Aldeia Nagô
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Dona Odete. Por Zuggi Almeida

4 - 6 minutos de leituraModo Leitura
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Era uma casa portuguesa com certeza, nos detalhes da decoração e na fartura da mesa em maioria das famílias cristãs lusitanas. 

A sexagenária Odete Salazar Pimentel  exercia o poder absoluto no comando do seu clã, sendo respeitada ao extremo pelo marido, o doutor Brandão.Dona Odete era o terror das noras e a candura quando o assunto era netos. A dedicação pelos pimpolhos fazia contraponto à imagem que transmitia de ser megera.

Além da família, Dona Odete tinha uma veneração intensa por  Nossa Senhora de Fátima. 

Odete Salazar era a tesoureira das finanças da paróquia e cumpria com afinco as determinações do cargo. A reforma completa das instalações da igreja, a compra de bancos novos e um moderno sistema de som foram algumas das realizações da devota portuguesa. Era respeitada por todos os paroquianos e despertava um certo temor ao jovem padre Gaspar por conta de interferir  na liturgia das celebrações.

A decoração do altar da santa, a arrumação do púlpito, a escolha dos coroinhas, a programação das cerimônias de batismo e casamento, tudo funcionava sobre a batuta de Dona Odete.

A igreja na região central de Salvador era uma espécie de extensão  da casa da portuguesa.

As festividades em dezembro na Bahia iniciam-se com os adeptos do candomblé celebrando Iansã, rainha do raios que  adora ser agraciada com pratos à base de azeite de dendê. Comida quente como gostam os filhos de Oyá, geralmente irreverentes e de pavio curto.

Maria do Rosário, moradora da Curva Grande, no bairro do Garcia, uma filha de Oyá  procurou a igreja da Senhora de Fátima para acertar o batismo da neta recém-nascido, justo no momento que Dona Odete entrava no salão paroquial. 

Ao ver aquela mulher negra com um torço vistoso sobre a cabeça e exibindo um colar de contas vermelhas e brancas ornando o colo farto, logo, perguntou para uma voluntária da paróquia:
– O que essa senhora veio fazer em nossa igreja?

A moça respondeu: – Ela é minha vizinha. O nome dela é Maria do Rosário. Ela é ialorixá e veio  acertar o batizado da netinha  que nasceu no mês passado !Sem dirigir-se à Maria do Rosário, Dona Odete advertiu a moça, determinando:

– Você sabe que  falei pro padre Gaspar que aqui não celebramos nada pra esse “povo de candomblé” ? Mande essa senhora procurar outra igreja onde o padre celebra missas tocando atabaques, aqui na minha igreja, não!

E saiu rápido como chegou.

A filha de Iansã ouviu a advertência  demonstrando  indignação no seu olhar. Dona Maria agradeceu pelo atendimento e foi embora.

Era noite de Natal e mais uma vez a família Pimentel estava reunida. Dessa vez vieram parentes  de Lisboa para conhecer a chegada do Ano Novo nas praias de Salvador. A imensa mesa exibia o indefectível peru natalino, o tradicional bacalhau à Gomes de Sá,  bolinhos de chuva, doces e frutas cristalizadas,também, vinhos e a imensa garrafa de espumante.

O espírito natalino pairava no ar, Dona Odete após finalizar os preparativos da ceia retirou-se para o quarto para vestir-se para celebração. Uma das filhas demonstrou preocupação com a demora da mãe e decidiu ir até o quarto, quando a matriarca surgiu na porta.

A aparição causou espanto geral na figura daquela mulher num vestido de lamê vermelho já reduzido nas medidas fartas da portuguesa. Um brilhante batom vermelho delineiava os lábios, o decote generoso estava disfarçado por colares dourados iguais aos brincos. O cabelo estava preso num coque.

Sem emitir qualquer palavra, Dona Odete ocupa a cabeceira da mesa, Seu Brandão ficado ai lado da mulher  evitando fazer perguntas e todos ocupam seus devidos lugares. Diante ao adiantado da hora, um dos filhos pega a garrafa da champnge e trata de abrir para fazer o brinde natalino. Ao espoucar da garrafa, uma gargalhada metálica explode pela sala.
A matriarca toma a garrafa da mão do filho e bebe três goles seguidos da bebida. A família Salazar fica espantada  diante do comportamento inesperado de Dona Odete.

A entidade recém-chegada anuncia:

“ Ah! Vocês estavam reclamando que eu estava demorando, pois eu estou aqui !”

A mulher olha em direção ao filho mais novo e diz:

“ Seu moço de camisa azul dê um abraço nesse moço seu irmão do lado” e aponta o sobrinho Ricardo que não entende.

A entidade volta-se para mãe de Ricardo e complementa:

“ O pai do seu filho que você disse que foi embora pro estrangeiro quando o menino nasceu está aqui nessa sala “.

Seu Brandão é acometido por uma comprometedora crise de tosse nervosa.

A família é abalada pelo terremoto de revelações que se seguem através daquela presença até então desconhecida.

Num determinado momento, a Padilha chama um menino que está próximo à mesa e o garoto aproxima-se receioso

Ao colocar a mão sobre a cabeça da criança, volta-se para uma das noras e vaticina:

“ Pegue esse moço e entregue pro velho, porque é filho dele e deve ser cuidado por ele”

O pequeno Antônio sempre acometido por crises epiléticas era um dos sofrimentos da família nas idas e vindas às emergências dos hospitais.

Após abrir a caixa de Pandora da família Salazar, a entidade afasta-se da mesa e vai em direção à varanda.

Solta uma gargalhada e a Maria Padilha sai pela noite natalina à fora.

Odete Salazar Pimentel retorna lívida para a sala de jantar e reúne-se com a família..

O sino da igreja de Nossa Senhora de Fatima anuncia meia-noite.
Ela exclama:

– Meu Deus, que hora é essa? A  missa do Galo já está começando e eu ainda estou por aqui !

Zuggi Almeida é baiano, escritor e roteirista.

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