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Louco por Você: a cartografia afetiva de Caetano no Cinema Transcendental. Por Renato Queiróz

4 - 5 minutos de leituraModo Leitura

Louco por Você: a cartografia afetiva de Caetano no Cinema Transcendental

Caetano Emanuel Vianna Telles Velloso, Santo Amaro (da Purificação), Bahia.

Senta que lá vem História!

Caetano Veloso veio ao mundo num 7 de agosto de 1942 – data que o calendário católico dedica a São Caetano de Thiene, padroeiro dos trabalhadores.

Não por acaso: seu nome é uma homenagem direta ao santo, ecoando tradições profundamente enraizadas no Brasil.

“Caetano”, afinal, deriva de Caietanus, referência à cidade italiana de Gaeta.

Mas essa herança católica, longe de ser um limite, tornou-se apenas o ponto de partida.

A obra do artista absorveu o rico sincretismo religioso brasileiro com uma sede rara, transformando fé em poesia, dogma em canção.

E há uma ironia deliciosa nessa história: enquanto São Caetano pregou a reforma da Igreja no século XVI, seu homônimo tropical acabou por se tornar um revolucionário da própria cultura.

Cinema Transcendental (1979) destaca-se na trajetória de Caetano Veloso como uma obra tão experimental quanto visionária.

Produzido com tantas mãos, além de Caetano e por Perinho Albuquerque, o álbum nasceu no lendário estúdio Sigla, no Rio, capturando um momento de criatividade transbordante.

Mais do que consolidar sua voz no cenário pós-tropicalista, o disco revelou Caetano em plena maturidade criativa – um divisor de águas que fundiu tradição e vanguarda com rara maestria.

A escolha da Verve Records para o lançamento internacional foi bastante significativa. Fundada nos EUA e lendária por seu catálogo de jazz (com nomes como Ella Fitzgerald e Stan Getz), a Verve já pertencia, na época, ao conglomerado PolyGram – que anos depois, em 1998, se fundiu para formar o atual Universal Music Group.

Esse selo garantiu ao álbum uma projeção global, algo crucial para um trabalho que explorava, com sofisticação ímpar, as fronteiras entre a MPB, o rock, a psicodelia e até referências ao cinema – como sugere o título.

O álbum é tido como uma obra-prima e reflete tanto o amadurecimento lírico de Caetano quanto seu engajamento com as transformações culturais da época.

Contemplação.

Visão do mundo, das coisas, das pessoas.

Zen.

Essas são as lágrimas que temos com audição de Cinema Transcendental.

Sobre o disco, Caetano disse:

“É um trabalho com A Outra Banda da Terra, todo produzido, na contramão das lantejoulas de Los Angeles.”
.
A Outra Banda da Terra era formada por uma galera que conhecia mesmo de música. Todos exímios multi-instrumentistas: Vinicius Cantuária, Tomás Improta, Zé Luiz, Perinho Santana e Arnaldo Brandão, na base do arranjo coletivo e na troca de instrumentos.

Todos em todas as músicas.
Um sorteio de músicos tão talentosos que literalmente no percurso das canções tocam de tudo e tudo.

Total liberdade e comunhão.

Caetano declarou:

“[…] Gosto dessa fase.
Era um tempo alegre.
Tem Beleza Pura, inspirada num refrão do Elomar – ‘viola, alforria, amor, dinheiro não’. É como os pretos da Bahia, tem tudo, dinheiro não. Hoje está na moda. É anti-yuppie, chega a ser óbvio.“

O álbum é um mosaico de vozes composicionais, onde Caetano Veloso domina as 10 faixas, explorando desde orações cósmicas (“Oração ao Tempo”, “Lua de São Jorge) até epifanias cotidianas (“Trilhos Urbanos”, “Menino do Rio”).

As colaborações ampliam seu universo: Jorge Mautner injeta escuridão poética em “Vampiro”; o concretismo de Augusto de Campos e Péricles Cavalcanti condensa dor em “Elegia”; e a coautoria com Cantuária e Improta em “Aracaju” revela um raro exercício de criação coletiva. O supra sumo de Cajuína.

Essa pluralidade — entre o solo e o compartilhado, o conciso e o expansivo — reflete o próprio conceito de “Cinema”: cada faixa é um frame autoral que, unido, compõe um retrato multifacetado do Brasil.

Um equilíbrio entre raiz e vanguarda, onde a curadoria de Caetano transforma diferenças em unidade estética.

Em “Louco por Você”, Caetano Veloso tece uma declaração de amor que transcende o óbvio, transformando a paixão em ato filosófico e geográfico.

Composta durante seu exílio em Londres (1971) e só gravada em 1979 no seminal Cinema Transcendental, a canção é um paradoxo lírico : fala de desespero com doçura de canção de ninar, enquanto sua estrutura minimalista – violão despojado, voz sussurrada quase em coloquialismo – esconde uma complexidade emocional labiríntica.

A genialidade está no verso que desmonta o clichê romântico: Aqui, Caetano lembrando-nos que o amor é carne e química, mas também viagem.

A síntese: fundir o concreto e o transcendental, o corpo e o sonho, numa canção que soa simples como um respiro, mas pulsa como um mapa do humano.

“Louco por você” permanece não como relíquia, mas como prova de que a grande poesia — tal qual o amor — é feita de verdades que se movem.

SONZAÇO!

Renato Queiroz  é professor, compositor, poeta e um apaixonado pela história da música.

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