Aldeia Nagô
Facebook Facebook Instagram WhatsApp

Frutos Tropicais. Por Jorge Papapá

4 - 5 minutos de leituraModo Leitura

No início dos anos 70 Salvador já começava a viver uma efervescência cultural que mudaria para sempre a história da dança na Bahia. Muito antes de a dança afro ganhar o reconhecimento que viria depois, alguns mestres já plantavam sementes importantes pela cidade. Um deles era o mestre King, que já dava aulas no SESI e atraía jovens interessados em descobrir novas formas de expressão através do corpo.

Eu costumava passar pela Joana Angélica, ali depois do Colégio Severino Vieira, e via alunos de dança chegando e saindo do SESI, onde King dava suas aulas. Aquilo já me despertava uma curiosidade profunda. Havia um movimento no ar, uma vibração que parecia anunciar que algo novo estava nascendo na cidade.

Mais tarde, com a chegada de Clayde Morgan à Bahia, em 1971, esse movimento ganhou ainda mais força. A presença dele ajudou a ampliar os horizontes da dança na cidade, estimulando novas experiências e abrindo caminhos para uma geração inteira de artistas que buscavam reconectar o corpo com suas raízes culturais.

Além de King, me encantava o jeito especial de um cara chamado Reginaldo Flores, o Conga. Mas foi Raimundo Esse Tição com quem mais convivi. Foi Tição quem me convidou para fazer parte de um grupo de dança misturado com música, formado por Jorge Watutsi, o maranhense Walfran, Inaicira — filha do mestre Didi — Passarinho e alguns outros nomes que a memória hoje guarda como ecos distantes. A gente ensaiava na sede do Tupi, no Garcia, quase todos os dias. Era ali que a magia acontecia.

Tição era um dançarino primoroso. Bonito, com seus cabelos dread — um dos primeiros rastas da Bahia — tinha uma presença que iluminava o espaço. Quando ele começava a dançar, parecia que o corpo virava tambor. Cada movimento batia no chão como se chamasse ancestrais.

Jorge Watutsi era uma figura completamente singular. Muitos o chamavam de louco, mas era um desses loucos necessários para o mundo avançar. Dançava nas ruas com suas vestimentas exóticas, sempre acompanhado de Cafuné, sua companheira na época. Watutsi era genial, performático. Questionava o sistema o tempo inteiro com suas intervenções improvisadas nas praças, nos becos, nas esquinas da cidade. Salvador virava palco para suas inquietações.

Walfran era um compositor maranhense, músico de sensibilidade rara. Ele trazia as canções do boi do Maranhão e traduzia aquelas melodias para nosso universo de dança afro. Nos ensaios, o ritmo do boi se encontrava com os passos de origem africana, e aquilo criava uma energia difícil de explicar. Era como se o Nordeste inteiro estivesse dialogando através do corpo.

Tinha também um cara chamado Bernardo que fazia um número de dança com Tição que era simplesmente um espetáculo. Os dois se movimentavam como se fossem um só corpo dividido em dois. Força, precisão, improviso e poesia. Quem assistia ficava hipnotizado.

O Teatro Sucupira, onde hoje é o anexo da Câmara dos Vereadores, era um dos espaços onde aconteciam esses e vários outros espetáculos de dança afro. Ali se reuniam artistas, curiosos, estudantes, capoeiristas, músicos e sonhadores. Era um tempo em que a arte parecia crescer nas frestas da cidade.

Depois da chegada de Clayde Morgan em Salvador, os espaços foram se multiplicando e muita gente passou a estudar e praticar dança afro. Era como se uma porta tivesse sido aberta. O pessoal da capoeira começou a se misturar com bailarinos clássicos e, aos poucos, a cara do balé na Bahia foi mudando.

O próprio Balé do Teatro Castro Alves foi revitalizado com a presença de bailarinos negros oriundos da capoeira. Aqueles corpos traziam outra memória de movimento: gingavam diferente, pisavam diferente, respiravam diferente. O palco ganhou outra pulsação.

Salvador foi tomada pela dança afro.

Nos largos, nos terreiros, nas escolas, nas salas improvisadas de ensaio, surgiam novos passos e novas ideias. Os tambores ecoavam nos bairros, e os jovens começavam a entender que seus corpos também eram arquivos de história.

Vários grupos foram se formando na cidade, ocupando os espaços com a dança dos povos negros africanos recriada na Bahia. Cada grupo trazia um sotaque próprio, uma maneira singular de traduzir a ancestralidade em movimento.

Grupos como o Frutos Tropicais fizeram verdadeira revolução com seus espetáculos pela cidade. Formados em grande parte por capoeiristas negros, eles inauguraram uma mistura de tendências que ia do balé clássico às lutas marciais, passando pela capoeira e pela dança afro. Era força, disciplina e liberdade ao mesmo tempo. Eles eram fantásticos.

Muitos desses artistas passaram a integrar o corpo de balé do Teatro Castro Alves, levando para dentro de uma instituição tradicional a energia das ruas, dos terreiros e das rodas de capoeira.

E a partir dali a dança continuou se espalhando como raiz de mangueira em terra fértil.

Outros grupos começaram a surgir: coletivos pequenos que ensaiavam em quadras de escola, em centros comunitários, em salas emprestadas. Alguns duravam poucos anos, outros se tornavam referência. Em cada bairro havia alguém tentando transformar ritmo em movimento.

Nas tardes quentes de Salvador era possível ouvir o som de atabaques vindo de algum lugar e saber que ali dentro alguém estava aprendendo a dançar sua própria história.

Era um tempo em que a cidade respirava arte negra.

Os corpos falavam, os pés contavam histórias, os braços desenhavam no ar memórias que vinham de muito longe.

E quem viveu aquele período sabe:

não era apenas dança.

Era afirmação.

Era resistência.

Era ancestralidade caminhando pelas ruas de Salvador

Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

Compartilhar:

Mais lidas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *