Jota Morbeck. Por Jorge Papapá
Jota Morbek não cantava — ele incendiava.
Subia no trio como quem sobe num raio, sem pedir licença ao céu nem à terra, e de repente a avenida já não era avenida: era mar aberto, era delírio, era um coração só batendo em milhares de peitos.
Havia algo de indomável nele.
Não era só a voz — rouca na medida, rasgada quando precisava, doce quando ninguém esperava. Era o gesto. O jeito de olhar como se conhecesse cada alma perdida no meio da multidão. Como se dissesse: “eu sei, eu também tô tentando entender tudo isso.”
E a gente acreditava.
Mas Jota não era só tempestade em cima do trio — ele levava o risco no sangue.
Amava a velocidade como quem ama o próprio destino. Correr perigo, pra ele, não era exceção: era linguagem. Lembro de uma vez, dentro daquele Opala que parecia mais um foguete desgovernado… a pista virando linha torta sob as rodas, o mundo passando em zigue-zague, e eu pedindo pra descer antes que o coração pulasse pela boca.
Jota só ria. Ria como quem conversa com o abismo e já sabe a resposta.
Não tinha medo de nada — ou, se tinha, nunca deixou que ele chegasse primeiro.
E era assim também fora da estrada — imprevisível como madrugada sem relógio.
Chegava lá em casa no meio da noite como se fosse meio-dia, batendo, chamando, inventando um destino qualquer: “bora, vambora viver”. Às vezes nem explicava — quando eu via, já estava decidido: pegar a estrada enquanto o mundo dormia.
Jota não precisava de mapa, nem de dinheiro, nem de convite.
Chegava em cidade que nunca tinha pisado, sem conhecer ninguém, sem ter sequer o trocado de um lanche — e ainda assim parecia que tudo já era dele. Parava o carro num posto, mandava encher o tanque e perguntava: “quem é o gerente?”.
Horas depois, lá estava ele — braço no ombro, rindo alto, como se fossem irmãos de infância. E era assim em todo lugar.
Hotel bom pra Jota nunca foi questão de reserva — era questão de conversa.
Entrava, ficava, encantava. Quando dava por conta, já conhecia o dono, o gerente, o garçom, o porteiro… e saía de lá não só hospedado, mas querido — às vezes até com dinheiro no bolso e histórias novas pra contar.
E quando resolvia convidar a gente pra comer… era outro espetáculo.
Sentava à mesa como um maestro diante da orquestra e começava: pedia de tudo. Pratos e mais pratos, como se quisesse alimentar o mundo inteiro de uma vez só. Carne, peixe, entrada, sobremesa — nada ficava de fora. A mesa virava festa antes mesmo da primeira garfada.
E Jota? Quase nada.
Ficava ali, observando, rindo, brindando… algumas doses de whisky e só. Como se o prazer dele não estivesse em comer, mas em ver a vida acontecendo nos outros.
Era excesso — mas não de fome.
Era de intensidade.
Se deixassem Jota falar, ele convencia o mundo.
Mas não era truque — era afeto. Era essa coisa rara de quem chega sem defesa e desarma qualquer um.
Porque, no fundo, Jota era isso: amável.
Querido por onde passava. Um desses que a vida não segura, só acompanha.
E havia também aquele detalhe que nunca falhava: a camisa de manga comprida.
Podia ser calor, podia ser pressa, podia ser qualquer cenário — Jota estava sempre ali, elegante à sua maneira, como se carregasse um estilo próprio que não obedecia estação nem regra. Era quase um uniforme de quem já acordava pronto pro espetáculo.
Aliás, dormir… não parecia fazer parte dos planos dele.
Jota tinha pressa — pressa de viver, pressa de sentir, pressa de não deixar nada pra depois. A madrugada, pra ele, nunca era fim: era começo. Enquanto o mundo descansava, ele acendia mais uma história.
E nessa intensidade toda, era impossível passar despercebido.
Tinha sempre alguém apaixonado por ele — ou vários alguéns. Olhares seguindo, sorrisos esperando, corações disponíveis. E Jota, mesmo sendo casado, nunca foi indiferente a esse carinho. Não era desdém nem descuido — era da natureza dele retribuir afeto com afeto, atenção com atenção, como quem entende que o amor, em qualquer forma, é parte do espetáculo da vida.
E quando subia no palco… aí já não era homem. Era fenômeno.
Um furacão de cabelos loiros, sempre bem vestido, botas marcando presença — às vezes subindo até o joelho — como quem pisa forte no próprio destino. Ele não se apresentava: ele acontecia.
Na verdade, Jota nunca saía do palco.
Desde a hora que acordava, já era artista. Já abria a porta do quarto como quem abre cortina, pronto pra ser visto, ouvido, sentido.
Dizem que os maiores artistas sabem a hora de parar.
Jota nunca soube. Ainda bem.
Porque existem aqueles que passam pela música…
E existem aqueles que viram música.
Jota Morbek virou.
Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

