

4 - 6 minutos de leituraModo Leitura

A canção “Cordeiro de Nanã”, composta por Mateus Aleluia e Dadinho, representa muito mais do que uma simples obra musical – trata-se de um verdadeiro monumento da cultura afro-brasileira, uma ponte entre o sagrado e o profano que atravessa gerações.

Senta que lá vem História!

Sua trajetória começa com os Tincoãs, grupo que inicialmente contava com Erivaldo Brito – jornalista, escritor e dono de uma das vozes mais marcantes do Coral da Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Foi quando Mateus substituiu Erivaldo que os Tincoãs encontraram sua essência definitiva, mas a passagem de Erivaldo pelo grupo deixou marcas indeléveis.

Contam os mais velhos que essa transição não foi um mero acaso — foi um encontro de destinos, onde cada voz trouxe sua própria força. Erivaldo, com seu conhecimento histórico e sua voz lapidada nos corais sacros, nos boleros e mambos, que caracterizam a primeira fase do grupo, ajudou a pavimentar o caminho para o que viria a ser o som inconfundível dos Tincoãs.

A entrada de Mateus Aleluia no lugar de Erivaldo marcou a formação definitiva do conjunto, que em 1973 lançou o álbum homônimo pela EMI-Odeon, produzido por Milton Miranda, estabelecendo os parâmetros estéticos que transformariam a canção em um clássico atemporal. Histórico álbum! Memorável!

Os Tincoãs realizaram uma síntese musical extraordinária ao fundir os cantos ritualísticos do candomblé com harmonias complexas inspiradas na música sacra europeia.

Essa combinação única criou uma sonoridade que capturou a essência da cultura afro-baiana, com seu refrão hipnótico “Sou de Nanã, euá, euá, euá, ê” e o verso desafiador “Fui chamado de cordeiro, mas não sou cordeiro não” tornando-se verdadeiros mantras de resistência cultural.

A produção de Milton Miranda soube captar perfeitamente essa dualidade sagrado-profana que caracteriza a obra.

Ao longo das décadas, a canção foi reinterpretada por diversos artistas, cada um acrescentando novas camadas de significado.

Margareth Menezes a incluiu em seu álbum “Um Canto pra Subir” (1990, PolyGram), produzido por Reynaldo Santana, apresentando uma abordagem mais acessível ao grande público.

Em 1993, ocorreu a memorável apresentação de João Gilberto, Maria Bethânia e Gal Costa na reinauguração do Teatro Castro Alves, embora não tenha sido lançada oficialmente em disco.

Xangai trouxe sua interpretação no álbum “Canto dos Escravos” (2002, MCD/Universal), produzido por Carlinhos Brown, enquanto Juçara Marçal e Metá Metá exploraram territórios experimentais em “Encarnado” (2016, Antídoto), sob produção de Kiko Dinucci.

Mais recentemente, BaianaSystem e Bárbara Eugênia apresentaram uma versão atualizada em “BaianaSystem & Amigos” (2020, BaianaSystem Music), produzida por Russo Passapusso, demonstrando a incrível capacidade de adaptação da canção a novas linguagens musicais.

Cada uma dessas interpretações, com suas particularidades produtivas e artísticas, contribuiu para enriquecer o significado desta obra-prima da música afro-brasileira.

Além dos registros fonográficos, “Cordeiro de Nanã” mantém vida intensa nos terreiros, especialmente, nas cerimônias dedicadas a Nanã Buruquê.

Esta dupla existência – como obra artística e expressão religiosa – revela sua profundidade cultural e importância como elo entre diferentes dimensões da experiência afro-brasileira.

A música também suscita discussões sobre autoria coletiva e patrimônio cultural, já que dialoga com tradições que remontam à África, demonstrando como a cultura popular pode simultaneamente ter autores específicos e pertencer a toda uma comunidade.

Ao longo de quase cinco décadas, desde sua primeira gravação até as interpretações mais recentes, “Cordeiro de Nanã” tem se mostrado uma obra de extraordinária vitalidade.

Sua capacidade de se reinventar sem perder sua essência, de dialogar com diferentes linguagens musicais mantendo sua profundidade espiritual, faz dela um dos mais importantes monumentos da cultura afro-brasileira.

Cada nova interpretação não apenas homenageia a versão original, mas acrescenta novas dimensões a esta obra-prima que continua a inspirar artistas e emocionar ouvintes, confirmando seu status de verdadeiro patrimônio cultural vivo.

João Gilberto também registrou a canção em apresentações ao vivo, embora ela não esteja presente em seu álbum João Voz e Violão (2000), que inclui outras faixas de caráter contemplativo. Maria Bethânia, com sua longa relação com os orixás e a música de terreiro, reforça o caráter litúrgico da canção em suas interpretações.

Thalma de Freitas gravou uma versão amplificada para a trilha sonora da novela Senhora do Destino (2004), lançada pela EMI Music Brasil. Sua interpretação transformou a canção em um mantra televisivo, ampliando seu alcance para o grande público.

Mateus Aleluia, em carreira solo, regravou a canção no álbum Cinco Sentidos (2010), selecionado pelo Programa Petrobras Cultural. A gravação foi realizada com arranjos de Ubiratan Marques e participação de Fabiana Aleluia, revelando uma abordagem afro-barroca e introspectiva.

Em 2024, Otis Selimane gravou uma versão percussiva com Eduardo Scaramuzza durante um sarau em Poá, São Paulo. No ano seguinte, lançou uma releitura ritualística com voz e mbira Nyunga Nyunga ao lado de Mateus Aleluia, no álbum Músicas de Mbira e Outros Contos Bantu. Gravada no Estúdio 1985 Apodi, em São Paulo, a produção buscou reconectar África e Brasil por meio da espiritualidade sonora.

Cristiano Scaglioni produziu uma versão coral em homenagem aos Tincoãs, exaltando a dimensão litúrgica da obra. O videoclipe da versão de Otis e Aleluia foi dirigido por Nara Couto, mergulhando no espírito contemplativo da canção.

“Cordeiro de Nanã” é frequentemente descrita como um portal espiritual. A música é um chamado à ancestralidade, à reconexão com os valores africanos e à cura coletiva. Sua presença em rituais, apresentações artísticas e produções audiovisuais reafirma seu papel como símbolo de resistência, fé e identidade.

A canção não apenas sobrevive ao tempo – ela se renova a cada interpretação, mantendo viva a memória dos que vieram antes e abrindo caminhos para os que virão.

Aqui, Thalma de Freitas com Mateus Aleluia cantam “Cordeiro de Nanã”, de Mateus e Dadinho, que Thalma já havia gravado, acompanhados do pai de Thalma, maestro Laércio de Freitas, no piano, e Fabiana Aleluia, filha de Mateus, nos vocais.  

SONZAÇO!

Renato Queiroz  é professor, compositor, poeta e um apaixonado pela história da música.

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