Aldeia Nagô
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Mãe Stella: uma vida, uma luz! Por Adriano Azevedo

4 - 5 minutos de leituraModo Leitura
Adriano Azevedo

Ainda em tempo, aos vinte e sete dias do mês de dezembro de dois mil e vinte e cinco, o Ilê Axé Opô Afonjá dá por encerrada a última obrigação pela passagem de tia Stella neste plano. Parece que foi ontem! Mas, lá se foram sete anos sem a presença física de minha tia. A emoção foi à mesma de sete anos atrás. E só em lembrar que não tenho mais as prosas de fim de tarde, onde ela me ensinava à magia do Candomblé, o coração aperta de saudade.

Felizmente o Candomblé me deu suporte e ferramentas para que eu possa compreender a morte com mais serenidade, embora nunca estejamos prontos pra este momento. E quando falo em sustentação; amparo; pilar, ou seja, “Opô”, expresso a minha lealdade e amor que tenho pelos Orixás, Ancestrais e Encantados, onde, em respeito ao sagrado e sem autorização dos mesmos não pude filmar ou fotografar o momento de ontem, haja vista que a nossa tradição não permite a exposição do sagrado nas redes sociais ou em quaisquer meio deste tipo. Por isso, rememoro aqui o que pude presenciar no último dia do Axexê de minha tia, e, espero que nestas linhas eu consiga aguçar a imaginação de quem ler.

Após todos os filhos dançarem, Egbome Tutuca, a mais velha das filhas de Iansã, conduziu uma singela homenagem, aonde todas as filhas de Iansã dançaram a cantiga de Oyá que tia Stella mais gostava. “Iansã gba mi ô. Ajumuda (…)”
[Não me atreverei no ioruba, por isso não recitarei o restante da cantiga].

A condução dos Ojés na cerimônia re-significa e dignifica a morte, seja ela em qual for às circunstâncias. A sensação de que a morte não é um fim é bastante evidente. E só quem acredita de verdade no que os olhos do não iniciado podem ver – “as tiras de pano”, saberão o que estou dizendo. Agora imaginem vocês, eu que sou iniciado, a minha sensação em rever meu ente querido?!

Alapalá, o Egun Ojixé – Guardião do Opô Afonjá; Abi Irin, o Konigbagbe – meu tataravô; Okan Nilê, José Félix dos Santos, afilhado de tia Stella e neto do Mestre Didi e mais dois Eguns irmãos Ara Lonã e Olubolá, conduziram o término do Axexê. Na porta do barracão, todos os filhos assistiam os Eguns bailarem ao som dos atabaques. Alapalá saudou todos os filhos, e disse que estava ali cotidianamente em sua forma natural olhando todos os filhos da casa. Abençoou mãe Ana e disse que ela podia contar com sua boa energia para condução do Axé. Okan Nilê se apresentou para aqueles que ainda não o conhecia naquele plano espiritual, onde disse seu nome de Ojé, nome que hoje eu carrego com muito orgulho – Ojé Abigbaewê.

Vôinho, Babá Abi Irin mandou chamar minha mãe, pois Ele queria vê-la. Quando eles se encontraram foi pura emoção. Ele disse que o Olukonigbagbe – meu pai Adriano de Azevedo, estava ali, mas que ela não podia vê-lo. Mas que ele estava bem e nos emanando boas energias junto à tia Stella. Alapalá endossou e pediu para que não chorássemos, pois o momento era de alegria para Eles, e disse que não tivéssemos medo, e ainda me sinalizou: “Você é um Ojé! Não se esqueça disso!” Colocou o Oxé em minha cabeça e me abençoou.

Vôinho saudou minha irmã Andréia e me perguntou pelos outros: Reina, Miguel e Carolina, que espera em seu ventre o mais novo membro da família Konigbagbe, mas infelizmente eles não estavam, então disse que num próximo momento festivo gostaria de vê-los.

Ao escrever estas linhas, lembrei-me com saudade do velho Carybé. Pois com certeza ele ilustraria perfeitamente todo este cenário a partir da sua memória iconográfica. Pois bem… Já era final de tarde, e o Opô Afonjá tem o pôr do sol mais bonito da Cidade, onde o crepúsculo emoldura o céu ao fundo da casa de Oxalá. Vôinho e os demais Eguns se despediam de todos os presentes, e, ao som do Alujá (ritmo de Xangô) e os últimos raios de sol, onde o colorido e o fúlgido de suas roupas resplandeciam todo o Terreiro de Afonjá e da nossa Ancestral maior, Mãe Anninha, só ficava o gosto da saudade em cantar e bater palmas para aqueles que foram agraciados por Deus – Olorun, em retornar na condição de Babá Egun para rever os que aqui ficaram.

Tia Stella se tornou um ser de luz. E a minha fé acredita que seu o espírito se tornou força; energia viva, que através do amor, rezas e cânticos a magia do Candomblé acontece, e foi isso que ela me ensinava em nossas prosas de fim de tarde. Êta saudade!

Adriano Azevedo é Obá Abiodun, Balé Oyá, Ojé Abigbaewê, sobrinho e filho de santo de dona Maria Stella de Azevedo Santos, Mãe Stella de Oxossi.

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