Lançamento do livro “O abraço da Víbora-do-Gabão e outros sete contos mágico-encantados” de Carla Pita

Ana Paula Conselheira da Casa do Olodum, educadora antirracista Carla Pita estreia na literatura, a partir de experiências em Angola e nos terreiros de Salvador
Lançamento em 24 de julho, no Pelourinho, inaugura a Trilogia Ndoki, com ilustrações baseadas no Pantera Negra
No dia 24 de julho (sexta-feira), às 19h, a Casa do Olodum, no Pelourinho, será palco de um lançamento literário duplamente festivo. A conselheira da instituição, pedagoga afrocentrada e contadora de histórias, Carla Pita, celebra seus 50 anos estreando na literatura com ‘O abraço da Víbora-do-Gabão e outros sete contos mágico-encantados’. Ilustrada pelo carioca Edson Souza, a obra marca o nascimento da Editora Irê Afropedagogia e abre as portas da Trilogia Ndoki.
Haverá bate-papo com a autora e o ilustrador, além de apresentação dos alunos da Escola Olodum, da qual foi professora. “O Olodum é um amor antigo, uma grande paixão de adolescência que hoje se encontra com a maturidade da pedagoga afrocentrada que me tornei. Ingressar na Escola Olodum como educadora de lideranças afrodescendentes e, posteriormente, me tornar Conselheira da instituição foram passos fundamentais nessa história”, conta.
Tecido na encruzilhada entre a literatura mágico-encantada, a ancestralidade africana e a tradição oral dos terreiros, o livro é um manifesto de literatura de cura. As histórias são baseadas nas vivências de Carla Pita em Angola e em comunidades tradicionais de terreiro na Bahia. “Trabalhei e vivi na Angola profunda, de Cabinda ao Cunene, durante muitos anos; um reencontro ancestral que se tornou o grande divisor de águas da minha vida”, destaca.
Mas, essa imersão também trouxe dor e impotência à autora, que testemunhou graves violações de direitos contra crianças, mulheres e anciãos acusados de feitiçaria. “As violências e a consequente exclusão social crescem em toda a África Subsaariana. Suas raízes são truculentas, plantadas pelo colonialismo europeu e alimentadas hoje pela expansão de igrejas neopentecostais, cujos discursos incendiários de seus líderes associam a pobreza e a doença a ‘espíritos malignos’, marginalizando curandeiros, kimbandeiros, sobas e terapeutas tradicionais”, conta.
Escrever foi a resposta a essa realidade. No livro, o leitor será conduzido pela sabedoria ancestral africana, através de elementos afrofuturistas, e provocado a olhar o mundo por outra perspectiva, no qual a harmonia do corpo, da mente e da comunidade depende do respeito, da escuta e do vínculo inquebrantável com os nossos antepassados.
Território sagrado
As histórias se passam no território sagrado da Aldeia Hossi, onde personagens encontram força para despertar o ‘leão interior’. No conto que dá título ao livro, a guerreira Nambela é guiada por Ondjila, uma reverência direta a Exu Mavambo, divindade que rege os caminhos da própria autora. “Eu caminho sob a égide de Exu; Exu Mavambo é o magnânimo Ndoki da minha vida. É ele quem abre os caminhos e rege o meu destino. Essa conexão espiritual transborda para a minha trilogia”.
Os três livros – os outros dois estão em processo de finalização – são baseados em uma pedagogia afrocentrada e emancipatória, através da abordagem de temas como afrofuturismo, ancestralidade, cultura afro-brasileira e espiritualidade.
“Na minha prática, transformo esses pilares em vivências concretas através da contação de histórias e de jogos e brincadeiras afro-referenciados. É assim que apresento a riqueza histórica, a ciência e a inventividade dos povos africanos, sua relação harmônica com a natureza, o respeito aos mais velhos e o senso de comunidade. Levar essa perspectiva para a sala de aula e projetos socioculturais é um ato de reparação histórica. É um movimento que eleva a autoestima das crianças negras e ensina as crianças não negras a valorizarem a diversidade que construiu e pavimentou o Brasil”, garante Carla Pita, que é pedagoga com especialização em Educação Inclusiva.
Mais do que entretenimento, a obra carrega o selo da Irê Rebeliões Culturais e Afro-Pedagógicas, iniciativa idealizada por Carla Pita que atua há 15 anos promovendo a educação para as relações étnico-raciais e a Lei 10.639/03. O livro condensa essa bagagem pedagógica, sendo recomendado tanto para jovens e adultos, quanto para educadores e contadores de histórias que buscam expandir o repertório cultural afro-referenciado.
Parceria espiritual
O universo visual de ‘O abraço da Víbora-do-Gabão e outros sete contos mágico-encantados’ ganha vida pelas mãos do cientista social, grafiteiro e ilustrador Edson Souza. Para tornar a ficção decolonial ainda mais palpável para o público juvenil e adulto, o artista utilizou uma estética sóbria inspirada em HQs de super-heróis, tendo no Pantera Negra sua maior referência.
“Entendendo que a obra conversa com o público juvenil e adulto – pela densidade de sua imagética e a escrita cheia de nuances de Carla -, pensei em aproximar o meu traço do estilo das ilustrações de revistas em quadrinhos de super-heróis, em particular do artista Brian Stelfreeze, que desenhou a revista do Pantera Negra. Ele possui um estilo sóbrio sem muitos maneirismos, o que emula uma suposta realidade que conduz a leitura, tornando crível a ficção”, explica Edson, que é desenhista autodidata.
Segundo Edson, a colaboração com a autora e educadora baiana se deu através de uma conjunção espiritual, artística e mental. “Como Carla bem reforça, esta parceria já é planejada por ela há muito tempo, após ter contato com a minha arte. Mas, os caminhos são de Exú, e nos encontramos nesta encruzilhada de vivências no tempo certo para a realização deste livro. Ela me enviou uma mensagem na sexta-feira de carnaval, me convidando a ilustrar seu livro. Eu respondi: ‘estou pronto’! O restante é história…”
Essa história será contada no evento de lançamento, no qual o ilustrador vai bater um papo com a autora, com participação do também escritor César Sobrinho. Aberto ao público, e entrada gratuita.
Sobre a autora
Carla Pita é pedagoga com especialização em Educação Inclusiva, produtora cultural, conselheira da Casa do Olodum e idealizadora da Irê Rebeliões Culturais e Afro-Pedagógicas, iniciativa que promove uma educação e literatura afrocentrada. Nasceu em 24 de julho de 1976, em Salvador, Bahia. Escreve poemas, contos e histórias de aventuras desde os doze anos de idade. Na vida adulta, a contadora de histórias encontrou seu público docemente leal: as crianças. Em 2023, foi finalista do Prêmio Inspirar Neoenergia, com o projeto Confluências das Águas de África e Bahia: Navegando por História de Lá pra Cá, que oportuniza a contação de histórias africanas e afro-brasileiras para crianças em creches, escolas públicas e projetos socioculturais, voluntariamente.
Sobre o ilustrador
Edson de Souza é escritor, ilustrador e articulador cultural. Cientista Social formado pela PUC-Rio, com especialização em Estudos das Cidades e Estudos Afro-brasileiros. Artista autodidata que desenha desde a infância. Atua desde 2006 na cena urbana do Rio de Janeiro, onde transita pelo grafite, pelo slam de poesia e pela educação popular. Na literatura, explora a ficção especulativa sob uma perspectiva decolonial. É autor do projeto literário e educacional ‘O Som do Asfalto’, que narra uma construção ficcional da juventude negra periférica em torno do hip-hop e trabalha a formação de professores, agentes e educadores sociais. É ativista engajado em projetos como o Instituto Fala Quilombo, o coletivo Submundo da Arte e o projeto Cores da Periferia.
O que: Lançamento do livro ‘O abraço da Víbora-do-Gabão e outros sete contos mágico-encantados’ (Editora Irê, 63 páginas), de Carla Pita, com ilustrações de Edson Souza.
Bate-papo com a autora e o ilustrador; apresentação dos alunos da Escola Olodum.
Público-alvo: Jovens, adultos, educadores e público geral
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Valor - Entrada gratuita Livro: R$ 70
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