Aldeia Nagô
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Sonzaço! Estou aqui para pedir perdão…Por Renato Queiróz

4 - 5 minutos de leituraModo Leitura

O forró é hoje reconhecido oficialmente como Patrimônio Cultural do Brasil, pelos seus aspectos históricos, sociais e culturais, seus temas relacionados aos sentimentos e afetos, ao ambiente e a acontecimentos da vida do nordestino e do migrante nordestino, ou de qualquer pessoa comum.

Senta que lá vem História!

No entanto, não se pode ignorar a polêmica que ronda as festas juninas em alguns lugares, e por esses tempos, onde o forró, gênero que é a própria alma da tradição, vem sendo substituído por ritmos alheios à essência do São João.

Alguns eventos priorizam o sertanejo universitário, o funk ou até mesmo o eletrônico, como se o pé de serra, o xote, o baião fossem obsoletos – um verdadeiro desrespeito à cultura nordestina. Essa tendência, muitas vezes impulsionada por duvidosos interesses comerciais, dilui a identidade das festividades e desvia o foco do que realmente importa: celebrar nossas raízes. Mas, ainda que modismos passageiros tentem empurrar o forró para os bastidores, ele resiste, pois está fincado no coração do povo.

Enquanto houver sanfona chorando, zabumba marcando o ritmo, o triângulo no compasso e vozes entoando versos de amor, calor e saudade, o forró seguirá vivo, pulsante e irresistível, atravessando gerações e mantendo acesa a chama da mais autêntica festa junina.

Via de regra a música é de quem lhe dá voz… Gonzagão, Marinês, Genival Lacerda, Dominguinhos, Cremilda, Adelmário Coelho ou cair no embalo de um “tengo-lengo-tengo” com Santanna, O Cantador, por exemplo, já é suficiente para firmar laços de amor com o gênero mais nordestino de todos, o forró. E não se trata de afastar o mérito do/a(s) intérpretes, mas de trazer à tona quem assina letras cantaroladas “de cor”.

Como não atribuir ao cearense Fagner aqueeeeela versão de “Espumas ao Vento” e não curtir também a versão trazida por Elza Soares? Assim como é impensável não “ouvir” o paraibano Flávio José quando os acordes da sanfona anunciam “Me Diz Amor.”

Para quem vive fora da nação nordestina, o cancioneiro do cantor e compositor pernambucano José Accioly Cavalcante Neto (11 de julho de 1950 – 29 de outubro de 2000) parece estar restrito a alguns poucos sucessos como: “Me diz Amor”, “Lembranças de um beijo”, “A natureza das coisas” e… “Espumas ao Vento”.

Porém, Accioly Neto espalhou mais do que “Espumas ao Vento”…
“Canção de Saudade”, “Lembrança de um beijo”, “Quando bate um coração”, “Me dá meu coração”, “Saudade da Boa”, entre outros sucessos, fazem parte do repertório de qualquer banda de forró que se preza, e de nomes como Chico César, Geraldo Azevedo, Luiz Caldas, Elba Ramalho, Fagner, Lucy Alves, Zeca Baleiro entre outros artistas.

Mas, o fato é que, inevitavelmente, “Espumas ao Vento” é um estrondoso e magnífico sucesso! Talvez o forró mais regravado e sempre cantado.

É impressionante, todo mundo ama. Sente saudade, todo mundo pede bis!

A canção é uma obra-prima, se tornou um clássico, expressando os sentimentos universais de saudade, arrependimento e esperança com uma linguagem simples e poética.

A metáfora das espumas ao vento sugere a fragilidade e a efemeridade do amor, mas também a sua persistência e resistência diante das adversidades.

A melodia é envolvente e emocionante, combinando com a letra sincera e apaixonada.

A canção também foi gravada por outros, outras e muitos e muitas, e a marcante versão do próprio Accioly Neto, que imprimiu sua voz marcante e seu sotaque nordestino na interpretação.

A canção também fez parte da trilha sonora do filme Lisbela e o Prisioneiro, de 2003, dirigido por Guel Arraes e baseado na peça de Osman Lins, quando Elza Soares criou uma das mais comoventes interpretações que esta canção poderia ter. Do forró ao underground. A dicção carregada de vocalizações jazzísticas atravessa a mensagem da canção, contamina a melodia e corta o coração de quem ouve.

A interpretação de “Espumas ao Vento” por Ney Matogrosso é um espetáculo à parte – sua voz andrógina e dramática imprime uma melancolia única à canção, transformando a saudade e o arrependimento em algo ainda mais intenso e teatral. Com seu estilo inconfundível, ele equilibra delicadeza e força, provando que a obra de Accioly é tão atemporal quanto versátil, capaz de ganhar novas cores sem perder sua essência nordestina.

O gostoso “forró”, imortalizado na voz de diversos cantores e cantores, “Espumas as Vento” é um pedido de perdão; de reconciliação; e de afirmação do desejo pegando fogo. O seu investimento é todo voltado para a persuasão, ou melhor, para despertar aquilo que o sofrimento (mágoa) parece ter feito adormecer.

Os versos “o meu olhar vai dar uma festa, amor, na hora que você chegar” são uns dos mais belos do cancioneiro popular.

A condensação de singelos (e ingênuos) sentidos em tão poucas palavras é arrebatadora.

Somos voyeurs e cúmplices na canção: somos atravessados pelo lirismo de sua dor e da sua esperança.

A volumosa melodia aperta os nós da garganta e o desejo vem acompanhado por um grito (quase) infinito de desespero e volúpia que chama à consumação; ao encontro: e nós somos a porta aberta minando vontades.

“Espumas ao Vento” é uma canção que representa a cultura e a identidade do nordeste brasileiro, mas que também toca o coração de qualquer pessoa que vive ou já viveu um grande amor.

Um forró verdadeiro! Cultuado por todos, por todos que amam o forró, de todas as gerações e assim será por muitas, a porta vai estar sempre aberta…

Um SONZAÇO!
Renato Queiroz  é professor, compositor, poeta e um apaixonado pela história da música.

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