Lindóia (O garçon que servia o invisível). Por Jorge Papapá
Foi em Itabuna, numa noite que cheirava a novidade, que conheci Lindóiá. Ele era “zarolho”. Lindoiá vinha de “lindo olhar”.
A cidade parecia suspensa entre o frio e a curiosidade. O restaurante Raposa Negra estava pra abrir as portas, e a inauguração prometia ser daquelas noites em que a música, o riso e o cheiro da comida se entendem sem precisar de tradução.
Naquela noite, o show ficaria por conta dos artistas Leguelé Marques, Lula Carvalho, Cardan Dantas e eu.
O anfitrião era Francisco D’avila, ou simplesmente Chico D’avila. Homem de generosidade antiga e visão de artista, que sonhava com um espaço onde a boa comida e a boa música pudessem dividir o mesmo prato.
Nos hospedamos em sua casa, um lugar de portas abertas, onde o café nunca esfria e as paredes respiram história.
Foi lá que conheci Edmundo Simas, o Super Boy – artista plástico soteropolitano, que vivia em Itabuna naquele período, mergulhado em cores e idéias junto com a Maura, sua mulher. Tinha o dom de trasformar o cotidiano em tela, e falava com as mãos, como se desenhasse no ar as palavras que não cabiam na boca.
O Super Boy parecia enxergar o mundo em pinceladas. E cada frase dele deixava um rastro de cor no pensamento da gente.
Mas naquela noite, entre tantos artistas e sons, quem roubou minha atenção foi um homem simples, de Passos leves e olhar indecifrável: Lindoiá.
Ninguém sabia seu nome de batismo, e talvez nem importasse. Era Lindoiá. E isso bastava.
Nome de rio manso, de flor do sertão, de segredo de beira de estrada.
Ele era o garçom do Raposa Negra. Mas “garçom” é palavra curta demais pra caber em Lindoiá.
Ele não servia mesas, ele dançava entre elas. Se movia com uma leveza que fazia as bandejas parecerem asas.
Os copos tilintavam como instrumentos. E o chaqualhar dos talheres virava parte da música que vinha do palco.
Tinha o dom raro de estar em todos os lugares ao mesmo tempo.
E aquele olhar…
Um olho parecia mirar o horizonte, o outro flutuava noutro mundo.
Ninguém sabia ao certo pra onde ele olhava. Mas todo mundo sentia que ele via o que importava: um prato precisando de mais tempero, um cliente pedindo silêncio com os olhos, ou um músico com sede entre uma canção e outra.
Lindoiá servia como quem abençoa.
Colocava o copo sobre a mesa com um gesto pequeno, mas cheio de respeito, como se cada gole fosse parte de um ritual. E fazia tudo com um carinho que só tem quem entende o valor das pequenas gentilezas.
A noite correu entre vozes, violões e gargalhadas. O Raposa Negra pulsava.
O público dançava entre os aromas da cozinha e os acordes do palco. E lá estava ele – Lindoiá – no vai e vem sereno, regendo o salão como um maestro invisível.
Quando o último acorde silenciou e o público começou a se dispersar, ele veio até mim. Trazia uma xícara de café fumegante, dessas que encerram a noite com um ponto de luz.
Olhou, ou quase olhou e disse, num tom manso, meio risonho, meio filosófico:
_” O truque é nunca parar de olhar, mesmo que ninguém saiba pra onde.”
E foi embora devagar, como quem sabe que presença não depende de permanência.
Na manhã seguinte, Itabuna parecia outra. Ou talvez fosse eu quem tivesse mudado.
Entre o cheiro do café e as lembranças da véspera, pensei em Lindoiá, no Super-Boy, em Chico D’avila e naquela casa cheia de arte e de música.
Pensei em como a vida é feita desses encontros que não se repetem, mas que ficam morando dentro da gente. Porque Lindoiá não servia pratos, servia presença.
Servia cuidado. Servia poesia em doses pequenas.
E desde aquele dia, em cada palco, em cada restaurante, procuro um olhar gentil e transparente. Às vezes encontro, escondido no gesto gentil de alguém que recolhe copos, ou no silêncio atento de quem entende o valor do instante.
São pessoas assim que mantêm o mundo girando no compasso certo. Com delicadeza, com atenção, com amor sem alarde.
E talvez seja por isso que eu canto: pra tentar servir também, à minha maneira, um pouco daquilo que Lindoiá servia com suas mãos e seu mistério.
Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

