Aldeia Nagô
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Eu, seu Abel e o Carnaval. Por Zuggi Almeida

3 - 4 minutos de leituraModo Leitura

Eu carrego o gene do carnaval por excelência.
Devo essa herança à presença do Seu Abel em minha vida, Um pai inesquecível, amigo, parceiro, solidário e amante da folia.
Quando criança ainda com cinco anos de idade tenho a lembrança de estar fantasiado portando um saco de confetes, e na mão uma pequena ampola da lança-perfume dourada Rhodoro; tempos que o inebriante apenas servia para cortejar as colombinas nos bailes do carnaval. Um presente de Seu Abel.

A minha inocência carnavalesca perfumou a varanda da minha casa no bairro da Liberdade por meia hora, e ali terminou meu sonho de arlequim.

Seu Abel ou Tenente Abel era um frequentador assíduo dos bares da região do Centro Histórico de Salvador no oposto à profissão de mecânico de artilharia praticada no exército brasileiro. Um exímio atirador, porém nunca vi Seu Abel portando uma arma na cintura. Entre a condição do belicista e amante das delícias da vida, a convivência entre amigos no Bar de Bananá, no Terreiro de Jesus prevalecia. O círculo de amizades do Seu Abel estava na gente do povo; mecânicos, mestres de obras, pequenos comerciantes. Mas, a maioria eram estivadores do porto de Salvador- considerados uma espécie de elite da classe trabalhadora por deter o controle do sindicato da categoria.

Essa proximidade com o pessoal das Docas felicitou Seu Abel participar dos primeiros desfiles do Afoxé Filhos de Ghandy por ruas de bairros da periferia de Salvador. O afoxé surgiu como alternativo ao bloco “Comendo Coentro” cujos integrantes eram estivadores que se vestiam de modo elegante usando roupas de linhos importados, chapéus Panamá e sapatos bicolores ‘Scamatchia’. A festa de Momo era comemorada na região do Taboão e arredores da Baixa dos Sapateiros onde uma espécie de sociedade negra da época alugava barracas das festas de largo, e promovia farras com comidas e bebidas à vontade. As convidadas vips eram meninas divertidas que trabalhavam em casas do Maciel, Taboão, Ladeira da Conceição e Gameleira

O pós-guerra impôs uma política de arrocho salarial aos estivadores do caís do Porto de Salvador e impediu que esses trabalhadores mantivessem o desfile do bloco Comendo Coentro, em 1949. A capacidade de criação de Durval Marques da Silva “o Vavá Madeira” e demais estivadores inspirou a criação de um outro cordão carnavalesco esse denominado Filhos de Ghandy com trajes mais simples usando roupas feitas com lençóis brancos da marca Santista, improvisando barris de mate forrados com couro como instrumentos de percussão. O torço branco que compôs a indumentária foi em homenagem ao líder pacifista indiano Mahatma Ghandi que enfrentava naquele momento o domínio do exército em inglês em terras da Ásia.
Em 1951 a entidade carnavalesca recebeu a denominação definitiva de Afoxé Filhos de Ghandy.

A minha primeira participação no Afoxé Filhos de Ghandy quando fui apresentado por Seu Abel ocorreu no ano de 1978 na gestão de Camafeu de Oxóssi apoiado pelo músico Gilberto Gil e outros abnegados que fizeram voltar as ruas os Filhos de Ghandy ausentes por dois anos do carnaval de Salvador.
Mas, a minha inclinação carnavalesca me levou a integrar o Bloco Deixa Disso, Os Desajustados e o Ilê Aiyê em tempos distintos na Liberdade; Apaches do Tororó, Bloco do Jacu e até cometi a façanha de criar juntos com um grupo de amigos do bairro da Liberdade em 1973, um bloco denominado Central Samba inspirado na levada da bateria dos Apaches do Tororó. O entidade sobreviveu por dois anos consecutivos.
Hoje, no clube dos setentões com o gene da folia em evidência volto a criar com amigos o Bloco Me Deixe Solto, Dagmar que desfilou no pré-carnaval de Salvador pelas ruas do Pelourinho. Tudo isso pela influência do Seu Abel, meu pai e maior inspirador em manter a chama do Carnaval acesa pelas ruas da cidade de Salvador. O sangue carnavalesco que percorre minhas veias é movido pelas batidas do Ijexá, samba – reggae e do frevo baiano.

As participações nos desfiles do Reggae – O Bloco e no Afoxé Filhos de Ghandy estão asseguradas, mas preciso fazer um acordo com uma dor lombar que insiste em me segurar sentado em casa assistindo o carnaval pela televisão.

Vamos conciliar, sim.

Viva Seu Abel!
Viva o Afoxé Filhos de Ghandy!
Viva o Carnaval de Salvador!

‘Onde vai papai ojô’

Zuggi Almeida é um cronista baiano.

*Foto realizada no Carnaval de 2014

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