Julho das Pretas: conheça um legado de amor à gastronomia que ultrapassa gerações de mulheres baianas
Alice Marques, Maria Célia Guimarães e Graça Marques (da esquerda para a direita) – Crédito: Keylane Dias
Celebrando e incentivando o fortalecimento coletivo das mulheres negras, o Julho das Pretas é um mês marcado por histórias de ancestralidade e resistência. Uma dessas histórias tem raízes na Bahia, onde, por meio do amor à gastronomia, Maria de São Pedro — mulher negra, cozinheira e baiana — abriu caminhos com seu tempero e se tornou símbolo de inspiração.
Nascida no ano de 1901, em Santo Amaro da Purificação, Maria de São Pedro mudou-se para Salvador em busca de oportunidades. Na capital baiana, começou a trabalhar como cuidadora de crianças nas conhecidas “casas de família”. No entanto, foi o amor à gastronomia e o desejo por uma vida melhor que impulsionaram a criação do seu primeiro negócio: uma barraca de culinária baiana na antiga Feira do Sete, localizada na Cidade Baixa.
Foi em 1925, então com 24 anos, que a baiana alçou voos maiores. Com um tempero marcante, Maria abriu seu primeiro restaurante no Mercado Popular, próximo à Feira de Água de Meninos, com a ajuda de seu fiel freguês e vereador Genebaldo Figueiredo. Após muito trabalho e o enfrentamento de desafios marcados por lutas e preconceitos, o restaurante Maria de São Pedro foi transferido para a atual sede do Mercado Modelo.
O talento de Maria na cozinha lhe rendeu títulos importantes, passando a ser conhecida como a “dama da culinária baiana” por seus admiradores. Carregando um legado poderoso de ancestralidade e resistência, o restaurante resiste há quase um século e,desde então, o local tem ensinado à linhagem de Maria o poder do empreendedorismo feminino e a força de um povo.
De geração para geração
Graça Marques e Maria Célia Guimarães, netas de Maria de São Pedro, são as responsáveis pelo restaurante atualmente. Graça conta que não chegou a conhecer a avó, mas, por meio do carinho e das histórias contadas por sua mãe, Eunice Marques, uma das 14 filhas e filhos de Maria de São Pedro, pôde se aproximar dos ensinamentos deixados pela matriarca da família e, junto com os demais netos e bisnetos, pôde seguir com o legado.
“Como neta, estamos sempre tentando enraizar o nosso legado do jeitinho que a minha avó passou para os seus filhos e que, consequentemente, foi passado para nós. Isso é fundamental para não perdermos a essência na qual o negócio foi criado e que permeia o nosso jeito de fazer as coisas até os dias de hoje”, explica.
Graça Marques ressalta que assumir o legado da avó foi algo natural, justamente por conviver com a rotina do restaurante desde criança. “Costumo dizer que a continuação do legado de Maria de São Pedro está no nosso sangue, e eu acho isso maravilhoso”, declara, orgulhosa.
O poder do empreendedorismo negro
Berço de grandes negócios, a Bahia tem 79% de seus empreendedores autodeclarados negros, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Já a pesquisa “Propósitos dos Afroempreendedores Baianos”, realizada pelo Sebrae Bahia e divulgada em 2023, revelou uma predominância feminina no cenário: 54% dos negócios são conduzidos por mulheres que buscam construir seu próprio caminho no empreendedorismo.
Para Graça Marques, o crescimento do empreendedorismo negro, especialmente entre mulheres, é fruto da resistência e da valorização da história e dos esforços daqueles que começaram essa trajetória há séculos, como sua avó. Ela também destaca a importância de abraçar as inovações trazidas pela tecnologia, sem abrir mão das raízes e das tradições herdadas dos antepassados.
“De fato, os tempos mudaram bastante. Hoje, a gente vê as coisas de forma diferente, percebemos um cenário novo, tanto nos negócios quanto na valorização do povo negro, em tudo que já foi construído e no que ainda temos a construir. Assim, seguimos caminhando com bons passos, sem perder a nossa essência”, declara.
100 anos de legado
Completando um século de existência em 2025, o restaurante Maria de São Pedro vem se renovando a cada dia. Graça Marques destaca que este é um momento de revitalização de um espaço emblemático, frequentado por diversas pessoas, inclusive celebridades como: Jorge Amado, Odorico Tavares, Orson Welles, Dorival Caymmi, Pablo Neruda, Rainha Elizabeth II, Camafeu de Oxosse, Jean Paul Sartre e sua esposa Simone de Beauvoir, Mirabeau Sampaio, além de outros intelectuais, comerciantes e políticos.
“Estamos, neste momento, buscando renovar a nossa culinária, sem perder, é claro, a essência. Sentimos que chegou a hora de revitalizar o nome de Maria de São Pedro, uma mulher lutadora, batalhadora, que levou o nome da Bahia além das fronteiras do estado e do país”, declara.
