Fernando Noy. Por Jorge Papapá
Fernando Noy não caminha — ele atravessa. A cidade não é cenário, é cúmplice. Buenos Aires, com suas calçadas gastas e vitrines sonâmbulas, parece saber quando ele passa: algo se acende, como se uma lâmpada antiga lembrasse que ainda pode brilhar.
Noy é desses seres que não cabem em biografia. Não porque tenha feito muito — embora tenha feito — mas porque fez de si mesmo uma obra em permanente combustão. Há pessoas que vivem décadas; ele viveu atmosferas. Os anos 60 nele ainda dançam com Tanguito em alguma esquina invisível.
E então, nos anos 70, ele irrompe em Salvador como quem abre uma janela no meio de um quarto abafado. Fernando Noy não chegou — aconteceu. Trouxe consigo uma revolução de comportamento que não pedia licença, apenas se instalava. Na Bahia, não foi estrangeiro: foi chama. Misturou-se à cultura local, atravessou corpos, palcos, ruas e noites, e fez do carnaval não apenas uma festa, mas um estado permanente de existência.
Ali, tornou-se estrela — não dessas que brilham à distância, mas das que queimam perto, perigosamente vivas. No carnaval, era impossível não vê-lo, impossível não senti-lo. E, no entanto, ninguém jamais soube dizer exatamente quem ele era. Ou melhor: sabiam demais. Havia quem perguntasse se era ele ou se era ela. Noy era os dois. E talvez fosse ainda mais. Era síntese, transbordamento, ruptura. Era o resumo impossível das formas fixas — e justamente por isso, um ser raro, especial, irrepetível.
Nos carnavais da Bahia, onde a nudez não era escândalo, mas linguagem, quando a cortina caiu — literal e simbolicamente — o mundo não o censurou: aplaudiu. Reconheceu ali o gesto raro de quem não pede permissão para existir. Porque, para Noy, a vida sempre foi um eterno carnaval: um desfile contínuo onde identidade, corpo e poesia trocam de máscara sem nunca perder o rosto.
Anos depois, já em outro tempo, eu o encontrava quase sempre na Fundação Cultural, na gestão de Geraldo Machado. Nilson Mendes comandava o departamento de música, e aquele lugar parecia mais um território de invenção do que uma repartição pública. Só tinha fera. No setor de imprensa circulavam nomes como Fátima Barreto, Shirlei Pinheiro, Vander Prata, e Juca Ferreira também fazia parte daquele organismo vivo que respirava arte por todos os lados.
E lá estava Noy. Sempre lá. Não oficialmente — ou pelo menos nunca tive certeza disso. Mas havia nele uma presença tão constante que parecia pertencer ao quadro, como se fosse um cargo invisível, desses que não cabem em organograma. Ele atravessava os corredores com suas vestes improváveis, quase voando, como se o chão não fosse exatamente necessário. Ora em conversa com um, ora surgindo ao lado de outro, sempre orbitando aquele núcleo de criação, como se fosse ao mesmo tempo centro e margem.
Havia dias em que eu pensava: Noy não trabalha aqui — ele acontece aqui. Como se fosse uma espécie de energia livre, dessas que não se contrata nem se demite. Apenas se reconhece.
Há algo de rito em sua trajetória. Como se cada fase fosse menos uma escolha e mais uma travessia inevitável. Do hippismo ao tropicalismo, do exílio ao under portenho, Noy nunca foi turista do seu tempo — foi corpo inteiro dentro dele. No Parakultural, entre copos, delírios e vozes, ele não apenas assistia ao nascimento de uma estética: ajudava a parir um outro modo de estar no mundo, onde arte e vida deixavam de ser coisas separadas.
Mas talvez o mais curioso em Fernando Noy seja sua relação com a palavra. Ele não escreve como quem organiza — escreve como quem libera. Seus versos não parecem construídos; parecem escapados. Como se estivessem presos em algum lugar do corpo e, de repente, encontrassem uma fresta por onde sair, ainda quentes, ainda pulsando.
E no entanto, há também delicadeza. Uma delicadeza quase invisível, que só aparece quando ele fala de Alejandra Pizarnik, como quem segura um pássaro ferido sem saber se ele vai voar ou morrer nas mãos. Ou quando lembra da infância, das plantas que falavam, das hóstias com doce de leite — pequenas epifanias de um menino que aprendeu cedo que o mundo tem vozes, mas poucos tradutores.
Talvez seja isso: Noy traduz. Não idiomas, mas intensidades. Traduz o excesso, o delírio, a beleza abrupta, o grotesco luminoso das coisas. Traduz aquilo que normalmente escapa.
E por isso ele sorri. Sempre esse sorriso meio cúmplice, meio irônico, de quem sabe que sobreviveu não apenas ao tempo, mas às versões mais rígidas da realidade. “Sou um sobrevivente”, ele diz. Mas não soa como quem resistiu — soa como quem reinventou as regras do jogo.
Fernando Noy não pertence a uma época. Ele é uma espécie de fenda por onde várias épocas ainda respiram. E, no fundo, talvez seja isso que mais desconcerta: Noy não é só alguém que viveu o carnaval — é alguém que nunca saiu dele.
Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

Fernando Noy
