Aldeia Nagô
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Janela aberta da televisão. Por Jorge Papapá

4 - 5 minutos de leituraModo Leitura

Quando eu tinha onze anos e morava no Alto do Pará, televisão era coisa rara — quase uma aparição. Não havia uma na minha casa. Nem na casa de nenhum dos meus amigos. No nosso pedaço de mundo, a televisão existia apenas em um lugar: na casa de Roberto Bocão, filho de João da Rodagem.
João da Rodagem era petrolheiro. Homem de serviço pesado, desses que voltam para casa com o corpo cansado e o cheiro do trabalho grudado na roupa. Talvez por isso sua casa tivesse duas riquezas que, para nós, pareciam milagres modernos: uma geladeira e uma televisão.
Roberto era bem mais velho que a gente. Devia ter uns dezoito anos — idade que, para nós, era quase a de um adulto completo. Filho único, dono da única televisão da redondeza, ele carregava nos gestos a autoridade de quem guarda a chave de um tesouro.
Para entrar naquela sala e assistir aos filmes, era preciso aceitar as regras do dono da tela.
A gente se acomodava no chão, enfileirado, com os olhos brilhando diante da televisão. Roberto se espalhava numa poltrona como quem ocupa um trono. Dali ele governava nossa pequena república de meninos.
Às vezes esticava as pernas e repousava os pés nas nossas cabeças, como se fôssemos parte da mobília da sala. Ninguém reclamava. Reclamar era o mesmo que perder o filme. E perder o filme era uma tristeza grande demais para um menino de onze anos.
Havia dias em que ele exagerava naquele poder. Chamava um de nós para buscar água na cozinha, outro para fechar o portão, outro para varrer um canto da casa. Às vezes mandava algum menino mais paciente pegar o cortador e aparar as unhas do seu pé ali mesmo, enquanto ele continuava sentado na poltrona, olhando para a televisão como um senhor sendo servido.
E a gente obedecia.
Não por vontade.
Mas porque, ali na nossa frente, brilhava a televisão — uma janela aberta para um mundo que a gente não queria perder.
Todo mundo tinha raiva de Roberto.
Mas todo mundo voltava.
A mãe dele passava pela sala, às vezes carregando as bandejas de abafabanca que fazia para vender. Abafabanca, para quem não conhece, eram cubos de gelo coloridos, congelados com sabor de frutas — uma espécie de picolé simples, que refrescava as tardes quentes da nossa infância.
Quando a gente conseguia algum trocado, ia comprar abafabanca na casa dela.
Mas o que a gente realmente queria comprar era um lugar ali dentro.
Um lugar diante da tela.
Com o tempo, outras casas começaram a ter televisão. Pequenos clarões surgiram nas janelas da vizinhança, como estrelas nascendo numa noite comprida. O reinado de Roberto Bocão foi perdendo força.
Mesmo assim, assistir televisão continuava sendo uma aventura.
Quando não dava para entrar nas casas, restava o portilho das janelas.
Eu levava comigo minha lata de leite Ninho. Encostava na parede, subia nela e me equilibrava para alcançar o portilho. Era meu banco, meu degrau e minha esperança.
Lá de cima eu espiava a televisão como quem espreita outro mundo.
Mas atrás de mim sempre apareciam meninos maiores, donos de mais força e menos paciência. Eles queriam o meu lugar.
Então vinham os cascudos.
De quem a gente nunca sabia.
Uma, duas vezes, outras vezes.
Pá.
Batidas secas na cabeça.
A dor subia pelo couro cabeludo, mas eu não descia da lata. Segurava firme no portilho e continuava olhando para dentro da casa, com os olhos grudados na tela.
Porque perder o lugar e o filme era pior que levar cascudo.
Assistir televisão, naquele tempo, era quase uma batalha.
E talvez por isso fosse tão bonito.
A gente via Ratos do Deserto, Túnel do Tempo, Terra de Gigantes, Príncipe Namor como quem descobre novos continentes. Cada episódio era uma viagem para longe da terra batida do Alto do Pará.
Até que um dia aconteceu o milagre.
Meu pai conseguiu comprar uma televisão.
Uma Colorado RQ.
De repente o cinema mudou de endereço.
Passou a morar na nossa casa.
A notícia correu ligeira pela vizinhança. A sala começou a encher de gente. Vizinhos, amigos, curiosos. Todos queriam assistir à primeira versão de Irmãos Coragem.
A televisão iluminava os rostos atentos enquanto João Coragem enfrentava o mundo ao lado dos irmãos Jerônimo e Duda.
E ali estava meu pai, vibrando junto com a novela como se também fizesse parte daquela história.
Às vezes eu olhava aquela sala cheia e lembrava do menino que eu tinha sido: equilibrado numa lata de leite Ninho, levando cascudos na cabeça só para não perder um pedaço de filme pelo portilho de uma janela.
Hoje eu penso que a televisão, naquele tempo, não era apenas um aparelho.
Era uma fogueira moderna em torno da qual as pessoas se reuniam.
Era encontro.
Era sonho.
E talvez seja por isso que, quando fecho os olhos, ainda vejo aquele menino magro equilibrado sobre uma lata de leite Ninho, com a cabeça ardendo de cascudos e os olhos cheios de luz.
Ele não sabia, mas estava aprendendo uma coisa que a vida inteira confirmaria: que quem insiste em olhar para a luz — acaba guardando dentro de si histórias que nunca mais se apagam.

Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

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